28 de junho de 2016

Norwegian Wood (Haruki Murakami) • BOOK REVIEW

Norwegian Wood, foi a minha primeira experiência com o escritor japonês Haruki Murakami; foi também um dos livros que mais me marcaram em 2016. A experiência de leitura foi intensa, cheia de anotações e reflexões, e desde o início ficou claro para mim que se tratava de uma obra que valia muito a pena. Estamos falando de uma leitura sobre memória, luto e amadurecimento.

Haruki Murakami é, provavelmente, o autor japonês mais conhecido da literatura contemporânea. Eu já tinha curiosidade em conhecê-lo desde que a trilogia 1Q84 começou a ser publicada no Brasil, quando seu nome passou a circular com ainda mais força entre as pessoas leitoras que faziam parte do meu círculo social. A dúvida era por onde começar e acabei escolhendo Norwegian Wood por um motivo curioso: o título, que faz referência direta à famosa música dos Beatles.

Somente depois da leitura descobri que o livro foi lançado no Japão em 1987, se tornando um enorme sucesso por lá e, posteriormente, conquistando leitores no mundo inteiro.

A história pertence a um tipo de narrativa que me agrada muito: aquela que acompanha a transição da adolescência para a vida adulta. O narrador é Toru, que, já próximo dos 40 anos, revive seu passado ao ouvir Norwegian Wood, faixa dos Beatles lançada em 1965 no álbum Rubber Soul, tocando em um aeroporto. A música funciona como um gatilho para memórias adormecidas, levando-o a revisitar o período entre seus 17 e 21 anos. A partir daí, a narrativa se constrói como um grande flashback ambientado no Japão do fim dos anos 1960.

Nesse retorno ao passado, conhecemos o Toru adolescente, seu melhor amigo de infância, Kizuki, e Naoko, a namorada desse amigo. Pouco depois de completar 17 anos, o amigo comete suicídio, um acontecimento que marca profundamente tanto Toru quanto Naoko. Os dois acabam se afastando, e Toru segue para outra cidade, onde inicia sua vida universitária.

O livro acompanha suas experiências nesse novo ambiente: o alojamento estudantil, o colega de quarto completamente diferente dele, as aulas, as leituras e os novos encontros. Paralelamente, acompanhamos o reencontro com Naoko e percebemos o contraste entre os dois. Enquanto Toru, ainda em luto, consegue seguir em frente, Naoko permanece profundamente afetada pela perda.

Esses momentos conferem à narrativa um tom melancólico muito forte — um dos aspectos que mais me marcaram. Norwegian Wood trata da morte de maneira recorrente, não apenas pelo suicídio, mas também por meio de doenças, envelhecimento e perdas inevitáveis. Ao mesmo tempo, aborda as descobertas e inseguranças típicas da juventude, o amadurecimento emocional e as complexidades psicológicas desse período da vida.

Grande parte do livro gira em torno da relação entre Toru e Naoko e da tentativa dele de compreendê-la. O mais interessante é perceber que essa tentativa não pertence apenas ao Toru jovem: o Toru adulto, que narra a história, também demonstra não entender completamente certos acontecimentos, revelando que algumas percepções só surgem com o passar do tempo. Esse jogo entre memória e compreensão tardia torna a narrativa especialmente rica.

No entanto, há um ponto que me incomodou bastante ao longo da leitura: a presença frequente de cenas de sexo. Em alguns momentos, elas fazem sentido dentro do processo de amadurecimento do personagem, mas em outros surgem de forma gratuita, sem contribuir para a narrativa. Essas passagens acabam quebrando o ritmo do livro e destoando do tom delicado e melancólico construído em outros trechos. Não tenho objeções ao tema em si, desde que haja um propósito narrativo claro — o que nem sempre acontece aqui.

Em relação aos personagens, gostei muito de como são apresentados. Em certos momentos, eles podem parecer superficiais, mas isso faz sentido dentro da proposta do livro: estamos acompanhando memórias narradas muitos anos depois. Com o tempo, lembranças se tornam fragmentadas, e apenas aquilo que foi mais marcante permanece nítido. Essa abordagem reforça o caráter memorialista da obra.

O grande destaque, para mim, é a escrita de Murakami. Sua narrativa é envolvente, com um ritmo muito agradável, e suas descrições — especialmente da natureza — são de uma beleza impressionante. Além disso, o livro está repleto de referências culturais, principalmente musicais. Além da canção que dá título à obra, várias músicas dos Beatles aparecem ao longo da narrativa, assim como referências literárias, entre elas Walden e O Grande Gatsby.

Apesar das ressalvas, Norwegian Wood foi uma leitura extremamente válida. Gostei quase tanto quanto esperava e considero um excelente ponto de entrada para quem deseja conhecer a obra de Haruki Murakami - mesmo que a obra seja considerada, em alguns aspectos, um ponto fora da curva na bibliografia do autor. É um livro sensível, melancólico e reflexivo, que permanece com o leitor muito depois do fim da leitura.


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Aparentemente, em 2012 o artista Grant Snider criou um bingo com os elementos mais marcantes e/ou repetidos na obra do Murakami e, apesar de Norwegian Wood destoar da obra posterior do autor, ainda assim é possível fazer "check" em algumas caixinhas:


Achei a ideia divertida e resolvi trazer para o blog; assim com cada leitura de um livro do autor, posso marcar o bingo.


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Essa leitura também é parte dos desafios:


14 de junho de 2016

Chaos And The Calm (James Bay, 2015)

29. Escolha um álbum e fale dele

Uma vez uma pessoa usou a palavra "cíclica" para me dizer que tinha fases no que diz respeito à forma como se relaciona com as diferentes formas de arte e fiquei com isso na cabeça. Desde que me entendo como alguém que deixou de ser criança, percebo que meus interesses quando busco entretenimento variam de intensidade; por exemplo: sempre gostei de filmes, televisão e livros, porém a intensidade com que me dedico à apreciação dessas formas de arte/entretenimento varia de acordo com o momento da minha vida. Esses ciclos duram anos e não há um padrão que explique o porquê de isso acontecer. E aí, tem a minha relação com a música.

Arrisco dizer que a música é uma constante na minha vida desde que meus pais escolheram o meu nome. Tenho lembranças muito antigas de momentos em que me esparramava em um tapete na sala de estar e manuseava os discos de vinil deles, pedindo para escutar. Assim, mais do que qualquer outra forma de arte, a música é aquela que mais mexe comigo, me faz sair da realidade e, claro, consegue ativar memórias que, às vezes, estavam adormecidas. Sabe aquela sensação de ligar o rádio, escutar uma música e imediatamente lembrar dos tempos de colégio, dos amigos, dos sonhos daquela época? Então, é disso que eu tô falando. E aí, lembrei de uma entrevista com a Taylor Swift em que ela fala que seus álbuns são como diários de fases de sua vida. Adorei tanto este conceito que resolvi trazer para a minha vida.

Como eu estou longe de ser talentosa como a Taylor Swift e não tenho meus próprios álbuns, resolvi adaptar isso para algo mais simples: escrever sobre os álbuns que escuto e sinto que, de alguma forma, estão marcando os momentos que vivo. Seria um registro para a Michelle do futuro, algo que ela lerá daqui cinco, dez, vinte (!!!) anos e se lembrará do que viveu hoje. O primeiro que escolhi é um que tenho escutado exaustivamente nos últimos meses: Chaos And The Calm, do britânico James Bay.

Nascido em Hitchim, Hertfordshire, em 4 de setembro de 1990, James Bay é aquele típico cara de cidade pequena que sonha em vencer na vida fazendo o que ama: música. Após anos de ~formação musical~ escutando os discos de seus pais, ele aprendeu a tocar guitarra, ingressou em uma academia de artes, adotou o chapéu como sua marca registrada e, em 2013, assinou com uma gravadora. Desde então, ele lançou cinco singles, recebeu alguns prêmios - incluindo dois Brit Awards -, e nos presenteou com Chaos And The Calm (2015), seu álbum de estreia.

E aqui peço à vocês que pausem a leitura por um instante para apreciar a beleza desse título. Chaos and the calm. Duas ideias tão contraditórias e complementares. E que têm tudo a ver com as músicas e com a atmosfera geral do álbum. Com uma sonoridade que abrange influências de indie rock, folk, blues e soul, as músicas de James Bay vão falar de suas angústias e anseios, refletindo sobre o passado e o futuro, romances que não deram certo e sobre ~a vida, o universo e tudo mais~. É um trabalho que mostra um artista seguro de si, que sabe o que quer musicalmente, mas que, de certa forma, ainda está tentando se encontrar no mundo. Olhem para essa capa, ele não parece meio perdido? Eu disse para vocês, meus caros, que os vinte e poucos são complicados. Para todos nós.

TRACK BY TRACK

Agora, se me permitem, vou fingir que faço parte da Crítica Especializada e tecerei alguns breves comentários no estilo faixa a faixa: 

💿 Craving
Essa é a música mais agitadinha e ~pop~ do álbum. Aqui, toda aquela coisa que eu disse sobre o James Bay ser o cara da cidade pequena com sonhos grandes faz sentido. Ele anseia por algo mais, algo que possa sentir.

💿 Hold Back The River
É possivelmente a música mais conhecida e a minha primeira favorita; mais pela sonoridade acústica-tranquila-meio-com-cara-de-John-Mayer do que pela letra, que não sei dizer sobre o que é. Rola certo arrependimento da parte do James, só não sei do que ele está falando. Meu palpite é que ele lamenta o fim de um relacionamento, como se a situação tivesse fugido de seu controle.

💿 Let It Go
Minha mais recente favorita, essa música não tem nada a ver com Frozen. Aqui, com uns trechos de guitarra bem bonitos, James vai falar sobre um relacionamento que já não estava funcionando e entrega um dos trechos mais marcantes: I used to recongnize myself,  is funny how reflections change / when we're becoming something else, I think is time to walk away. E quando eu achava que não podia ficar melhor, James convidou o Ed Sheeran (!!!) para cantar com ele. Clique aqui, assista e seja feliz!

As três próximas faixas são mais agitadinhas, mas não chegam a retomar a ~empolgação~ de Craving.

💿 If You Ever Want To Be In Love
Sinceramente, acho que James Bay poderia sentir um pouco de amor próprio. A moça, que ele conhece desde os tempos de escola, claramente não quer um relacionamento e ele sabe disso, mas afirma que estará esperando por ela se ela quiser algum dia, talvez, ficar com ele. Migo, deixa disso, vida que segue.

💿 Best Fake Smile
Gosto de pensar que essa música é o jeitinho do James Bay de dizer "não, não sou obrigado". Sabe aquele tipo de situação desconfortável com a qual a gente lida, ou pessoas desagradáveis que toleramos só para agradar os outros? Pois então, não somos obrigados.

💿 When We Were On Fire
James Bay está em um relacionamento sem sentido, que já deixou de ser o que um dia foi. Mas ele tem um anseio de que um dia os sentimentos antigos voltem. Rolam umas metáforas com sol, estrela e fogo. Sempre demoro para lembrar que música é essa, mas adoro como ela soa. 

💿 Move Together
Uma música lenta e melancólica. Mais uma vez, um relacionamento que se deteriora e tudo parece fugir do controle do James, que está tentando fazer as coisas darem certo. Todos nós já passamos ou passaremos por isso. É triste, mas a vida tem dessas. Gosto de como a letra trabalha a ideia de separação, mostrando tanto a distância física entre as duas pessoas, quanto uma distância mais emocional. 

💿 Scars
Não sei se a música é sobre um relacionamento que acabou ou sobre uma pausa em um relacionamento. Talvez seja um relacionamento à distância? Bom, o fato é que os dois estão separados e há muito sofrimento e, mesmo que eles nunca mais fiquem juntos, já estão marcados um pelo outro para sempre. #dramática Acho que o refrão é bem poderoso e deve soar bem durante um show, com todo mundo cantando junto.

💿 Collide
Acho que essa é continuação de Scars. Se for, aqui temos um relacionamento no estilo vai-e-volta-toda-hora, com os dois brigando muito e James Bay preferindo isso a ter que ver a moça partir de vez. Ele fala um pouco sobre objetos sendo estragados e afirma: we can go wild if it's what you want / fire at me. Sei lá, acho meio doentio. 

💿 Get Out While You Can
Tendo como base tudo que escutamos até agora, acho que James resolveu que estava na hora de dizer "chega". Pode ser que seja em relação ao relacionamento caótico das faixas anteriores, ou pode ser que seja em relação à cidade pequena em que vivia. O fato é que a música termina com ele fazendo as malas e se jogando na estrada, pronto para encarar o mundo.

💿 Need The Sun To Break
Essa foi a segunda que escolhi como favorita. Ela tem uma ~energia~ muito boa e imagino que uma versão ao vivo deve ser ótima. Ao contrário da sonoridade um tanto agressiva da faixa anterior, aqui as coisas são mais leves. James fala sobre as borboletas no estômago que o mantém acordado à noite e, acho, que está se apaixonando novamente. De novo temos umas metáforas com o sol.

💿 Incomplete
Novamente, muito sofrimento porque é isso que James Bay faz. Ele sofre. Aqui ele fala sobre reencontrar alguém - possivelmente a mesma moça do relacionamento vai-e-volta-toda-hora - e os dois percebem que ainda há um sentimento muito forte, mas eles precisam se separar mesmo assim, porque sabem que não vai dar certo. E aí, ele fala para serem incompletos. Eu só não sei se seriam incompletos se ficassem juntos ou separados. Acho que dá para interpretar das duas formas. Em termos de sonoridade, essa faixa mantém o ritmo da anterior e finaliza o álbum com tranquilidade. Chaos and the calm.

A versão deluxe inclui ainda mais três faixas: RunningClocks Go Forward e Stealing Cars. São boas (e favoritas!), mas suas temáticas já foram trabalhadas em outras faixas, então, não vou comentar sobre elas. Mas, escutem sim que vale à pena.

                                                                                                                                

Este post é parte do desafio: