6 de outubro de 2019

Lover (Taylor Swift, 2019) | TayloReview #02

Assim como praticamente todos os fãs do mundo, eu estava muito ansiosa para ouvir o novo álbum da Taylor Swift. Além da espera aparentemente infindável e da curiosidade natural, tinha também aquela expectativa inevitável: Lover é o sucessor de reputation, e era impossível não se perguntar qual seria o “próximo capítulo” da narrativa da nossa melhor amiga. Agora acho que já ouvi o suficiente do novo trabalho para finalmente compartilhar as minhas opiniões sobre ele.

🦋O contexto

Quando a Taylor começou a soltar alguns easter eggs, muita gente apostou que o próximo álbum seria mais “docinho”, rosa, com uma estética mais leve. E, naturalmente, os fãs também começaram a imaginar que finalmente teríamos um sucessor “direto” de 1989 — até porque quem acompanha a linha do tempo da Taylor sabe que reputation acabou se tornando, em certo sentido, um álbum “acidental”.

Ela costuma compor a partir da própria vida. Então, depois de 1989, seria plausível esperar um álbum que falasse sobre tudo o que ela viveu naquela fase… mas aí aconteceu o verão americano de 2016, e ela foi praticamente forçada a sumir do mapa. Como resultado, veio reputation no fim de 2017: uma era mais sombria, mais reservada e com ela bem afastada dos holofotes. Por isso, todos ficaram curiosos para entender o que viria depois.

Depois de mais de um mês ouvindo Lover exaustivamente, dá para concluir com 100% de certeza que este álbum é o extremo oposto do anterior. Ele de fato se aproxima muito mais do espírito de 1989 e soa, em vários momentos, como um sucessor daquela fase — embora eu não goste tanto de pensar assim, porque a era reputation também foi uma parte importante do caminho que trouxe Taylor até aqui  Ainda assim, é válido destacar que é possível ouvir ecos das eras anteriores.

No geral, Lover é um álbum totalmente Taylor Swift: ele celebra cada fase, cada aspecto de sua personalidade, cada nuance de suas personas. Conseguimos enxergar uma Taylor prestes a completar 30 anos em paz consigo mesma.  Gostei bastante do álbum, embora eu tenha algumas ressalvas.

🦋track by track

📀I Forgot That You Existed: na primeira vez que ouvi, achei curioso que ela tenha escolhido essa música para abrir o álbum. Mas agora consegui entender que não tinha faixa melhor para dar o tom do disco. É uma música simples, leve e debochada. Se você ainda é do time que acha que a Taylor só fala de ex-amores e de pessoas que “atrapalharam” a vida dela, esta provavelmente é a música que vai satisfazer sua expectativa... só que com uma reviravolta: aqui ela diz que passou tempo demais pensando nessas pessoas e que, de repente, as esqueceu. O sentimento não é ódio. É indiferença. Ao mesmo tempo, tem uma ironia divertida: se ela esqueceu, por que escrever uma música sobre isso? A graça está aí. Ela canta com uma risadinha, é sarcástica, e funciona muito bem como abertura.
🩷Trecho: It isn't love, it isn't hate, it's just indifference

📀Cruel Summer: essa chega derrubando tudo. A introdução já vem acelerada e intensa. Para mim, sonoramente, é como se fosse um filhotinho de Out of the Woods com Getaway Car. Quando a tracklist saiu, todo mundo ficou curioso: seria sobre 2016? Sobre mídia? Sobre o Kanye? Pode até ter ecos daquela época, mas aqui eu enxergo a música como um retrato do relacionamento dela com o Joe Alwyn. Ela fala de viver algo bom no meio do caos e, ao mesmo tempo, de não querer expor esse relacionamento para não alimentar especulações. Um trecho que me marcou muito é quando ela fala sobre não querer manter segredos para sustentar a relação. É triste pensar que ela tenha passado por isso. Mas, como essa música saiu anos depois, a gente sabe que ela está feliz e bem resolvida. É bom ver que teve um final feliz.
🩷 Trecho: And I screamed: "for whatever it's worth I love you, ain't that the worst thing you've ever heard"?


📀Lover: 
a faixa-título é, para mim, indiscutivelmente a música mais romântica que a Taylor Swift já escreveu. Ela mesma já disse isso em entrevistas e afirmou que é uma das músicas de que mais se orgulha na carreira. O que eu mais gosto é como ela soa atemporal. Apesar de ser recente, parece clássica, quase como algo dos anos 50. A introdução me faz pensar em Elvis Presley e naquela estética de música de casamento. Tem um momento em que ela canta e parece literalmente um brinde no meio de uma cerimônia. É lindíssima.
🩷Trecho: I take this magnetic force of a man to be my lover

📀The Man: uma das músicas mais poderosas do álbum — e uma das minhas favoritas. Aqui ela fala sobre como é mais difícil conquistar certas coisas sendo mulher. Ela lista tudo o que já conquistou: sucesso, influência, reconhecimento… e mostra como características que seriam aplaudidas em um homem costumam ser usadas contra ela. Entra a velha história do “ela namora demais” (mas se fosse um homem, seria “pegador”). Entra também o discurso de que ela usa tudo para se promover — como se homens não fizessem o mesmo e fossem chamados de “visionários” e “estrategistas”. Musicalmente é um pop delicioso, com refrão que gruda. E eu adoro a referência ao Leonardo DiCaprio.
🩷Trecho: If I was a man, then I'd be THE MAN

📀The Archer: mesmo não sendo um single oficial, os fãs gostaram muito. Essa música tem referências fortes aos anos 80, e é uma das mais bonitas e vulneráveis do disco. Aqui a Taylor fala sobre inseguranças, sobre fama, sobre se perguntar quem ficaria ao lado dela de verdade. Dá para imaginar que ela está conhecendo alguém (talvez o próprio Joe) e, ao mesmo tempo, carregando a bagagem de ser Taylor Swift™: a reputação, as especulações, os ataques. Tem um trecho que sugere que essa pessoa juntou os pedaços dela, mas ela ainda tem medo de ser abandonada. E tem uma frase forte: “todos os meus inimigos entraram na minha vida como amigos”. Isso diz muito sobre como deve ser difícil confiar em alguém quando se é tão famoso.
🩷Trecho: I've been the archer, I've been the prey. Who could ever leave me, darling? But who could stay?

📀I Think He Knows: essa soa mais atual dentro do pop, sem beber tanto da fonte oitentista. No começo achei estranha para um álbum da Taylor, mas fui gostando. É sobre aquela tensão gostosa: você gosta de alguém, percebe que é recíproco, mas ainda fica no “será?”. Eu gosto de pensar que essa música é uma versão adulta de Enchanted, com uma energia mais atrevida.
🩷Trecho: He got that boyish look that I like in a man. I am an architect, I'm drawing up the plans. It's like I'm seventeen, nobody understands

📀Miss Americana & The Heartbreak Prince: foi a primeira música do álbum que me conquistou de cara. Ela tem uma atmosfera que me lembra Lana Del Rey; um sonho americano meio quebrado, meio melancólico. A letra é bem metafórica, cheia de símbolos, e ela constrói uma narrativa visual — você escuta e vai “assistindo” um filme. Eu confesso que ainda não absorvi totalmente o significado, mas sinto que é uma das músicas mais profundas dela. Parece uma crítica ao estilo de vida americano, à política, à ideia de popularidade e competição como regra. Eu amo.
🩷Trecho: American stories burning before me, I'm feeling helpless, the damsels are depressed, boys will be boys then, where are the wise men? Darling, I'm scared


📀Paper Rings: eu tinha achado legal logo que ouvi pela primeira vez, mas com o tempo (e conversando com amigas que amaram) eu mudei de ideia: hoje acho uma das mais fofas e divertidas do álbum. A letra é sobre amar tanto alguém que você não liga para a formalidade ou para o luxo. Ela fala que gosta de coisas bonitas, mas casaria com essa pessoa até com anéis de papel. E aqui tem uma nuance que eu amo: em inglês existe diferença entre wedding (o evento, a festa) e marriage (a vida a dois, o convívio). Ela deixa bem claro que o que ela quer é o marriage, o dia a dia com a pessoa, e não a cerimônia perfeita. Musicalmente, tem uma energia pop-rock oitentista deliciosa. Espero que ela explore mais esse tipo de som no futuro.
🩷Trecho: I hate accidents, except when we went from friends to this, uh huh, that' right, darling, you're the one I want in paper dreams, in picture frames, in dirty dreams

📀Cornelia Street: minha obsessão atual. Eu amei desde a primeira vez e fui amando ainda mais com o passar do tempo. É aquele pop narrativo que a Taylor sabe fazer como ninguém. Ela descreve ter alugado um lugar em uma rua chamada Cornelia Street. Ninguém sabe ao certo onde seria, mas fãs já encontraram ruas com esse nome em Londres, Nova York e Nashville — todas cidades importantes na vida dela. Eu acho incrível como ela cria esse “lugar” simbólico. A história é sobre o começo de um relacionamento em meio a uma fase conturbada, e ela canta com aquela sensação de medo de perder: “se acabar, eu nunca mais vou conseguir andar pela Cornelia Steet”. É lindo e doloroso.
🩷Trecho: Barefoot in the kitchen, sacred new beginings that became my religion


📀
Death by a Thousand Cuts: eu pesquisei e vi que foi inspirada pelo filme Alguém Especial. Achei curioso porque a Taylor é conhecida por escrever sobre términos, porém, nesta fase, ela está claramente apaixonada. Então parece quase como uma música para os fãs que gostam desse lado dela. A introdução é estranha, mas eu gosto. E a letra é excelente: ela descreve o fim de um relacionamento como um luto. Como se fosse uma morte causada por cortes; um corte de cada vez, mil cortes pequenos, e a dor permanecendo.
🩷Trecho: You said it was a great love, one for the ages. But if the story is over why am I still writing pages?

📀London Boy: se ainda havia dúvida de que ela está apaixonada pelo Joe, aqui ela confirma. A música é divertida, leve e cheia de referências a Londres. Ela cita lugares, usa expressões britânicas, fala de sair com os amigos dele. É bobinha no melhor sentido: gostosa de cantar, chiclete, e vai ganhando espaço no coração com o tempo.
🩷Trecho: But something happened, I heard him laughing. I saw the dimples first and then I heard the accent

📀Soon You’ll Get Better (feat. Dixie Chicks): a música mais dolorosa e vulnerável que a Taylor já lançou, na minha opinião. Eu confesso: eu quase sempre pulo porque me deixa muito angustiada. Ela fala sobre a mãe dela e o câncer. A força de colocar isso no álbum é enorme. A participação das Dixie Chicks é muito simbólica, porque a mãe dela ama a banda. A letra descreve hospital, medo, esperança, e aquela sensação terrível de dizer “vai ficar tudo bem” enquanto, por dentro, você não tem certeza de nada. Tem uma parte em que ela menciona recorrer à Deus — algo comum quando a gente chega no limite. E isso me pega muito: Taylor tem dinheiro, tem acesso aos melhores médicos… e mesmo assim há coisas que fogem completamente do controle. A música é linda, sensível e triste.
🩷Trecho: Holy orange bottles, each night I pray to you. Desperate people find faith, so now I pray to Jesus too.

📀False God: uma das faixas mais diferentes do álbum. Tem saxofone, clima jazzy, e uma atmosfera bem sensual. Ela mistura metáforas de amor e religião, e mostra de novo o talento da Taylor para escrever de um jeito inesperado.
🩷Trecho: I know heaven's a thing, I go there when you touch me. Honey, hell is when I fight with you

📀You Need to Calm Down: uma das músicas mais importantes do disco, e uma das mais relevantes na carreira recente da Taylor. Nos últimos anos ela foi criticada por não se posicionar politicamente. Aqui ela fala do ódio na internet e, principalmente, da intolerância contra pessoas LGBTQIA+. Ela aponta o absurdo disso de um jeito direto e, ao mesmo tempo, meio irônico (“são sete da manhã…”). Também fala sobre essa mania de colocar mulheres artistas umas contra as outras. A mensagem é: dá para todo mundo existir, não precisa competir.
🩷Trecho:  I ain't trying to mess with your self-expression but I've learned the lesson that stressin' and obsessin' 'bout somebody else is no fun


📀Afterglow:
sinceramente, acho que essa poderia ter ficado de fora do álbum. Não me chama muita atenção. A letra é interessante: fala sobre brigas em relacionamento, sobre orgulho, sobre como às vezes é mais importante “ganhar” a discussão do que resolver. Taylor aqui admite “eu errei”. Musicalmente, não é muito memorável para mim.
🩷Trecho: Why'd I have to break what I love so much?

📀ME! (feat. Brendon Urie): eu ainda acho divertida, e gosto do clipe. Mas depois de ouvir o álbum inteiro, ela acaba perdendo um pouco da magia. E permanece a sensação de que a Taylor escolhe como single as faixas que menos se parecem com o restante do álbum. Em todo caso, a mensagem é bonitinha: você é único, especial, ninguém vai existir alguém como você. 
🩷Trecho: Livin' in winter, I am your summer

📀It’s Nice to Have a Friend: eu não entendo muito bem o porquê dessa faixa estar no álbum. Ela conta uma historinha de duas pessoas que se conhecem na escola, crescem, e se casam. É fofinha, e a sonoridade é bem diferente (quase com um clima vintage, meio anos 60). Mas, num álbum tão longo e tão cheio de picos, ela aparece perto do final e traz uma “queda” na energia. Às vezes eu pulo.
🩷Trecho: absolutamente nenhum, pouca coisa se destaca nesta música.

📀Daylight: finalmente a faixa que encerra o álbum! E é uma das melhores, sem dúvidas. A Taylor chegou a dizer em entrevistas que considerou chamar o álbum de Daylight e acho que faria sentido; depois de reputation, que foi tão sombrio, Lover é colorido, alto astral, luminoso. No começo, essa faixa passou um pouco batida para mim, já que o álbum todo era novidade e eu estava mais focada em outras músicas. Mas hoje eu gosto muito dela. Gosto de como ela desacelera, fecha a experiência, e traz uma mensagem madura. O trecho que mais me marca é quando ela fala sobre deixar para trás aquilo que não serve mais, abandonar as sombras e seguir em frente. No final ela diz algo ainda mais forte: que não quer ser definida por medos, obstáculos e problemas… mas sim pelo que ama. Isso é muito bonito. Porque, no mundo de hoje, parece que o ódio ocupa espaço demais. Nas redes sociais, nas notícias, nas conversas. A gente gasta energia com aquilo que detesta, com aquilo que nos irrita. E ela chama atenção para o oposto: o que nos define é justamente aquilo que a gente ama. De certa forma, ela admite que também se deixou levar pelo ódio em momentos anteriores (e, considerando tudo o que ela viveu, é compreensível). Mas aqui ela vira a chave: “agora eu quero ser definida por aquilo que eu amo”. E aí ela lança Lover, um álbum inteiro celebrando isso.
🩷Trecho: You gotta step into the daylight and let it go


🦋Conclusão: valeu a espera?

No geral, eu gostei muito de Lover. Eu acho que é um álbum que a Taylor queria fazer e precisava fazer. Como fã, é muito bom ver que ela está mais leve, romântica, forte e madura depois de tudo o que viveu.

Meu único “porém” é que eu acho um álbum longo. Mas, ao mesmo tempo, eu entendo: ela escreveu as músicas, gosta delas, e quis colocar todas no mundo. Consigo respeitar isso.

De qualquer forma, acho que ainda é cedo para ter opiniões muito definitivas sobre o álbum. Daqui a alguns meses (quem sabe até anos?), talvez eu mude de opinião e acabe amando tudo incondicionalmente. Às vezes o álbum precisa de tempo para ocupar mais espaço no coração da gente.

🦋Faixas favoritas:

TOP 5: acredito que pelo menos essas cinco faixas merecem atenção
  1. Cornelia Street
  2. Miss Americana & The Heartbreak Prince
  3. The Archer
  4. Death by a Thousand Cuts
  5. False God

🩷