20 de setembro de 2014

Mentirosos (E. Lockhart) | Mentirosos, #1




Os Sinclair são uma família rica e tradicional dos Estados Unidos que todos os anos, durante o verão, se reúne em uma ilha particular, onde fingem não ver a decadência em que se encontram e passam a viver de aparências. Os adultos constantemente discutem sobre quem deverá herdar a fortuna da família e as crianças e adolescentes tentam se manter sempre afastados de tudo isso.

Cadence, seus primos Johnny e Mirren e seu amigo Gat - que formam um grupo chamado "Mentirosos" - sempre contam os meses até o verão, quando poderão finalmente se reencontrar e viver ótimas experiências na ilha. Cadence admira a visão de mundo de Gat e, aos poucos, conforme os anos se passam e os dois se tornam mais próximos, a amizade entre eles se transforma em um sentimento mais forte. 

Durante o verão de seus quinze anos, quando tudo parecia estar bem entre ela e Gat, Cadence sofre um acidente que resulta em amnésia, fortes dores de cabeça e muitos analgésicos. Após dois anos de tratamento, sem manter contato com os amigos e a família, ela tenta entender o que aconteceu no verão dos quinze. Cansada do tratamento extremamente cuidadoso de sua mãe e de suas tias, Candence resolve retornar à ilha na esperança de que recupere a sua memória.

Já aviso: se você quer ler Mentirosos, quanto menos você souber sobre o livro, melhor. Digo isso porque quando iniciei a leitura não sabia de nada e isso contribuiu muito para que a minha experiência de leitura fosse positiva. Por isso, serei breve nos próximos comentários, ok? 

Não vou mentir, não tinha muito interesse em relação a esse livro. Primeiro porque ando sem muita vontade/paciência de ler romances contemporâneos voltados para o público jovem adulto. Segundo, porque o livro está fazendo muito sucesso lá fora, logo, expectativas muito altas começaram a surgir. E vocês sabem que expectativa alta sempre resulta em frustração. Pelo menos comigo.

Assim, já havia descartado a possibilidade de leitura quando, durante um evento da Companhia das Letras na Bienal, recebi uma cópia antecipada do livro. Como não tinha muitas páginas e a curiosidade acabou falando mais alto - oras, eu estava com o livro nas mãos! -, comecei a ler e não consegui largar até chegar ao fim.

A narrativa, feita em primeira pessoa pela protagonista, é fluida e envolvente. E. Lockhart criou uma atmosfera idílica e misteriosa que faz com que o leitor se sinta parte daquela história. Cadence, tentando recuperar as suas memórias, começa a escrever histórias sobre a sua família e sobre os acontecimentos de que se lembra como se fossem contos de fada; estes contos aparecem entre os capítulos e acho que contribuíram bastante para deixar a narrativa interessante. Gostei também da forma como os personagens foram construídos. Por apresentarem características bem definidas e claras, o leitor consegue compreender quem são e quais são as suas motivações. Em alguns momentos, de tão envolvida que estava, senti raiva de muitos deles.

Durante quase toda a leitura, fiquei me perguntando o porquê de o livro ser tão comentado. Até então, o livro, apesar de agradável, não tinha me mostrado nada de especial. Porém, ao chegar às páginas finais, fui pega de surpresa e compreendi o porquê do sucesso de Mentirosos. O enredo em si, não traz nada de tão inovador, porém acredito que a originalidade do livro está na forma como a autora conta a história. Em momento algum consegui antecipar o desfecho, que fiquei digerindo durante dias e me fez pensar em reler o livro daqui a um tempo.

Gostaria de poder comentar melhor as minhas impressões, mas, como comentei acima: quanto menos você souber da história, melhor. Meu conselho para quem quer ler Mentirosos é: evite ler sinopses muito explicativas, não crie expectativas e não tente adivinhar o desfecho. Deixe-se surpreender pela história. Leitura recomendada!


15 de setembro de 2014

O Misterioso Caso de Styles (Agatha Christie) | Hercule Poirot, livro #1




Publicado em 1920, O misterioso caso de Styles é o primeiro romance de Agatha Christie. É também o primeiro livro da autora a trazer o famoso detetive belga Hercule Poirot. A história, ambientada alguns anos após a Primeira Guerra Mundial e em uma enorme mansão no interior da Inglaterra, é narrada pelo Capitão Hastings, um amigo de Poirot. Depois da guerra, Hastings se encontra por acaso com John Cavendish, um antigo conhecido que lhe convida para passar alguns dias na casa de campo de sua família: a mansão Styles. Aceitando o convite, Hastings logo é apresentado ao peculiar elenco de personagens que vive na casa.

Emily Inglethorp, a madrasta de John, herdou a mansão Styles e todo o patrimônio da família. Bastante influente na comunidade da qual faz parte, sempre promovendo eventos de caridade, Emily irrita e surpreende sua família após se casar com Alfred Inglethorp, um homem vinte anos mais jovem. Seus enteados, amigos e criados acreditam que Alfred - um homem quieto e com um passado bastante misterioso - só tem interesse na fortuna de Emily.

Durante a temporada de Hastings na mansão, toda a família está reunida e a tensão é aparente. A situação se torna ainda mais delicada quando Emily é encontrada morta em seu quarto e todas as evidências indicam que a morte teria sido causada por envenenamento. A partir deste ponto, todos os moradores se tornam suspeitos, pois todos tinham motivos para querer Emily morta.

Para solucionar o caso, que apresenta características bastante peculiares na cena do crime, a Scotland Yard irá contar com a ajuda de Hercule Poirot, que se utilizará de métodos únicos e teorias miraboolantes para descobrir a identidade do assassino.

O misterioso caso de Styles é o livro certo para aqueles que querem conhecer Agatha Christie. Digo isso porque, além de ser o primeiro romance da autora, o livro reúne todas as características mais comuns nos trabalhos dela, então acredito que seja uma ótima amostra.

A leitura, envolvente do início ao fim, fluiu muito bem. Os livros de Agatha Christie tem essa característica de prender o leitor até que ele chegue à última página e descubra quem é o autor do crime. Ao longo da leitura, criei várias teorias e comecei a investigar junto com Poirot e, tantas descobertas foram feitas e tantas reviravoltas surgiram que, ao chegar ao fim, foi impossível não ficar surpresa com o final.

Confesso que, para mim, não foi um final excelente. Na verdade, acho que foi até um tanto frustrante; mas não sei se essa sensação foi causada por não ter compreendido as pistas deixadas pela autora ou por ter me deixado levar pelas ideias de Hastings. Aliás, não sei bem se gosto ou não deste narrador. Como personagem, Hastings é bem semelhante à John Watson (de Sir Arthur Conan Doyle e amigo de Sherlock Holmes), apesar de ser bem pior na hora de criar teorias, o que acaba por deixar a sua narrativa bastante tendenciosa. De certa forma, este é um elemento interessante em um romance policial, já que contribui ainda mais para estimular o leitor a investigar também.

Por um outro lado, a narrativa de Hastings funciona muito bem na hora de apresentar Poirot aos leitores, mostrando o detetive belga como um sujeito excêntrico e um tanto presunçoso. É bem divertido ver como o capitão duvida de seu amigo e acha seus métodos investigativos bastante estranhos. De uma forma geral, o mistério e a investigação foram bem construídos e Agatha deixou pistas falsas para confundir o leitor, de forma a incluí-lo na história e mostrar que seus livros vão além das páginas. 

Mesmo sem ter considerado O misterioso caso de Styles o melhor livro da autora, achei que foi uma leitura válida por ser um clássico da literatura policial e também por ser o primeiro trabalho da Rainha do Crime. Leitura recomendada para quem tem interesse em conhecer o trabalho da autora, para quem já admira o seu trabalho e também para quem gosta de um bom romance policial.

As novas edições publicadas pela Globo Livros estão muito bonitas e com um ótimo acabamento. As capas, além de modernas, são um ótimos atrativos para novos leitores. A edição traz orelhas, páginas amareladas (papel soft pólen) e fonte Fairfield com um bom tamanho (creio que seja 12). A diagramação também está satisfatória, com um bom espaçamento.

O livro traz ainda uma apresentação escrita por John Curran que explica os motivos para Agatha ter alterado o final do livro antes de sua publicação. A edição da Globo Livros traz tanto o final publicado em 1920, quanto o final original escrito pela autora.

PS: sem perceber, publiquei esta resenha no dia do aniversário da Agatha, que nasceu em 15 de setembro de 1890! Gostaria de registrar aqui os meus parabéns e agradecê-la por nos divertir com seus mistérios, investigações e personagens! Agatha, muito obrigada por ser a Rainha do Crime <3

1 de setembro de 2014

Her Dark Curiosity (Megan Shepherd) | The Madman's Daughter, livro #2


Retomando a história apenas alguns meses após os acontecimentos do livro anterior, Her Dark Curiosity (ainda sem título em português) mostra Juliet Moreau de volta à Londres e tentando superar tudo o que viveu na exótica ilha em que seu pai realizava experimentos científicos. Após enfrentar a prisão - resultado de seu último encontro com o repugnante professor da universidade em que trabalhava como faxineira -, Juliet encontra um benfeitor em um antigo amigo de seu pai e volta a fazer parte da elite londrina, participando de eventos como chás no fim da tarde e bailes.

Porém, nem de longe é possível dizer que sua vida se transformou em um conto de fadas. Mesmo cercada de luxo e riqueza, Juliet ainda luta contra a sua "doença"; o composto químico desenvolvido por seu pai para que sobrevivesse com um coração de animal não está mais funcionando. Portanto, é apenas uma questão de meses até que ela encontre o mesmo destino das criações do dr. Moreau. À procura de uma cura para o seu problema, e com o coração partido pela estranha despedida de Montgomery, Juliet começa a suspeitar de que tem alguma relação com uma série de assassinatos que atormentam Londres. Aparentemente, os crimes são cometidos pela mesma pessoa e todas as vítimas já lhe fizeram algum tipo de mal.

Enquanto luta pela própria sobrevivência, Juliet descobre que seu pai não era o único cientista sem escrúpulos. Novos e perigosos inimigos surgem, fantasmas do passado retornam e ela percebe que não poderá confiar em ninguém.

Primeiramente, preciso parabenizar Megan Shepherd que conseguiu me prender a cada palavra do livro, me tirando de uma ressaca literária monstruosa. Com os agradecimentos devidamente conferidos, preciso dizer que Her Dark Curiosity foi, para mim, uma experiência de leitura superior que a do primeiro livro. Não quis esperar a tradução e li o e-book em inglês; se puder, faça o mesmo e leia no original. Não que tenha achado a tradução ruim, mas realmente preferi em inglês.

Aqui, o diálogo ocorre com O médico e o monstro (também conhecido como O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde), de Robert Louis Stevenson. Porém, ao contrário do que ocorreu com A filha do louco, Her Dark Curiosity não me pareceu uma recontagem de um livro clássico, mas sim uma história original que faz referência à uma obra clássica. É uma história completamente diferente e a principal semelhança que encontrei com o clássico foi a questão da dualidade que podemos encontrar no homem, ou melhor dizendo, em nós mesmos.

A narrativa, também feita em primeira pessoa por Juliet, flui bem e, felizmente, não é tão detalhada de forma a se tornar cansativa. Sinto que neste livro, a autora acertou a mão e manteve um bom ritmo. Em nenhum momento fiquei com a sensação de que a história estava parada e que nada iria acontecer; muito pelo contrário, a cada virada de página queria saber o que viria depois. Juliet também me agradou bem mais nesta sequência. Apesar de sua incoerência em alguns momentos do primeiro livro, a considero uma boa protagonista e neste segundo livro pude perceber que não estou enganada. Aqui, apesar de todo o drama que é a sua vida, ela se mostra menos confusa e/ou insegura e quando assim age, não é de forma completamente aleatória e incoerente.

Outro ponto bastante positivo é a atmosfera de mistério que predomina durante a leitura. A forma como os assassinatos em série são apresentados - em conversas no açougue ou em notícias de jornal - me fizeram pensar na possibilidade de que a autora tenha se inspirado na história/lenda de Jack, the Ripper, tão característica da Londres Vitoriana. Ainda que a identidade do serial killer seja revelada antes da metade do livro, reviravoltas acontecem e mais mistérios surgem, de forma que a leitura continua envolvente.

Assim como ocorreu com A filha do louco, Her Dark Curiosity termina com um cliffhanger e me deixou muito ansiosa pelo próximo livro, A Cold Legacy, que foi inspirado por Frankenstein e deve ser lançado no exterior em janeiro. Para concluir, gostei muito da leitura e recomendo bastante a sequência para quem já leu o primeiro livro. Aliás, recomendo a leitura da série para todos que gostam de YA, mas que estão sem paciência para o gênero.

22 de agosto de 2014

Sobre mudança de perspectiva e gostar de adquirir livros | Vida de Leitora #07


Há alguns meses escrevi um post falando sobre ter mais livros do que podia ler e do quanto aquilo estava me incomodando. Pelos comentários recebidos, pude perceber que não sou a única a passar pela situação e que, aparentemente, o acúmulo de livros é um fato recorrente na vida dos apaixonados por livros.

Também me dei conta de que alguns dos livros na minha pilha de não lidos já não me despertam o mesmo interesse de quando os adquiri. Não são muitos e, em sua maioria, são livros que comprei por impulso, sem parar para pensar se realmente iria apreciar a leitura. Obviamente, me senti mal por isso, afinal de contas, investi dinheiro naqueles livros, certo? E agora, não tenho a mínima vontade de lê-los. Por outro lado, muitos dos livros esquecidos continuam a me atrair e me pergunto constantemente o motivo de não os ter lido ainda.

Meio desesperada e sufocada pelos livros não lidos da estante, em março resolvi me impor um book buying ban - uma proibição de comprar livros (ou um certo número de livros) - até o mês de agosto, quando deveria repensar a ideia e ver se tinha funcionado. Até junho as coisas funcionaram muito bem, mas é claro que depois disso tudo ficou um tanto "complicado", principalmente com o número absurdo de promoções que começaram a rolar desde julho. Logo, percebi que essa história de proibição não funciona para mim. Ainda assim, não foi uma experiência inútil; pude aprender bastante e modificar alguns dos meus hábitos como compradora de livros. 

Com o book buying ban - que não foi total, pois me permitia a compra de apenas um livro por mês - aprendi a ser um pouco mais criteriosa com o que iria adquirir, priorizando os clássicos ou livros de autores que já conhecia e sabia que não iria me decepcionar com a leitura. Passei a comprar livros que sabia que iria ler em algum momento da minha vida e que, mesmo que não gostasse de algum aspecto neles, a experiência continuaria a ser válida e enriquecedora. Dessa forma, priorizando a qualidade ao invés da quantidade, ficou claro que mesmo que um livro fique um ano parado na estante, ele ainda vai continuar me despertando o interesse.

Acredito muito que há um momento certo para cada leitura e que se um livro for lido na hora errada, a experiência pode ser arruinada. Logo, não vejo mal em comprar um livro que me interessa e que esteja com um preço bom mesmo que não vá lê-lo imediatamente. Gosto de saber que, na hora certa, ele já estará me esperando. A Tary, do canal LiteraTour, fez um vídeo muito interessante sobre o assunto e em determinado momento diz algo que acho muito bonito: os livros não lidos na estante são promessas. Ou seja, ao adquirir um novo exemplar sem a pretensão de iniciar a leitura imediatamente, estamos fazendo uma promessa de que algum dia o faremos.

Com essa mudança de perspectiva, parei de me desesperar com a pilha de não lidos, pois sei que vamos nos encontrar em algum momento. E quanto aos livros comprados por impulso, ainda não sei o que fazer. Provavelmente, trocarei em algum sebo ou doarei para alguma biblioteca. Assim, deixo espaço para as novas e desejadas aquisições.

Não sei se as minhas reflexões fizeram algum sentido para vocês, mas espero que seja de utilidade para aqueles que, de vez em quando, se assustam com a quantidade de livros parados na estante. Espero que ajude também aqueles que estão com medo de como irão reagir na Bienal. Penso que, desde que você não esteja se prejudicando financeiramente, não há problema em querer colecionar seus livros. Então, que tal encarar a situação dos livros não lidos na estante por uma perspectiva diferente e, quem sabe, até mais consciente e responsável? 

Texto publicado originalmente na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

13 de agosto de 2014

A Ilha do Dr. Moreau (H.G. Wells)



Publicado em 1896, A ilha do dr. Moreau, de H.G. Wells, é considerado até os dias atuais um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica. A obra faz parte da vasta produção realizada nas últimas décadas do século XIX, quando houve um auge na produção de histórias de aventura que misturavam elementos fantásticos e/ou científicos, normalmente ambientadas em lugares distante e exóticos. Foi neste período que autores como Jules Verne, Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Henry Rider Haggard se estabeleceram como grandes nomes da literatura.

Narrado em primeira pessoa, o livro traz a história de Edward Prendick que, em 1887, sobreviveu ao naufrágio da embarcação Lady Vain e, após alguns dias à deriva, foi resgatado por um navio que transportava animais. Lá, ele conhece um homem chamado Montgomery e seu criado, M'ling, um sujeito bastante estranho e grotesco. Após um tempo, o navio faz uma parada em uma pequena ilha vulcânica, onde desembarcam Montgomery, M'ling e os animais e o capitão resolve abandonar Edward.

Sabendo que não é bem-vindo à ilha, o ex-náufrago logo descobre que raramente navios passam pela região e que, por isso, deverá ficar por lá durante um bom tempo. Logo após o desembarque, Edward é apresentado ao seu anfitrião, o Dr. Moreau, e se recorda de um escândalo envolvendo este doutor - que costumava ser um cirurgião renomado em Londres - e experimentos de vivissecção. Sem ter para onde ir, Edward tenta se adaptar ao cotidiano da ilha e de seu anfitrião, mas gritos e barulhos estranhos vindos do laboratório do doutor e a sensação de ser seguido pela selva lhe indicam que há algo de muito anormal com aquela ilha e com os seus nativos. 

Apesar de conhecer o nome H.G. Wells, confesso que nunca tinha escutado falar de A ilha do dr. Moreau até ter conhecimento da série YA que tem início com The Madman's Daughter (aqui chama A filha do louco), de Megan Shepherd. Como tinha interesse na série, resolvi ler o clássico antes e gostei bastante da experiência.

A forma como Wells apresenta os acontecimentos através dos olhos de Edward contribui muito para a criação de uma atmosfera de suspense e mistério. Aliás, o cenário de uma ilha vulcânica, exótica e fora de rota é bastante intrigante e permite uma série de possibilidades. Admito que, conforme fui descobrindo os segredos que a ilha escondia, não me surpreendi muito. Por se tratar de um clássico, acredito que H.G. Wells influenciou e inspirou muitas histórias, de forma que o tema de A ilha do dr. Moreau (cientista meio "louco" que realiza experimentos nada convencionais) já foi retratado em outras obras da literatura, do cinema e até da televisão.

Ainda assim, foi inevitável não pensar em como o livro deve ter causado um certo impacto na época de sua publicação, quando havia uma discussão acerca de experiências que envolviam a vivissecção de animais. Além dessa discussão, o livro ainda abre margem para discutir sobre outras questões como a interferência do homem na natureza, a ética científica (até que ponto a ciência é capaz de ir para provar alguma teoria?), a religião (tanto cientistas brincando de Deus, quanto a importância da religião para uma sociedade),a responsabilidade moral, a identidade humana (o que é um ser humano? Quais são as características que definem um ser humano?) e a evolução.

Também gostei de poder conhecer uma obra clássica da ficção científica, gênero com o qual tive pouco contato na literatura. Ainda assim, de acordo com parâmetros mais atuais, é meio complicado definir até que ponto a obra é ficção científica e até que ponto é fantasia, já que para alguns aspectos da história não temos explicações científicas. No final, fiquei com a sensação de que a obra é uma mistura dos dois gêneros, o que funcionou muito bem. 

Para finalizar, recomendo bastante a leitura de A ilha do dr. Moreau para aqueles que gostam de conhecer os clássicos, que se interessam por ficção científica ou por H.G. Wells. Eu, que até então, nunca havia lido nada do autor, certamente irei ler suas outras obras.