Norwegian Wood, foi a minha primeira experiência com o escritor japonês Haruki Murakami; foi também um dos livros que mais me marcaram em 2016. A experiência de leitura foi intensa, cheia de anotações e reflexões, e desde o início ficou claro para mim que se tratava de uma obra que valia muito a pena. Estamos falando de uma leitura sobre memória, luto e amadurecimento.
Haruki Murakami é, provavelmente, o autor japonês mais conhecido da literatura contemporânea. Eu já tinha curiosidade em conhecê-lo desde que a trilogia 1Q84 começou a ser publicada no Brasil, quando seu nome passou a circular com ainda mais força entre as pessoas leitoras que faziam parte do meu círculo social. A dúvida era por onde começar e acabei escolhendo Norwegian Wood por um motivo curioso: o título, que faz referência direta à famosa música dos Beatles.
Somente depois da leitura descobri que o livro foi lançado no Japão em 1987, se tornando um enorme sucesso por lá e, posteriormente, conquistando leitores no mundo inteiro.
A história pertence a um tipo de narrativa que me agrada muito: aquela que acompanha a transição da adolescência para a vida adulta. O narrador é Toru, que, já próximo dos 40 anos, revive seu passado ao ouvir Norwegian Wood, faixa dos Beatles lançada em 1965 no álbum Rubber Soul, tocando em um aeroporto. A música funciona como um gatilho para memórias adormecidas, levando-o a revisitar o período entre seus 17 e 21 anos. A partir daí, a narrativa se constrói como um grande flashback ambientado no Japão do fim dos anos 1960.
Nesse retorno ao passado, conhecemos o Toru adolescente, seu melhor amigo de infância, Kizuki, e Naoko, a namorada desse amigo. Pouco depois de completar 17 anos, o amigo comete suicídio, um acontecimento que marca profundamente tanto Toru quanto Naoko. Os dois acabam se afastando, e Toru segue para outra cidade, onde inicia sua vida universitária.
O livro acompanha suas experiências nesse novo ambiente: o alojamento estudantil, o colega de quarto completamente diferente dele, as aulas, as leituras e os novos encontros. Paralelamente, acompanhamos o reencontro com Naoko e percebemos o contraste entre os dois. Enquanto Toru, ainda em luto, consegue seguir em frente, Naoko permanece profundamente afetada pela perda.
Esses momentos conferem à narrativa um tom melancólico muito forte — um dos aspectos que mais me marcaram. Norwegian Wood trata da morte de maneira recorrente, não apenas pelo suicídio, mas também por meio de doenças, envelhecimento e perdas inevitáveis. Ao mesmo tempo, aborda as descobertas e inseguranças típicas da juventude, o amadurecimento emocional e as complexidades psicológicas desse período da vida.
Grande parte do livro gira em torno da relação entre Toru e Naoko e da tentativa dele de compreendê-la. O mais interessante é perceber que essa tentativa não pertence apenas ao Toru jovem: o Toru adulto, que narra a história, também demonstra não entender completamente certos acontecimentos, revelando que algumas percepções só surgem com o passar do tempo. Esse jogo entre memória e compreensão tardia torna a narrativa especialmente rica.
No entanto, há um ponto que me incomodou bastante ao longo da leitura: a presença frequente de cenas de sexo. Em alguns momentos, elas fazem sentido dentro do processo de amadurecimento do personagem, mas em outros surgem de forma gratuita, sem contribuir para a narrativa. Essas passagens acabam quebrando o ritmo do livro e destoando do tom delicado e melancólico construído em outros trechos. Não tenho objeções ao tema em si, desde que haja um propósito narrativo claro — o que nem sempre acontece aqui.
Em relação aos personagens, gostei muito de como são apresentados. Em certos momentos, eles podem parecer superficiais, mas isso faz sentido dentro da proposta do livro: estamos acompanhando memórias narradas muitos anos depois. Com o tempo, lembranças se tornam fragmentadas, e apenas aquilo que foi mais marcante permanece nítido. Essa abordagem reforça o caráter memorialista da obra.
O grande destaque, para mim, é a escrita de Murakami. Sua narrativa é envolvente, com um ritmo muito agradável, e suas descrições — especialmente da natureza — são de uma beleza impressionante. Além disso, o livro está repleto de referências culturais, principalmente musicais. Além da canção que dá título à obra, várias músicas dos Beatles aparecem ao longo da narrativa, assim como referências literárias, entre elas Walden e O Grande Gatsby.
Apesar das ressalvas, Norwegian Wood foi uma leitura extremamente válida. Gostei quase tanto quanto esperava e considero um excelente ponto de entrada para quem deseja conhecer a obra de Haruki Murakami - mesmo que a obra seja considerada, em alguns aspectos, um ponto fora da curva na bibliografia do autor. É um livro sensível, melancólico e reflexivo, que permanece com o leitor muito depois do fim da leitura.
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Aparentemente, em 2012 o artista Grant Snider criou um bingo com os elementos mais marcantes e/ou repetidos na obra do Murakami e, apesar de Norwegian Wood destoar da obra posterior do autor, ainda assim é possível fazer "check" em algumas caixinhas:



