25 de novembro de 2014

Minha lista de prioridades (David Menasche)



Em Minha lista de prioridades - A jornada de um professor em busca das grandes lições da vida somos apresentados a David Menasche, um professor de inglês e literatura do ensino médio (High School) em uma escola preparatória de Miami, que aos 34 anos foi diagnosticado com um tumor no cérebro. De acordo com os médicos que acompanharam o seu caso, a expectativa de vida para David era de poucos meses e, por isso, um tratamento precisaria ser iniciado o quanto antes.

Seguindo à risca o tratamento imposto pelos médicos, David continuou a levar a sua vida de professor da forma mais normal possível e a participar ativamente da formação de seus alunos. Seis anos após o diagnóstico, ele sofreu uma convulsão que lhe tirou parte das memórias, de sua visão e de sua mobilidade e lhe impediu de continuar a lecionar. Ao recordar uma das atividades que realizava com seus alunos, na qual pedia que listassem as suas prioridades na vida, David decide recuperar a sua independência. Ele abandona os tratamentos e parte em uma viagem pelos Estados Unidos, visitando seus ex-alunos, com quem conversa sobre o tempo que viveram juntos na escola.

Primeiramente, gostei do tom leve do livro. Apesar de trazer o relato de um homem que convive com um câncer em estágio terminal, Minha lista de prioridades não é um livro triste, amargo e que te faz ficar com vontade de chorar a cada virada de página. Muito pelo contrário, David Menasche é uma pessoa bastante otimista. Mesmo quando ele tem todos os motivos do mundo para se revoltar com tudo e com todos, ele mantém a cabeça erguida e um sorriso no rosto. Claro que nem sempre foi assim; ele passou por todo o processo de negação até chegar à aceitação. Mas, uma vez que aceitou, ele optou por ser forte e não desistir da luta.

A narrativa é feita em primeira pessoa pelo próprio David, que conta os acontecimentos de sua vida desde quando soube que tinha câncer até alguns meses após a publicação do livro. Ele faz uso de uma certa ironia e também de bom humor em sua escrita, principalmente quando descreve os momentos mais delicados, como, por exemplo, quando teve que contar aos pais sobre a sua situação antes de um jantar de Ação de Graças. O livro também traz os depoimentos de alguns dos alunos de David, normalmente colocados após a descrição de uma situação que tenha relação com o depoimento ou com a relação do professor com seu aluno, que, para mim, constitui o elemento mais bonito do livro. 

É emocionante perceber o quanto um professor é responsável pelas mudanças e decisões na vida de seus estudantes, principalmente quando estes são adolescentes. Dá para perceber pelos relatos que a relação entre David e seus alunos era de muito respeito e confiança; seus alunos, muitas vezes o procuravam para conversar sobre o futuro e os conselhos que recebiam ajudaram a moldar a vida que eles têm hoje. David, mais do que ensinar inglês e literatura, ensinou seus alunos a serem pessoas melhores. A amizade que se formou entre eles foi tão forte que, ao saberem da viagem de David, muitos alunos disponibilizaram suas casas para recebê-lo.

Por ser um professor de literatura, David faz referência à vários livros, principalmente clássicos, da literatura estadunidense e mundial, o que é um prato cheio para quem gosta desse tipo de coisa e está sempre com um caderninho à mão para anotar as dicas. Alguns exemplos: O sol é para todos, O grande Gatsby, O apanhador no campo de centeio, Laranja Mecânica, A revolução dos bichos, A redoma de vidro e On The Road.

O único aspecto que me causou um certo estranhamento é a forma como David descreve a reação de algumas pessoas próximas dele à sua situação; mais precisamente sua esposa (ou, no caso, ex-esposa) Paula. Sempre que o autor deixava claro que havia uma certa indiferença da parte dela, eu duvidava um pouco da extensão de tal comportamento. Atribuo essa reação ao fato de que estamos lidando com uma narrativa em primeira pessoa, que traz as impressões bastante subjetivas de seu narrador. Prefiro acreditar que há um certo rancor da parte de David, do que aceitar seu relato a respeito da esposa como verdadeiro. É cruel demais.

Concluindo, Minha lista de prioridades é um livro otimista, apesar dos motivos que levaram à sua criação, sobre amizade, aceitação e superação. É uma leitura agradável, leve e inspiradora. Recomendo à todos!

12 de novembro de 2014

A noite dos mortos - vivos (John Russo)

Em 1968, John Russo escreveu o roteiro para um filme sobre zumbis que viria a ser dirigido por George Romero. O filme em questão é A noite dos mortos-vivos,  obra em que pela primeira vez os zumbis são retratados como algo assustador e uma verdadeira ameaça para a humanidade. Ao longo das décadas, muitas outras obras viriam a beber na fonte do filme de Romero.

Anos depois, em 1973, John Russo romanceou o roteiro de A noite dos mortos-vivos e também o roteiro de uma possível sequência para o filme que jamais chegou a ser gravada (A volta dos mortos-vivos, que não deve ter seu enredo confundido com a de um filme com o mesmo título dirigido por Dan O'Bannon). A edição lançada em 2014 pela editora DarkSide traz as duas histórias.

A noite dos mortos-vivos apresenta uma situação limite e sem precedentes para a humanidade: os mortos retornaram, muito diferentes de como eram em vida, e com um desejo irracional por carne humana. A causa para tais acontecimentos é desconhecida e a população vive em estado de emergência. Quando o livro tem início, todas as formas de comunicação nas áreas rurais dos Estados Unidos parecem não estar mais funcionando e as pessoas que vivem por ali precisam se virar como podem para sobreviver enquanto a ajuda das cidades maiores não chega.

Os acontecimentos do primeiro livro se concentram, quase que totalmente, em uma casa cercada por mortos-vivos. O leitor acompanha as tentativas de sobrevivência das pessoas que estão lá dentro, tanto em relação aos zumbis, quanto em relação a si mesmos.

Em A volta dos mortos-vivos, dez anos se passaram desde os acontecimentos do primeiro livro. Ainda sem saber a causa para o fenômeno, a humanidade enfrenta novamente os mortos que ressurgem, porém, já está preparada para lidar com a situação. Aqui, o perigo não fica por conta apenas dos zumbis, mas também de seres humanos que tiram proveito da situação para praticar atos de violência. Há também referências à religião, à fé e ao modo como a morte passa a ser encarada pelas pessoas.

Primeiramente, nunca gostei de histórias de zumbi. Não sei explicar o motivo disso, apenas não acho zumbis interessantes o suficiente, apesar de achá-los bastante assustadores. Assim, resolvi ler A noite dos mortos-vivos com o intuito de compreender a origem dos zumbis como os conhecemos hoje na cultura pop e também com a esperança de gostar um pouquinho deles.

Gostei bastante da forma como os livros tem início, com reflexões sobre a vida e a morte, antes de partir para os acontecimentos propriamente ditos.

Pense em todas as pessoas que já viveram e morreram e que nunca mais verão as árvores, a grama, ou o sol. Tudo parece tão breve, tão...inútil, não é? Viver um pouquinho e depois morrer? Tudo parece resultar em nada. Ainda assim, de certa forma, é fácil invejar os mortos. Eles estão além da vida, além da morte. Têm sorte de estarem mortos, de terem feito as pazes com a morte e não precisarem mais viver. Estão debaixo da terra, alheios...alheios ao sofrimento, alheios ao medo de morrer. Não precisam mais viver, nem morrer, nem sentir dor, nem conquistar nada. Ou saber qual é o próximo passo, e se perguntar como seria enfrentar a morte. (p. 17)

A primeira história tem início em um cemitério e achei a ambientação bastante satisfatória, pois me ajudou a entrar no clima dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, me fez pensar em filmes antigos de terror. Bárbara, a primeira personagem que acompanhamos, se mostra bastante corajosa nas primeiras páginas, logo após sobreviver ao ataque de um morto-vivo, porém, assim que entra na casa e somos apresentados aos demais personagens, se torna a personagem mais chata de todo o livro. 

Pouco depois de a chatice de Bárbara começar, a narrativa começou a ficar arrastada e nada parecia acontecer. Durante páginas e mais páginas, lia apenas sobre como aquelas pessoas estavam começado a se detestar e a perder as esperanças de sobrevivência enquanto a casa era rodeada por zumbis. Mais para o final, a história começa a ter mais ação e o final é bastante surpreendente e, de certa forma, revoltante.

Já A volta dos mortos-vivos me interessou bem mais. Ao contrário da primeira história, que se concentra em um único local, aqui há movimentação. Os personagens saem de onde estão e tentam encontrar outros sobreviventes, chegar à cidades maiores. Há também momentos em que desconfiamos de alguns acontecimentos e de reviravoltas. Gostei de como o autor abordou o lado ruim da humanidade, que sempre vem à tona em situações limite, revelando monstros tão, ou até mais, assustadores que os zumbis. 

A narrativa em ambos os livros é feita em terceira pessoa e conta com os diálogos dos personagens. Há também trechos que são, na verdade, transmissões de rádio que funcionam para informar o leitor e os personagens sobre os acontecimentos nas regiões afetadas pelos mortos-vivos. É um recurso interessante pois ajuda na ambientação da história.

De uma forma geral, achei a leitura de A noite dos mortos-vivos/A volta dos mortos-vivos bem mediana, mas essa é a opinião de alguém que não se interessa por histórias de zumbi. Acredito que aqueles que se interessam por essas criaturas e/ou são fãs de The Walking Dead possam aproveitar melhor a experiência.

***

A editora DarkSide lançou duas edições do livro, sendo uma delas bastante especial, de colecionador e capa dura. A minha é a mais simples, mas ainda assim, não deixa de ser bastante caprichada. O livro conta com as páginas amareladas, um bom tamanho de fonte e um espaçamento decente entre as linhas, de forma a não cansar a vista e/ou atrapalhar a leitura. Todas as páginas contam com detalhes na diagramação e algumas ainda trazem imagens do filme de 1968. 

27 de outubro de 2014

Voos e sinos e misteriosos destinos (Emma Trevayne)



Voos e sinos e misteriosos destinos, de Emma Trevayne, traz uma história ambientada na Londres vitoriana e apresenta o leitor a Jack Foster, um garoto de 10 anos que sonha com o momento em que viverá suas aventuras.

Com um pais ausentes, sempre ocupados com o trabalho ou jantares para os vizinhos, Jack vive sempre isolado e sob os cuidados da Sra. Pond, a governanta, ou em um colégio interno. Se sentindo muito solitário, Jack tem sempre a impressão de que a mãe não o ama e não tem muita paciência para ele, sempre o castigando quando ele escutava suas conversas escondido.

Um dia, escapando da Sra. Pond, Jack resolve seguir o estranho espiritualista de sua mãe por Londres e acaba descobrindo uma porta mágica no Big Ben. Curioso, o menino atravessa a porta e vai parar em uma Londres alternativa, cheia de engrenagens, fuligem e poluição. Londinum, como é chamada a cidade, é a capital do império da Senhora - uma mulher eterna e temperamental que está sempre à procura de um filho para mimar -, habitada por fadas, pássaros e bonecas mecânicas e pessoas que, para respirar, precisam ter seus corpos transformados com a inserção de metais.

Apesar de não achar o enredo de Voos e sinos e misteriosos destinos muito original, gostei da maneira como a autora conduziu a história. Londinum é um lugar que, mesmo sujo, me despertou o fascínio, tanto por sua peculiaridade, quanto por seus personagens excêntricos. 


Jack Foster é um garotinho esperto e curioso, de fácil identificação por parte do leitor. Apesar de ser o herói da história, não é difícil condená-lo por muitas de suas ações. Jack pode ser teimoso, egoísta e sem ambição. É um personagem bastante humano e, por isso, também muito realista. Seus amigos de Londinum - dr. Cataplasma, a boneca Beth e Xeno - foram responsáveis por me fazer rir durante a leitura, e também por me deixarem interessada pelo cenário steampunk e fantasioso criado por Trevayne. 

Os vilões também tem seu brilho. A Senhora, rainha de Londinum, é uma mulher de temperamento oscilante e cheia de caprichos. Seu império enfrenta uma ameaça de guerra - ou pelo menos é o que ela acredita estar acontecendo -, mas ela vive alienada e desesperada para ter um novo filho. Por ter vivido milhares de anos em um mundo onde as pessoas precisam ser modificadas para sobreviver, a Senhora sempre busca um filho perfeito, 100% humano, vindo do nosso mundo. Quando este cresce, ela o descarta e vai atrás de uma nova criança. Seu principal servente, Sir Lorcan consegue ser ainda mais assustador que ela. Praticante de magias malignas, Lorcan é capaz de tudo para agradar a senhora, seja sequestrar uma criança, seja matar muitos inocentes para conseguir essa criança.

A narrativa da história é feita em terceira pessoa e de uma forma bastante acessível e divertida, com um pouco de humor e ironia. A edição publicada pelo selo Seguinte traz ainda algumas ilustrações feitas por Glenn Thomas que captam a atmosfera da história sem impedir que a imaginação do leitor trabalhe. Elas também me lembraram do trabalho de Wesley Rodrigues na edição de O Circo Mecânico Tresaulti, publicado pela DarkSide.

Como mencionei acima, não achei o enredo do livro muito original, e a criatividade ficou por conta da ambientação. Por se tratar de uma história para crianças, dá para afirmar que o livro tem aspectos mais sombrios e até traz momentos pesados. Nada impossível de ser compreendido por uma criança, claro. A princípio, o leitor é conduzido por uma narrativa de apresentação do universo fantástico, porém, aos poucos, a história começa a tomar um rumo e mistérios começam a surgir, deixando tudo mais interessante.

Mesmo com a previsibilidade, a leitura foi agradável. A única ressalva que faria é a respeito da superficialidade de alguns personagens. Enquanto lia, aguardava para descobrir algo a mais sobre a Senhora, por exemplo, ou a mãe de Jack; mas ao chegar ao final, algumas dúvidas permaneceram. Não acredito que essa superficialidade seja um empecilho e até acho que a autora deixou as coisas assim intencionalmente. Acredito que, por eu não ser mais o público alvo desse tipo de livro, acabo esperando uma profundidade típica de livros mais adultos, o que não faz sentido algum neste caso, porque é um livro infantil e muito deve ser deixado para a imaginação. Ainda assim, acredito que Voos e sinos e misteriosos destinos seja uma ótima leitura para aqueles com idade entre 8 e 12 anos, ou aqueles que gostam de histórias infanto-juvenis. Leitura recomendada!

8 de outubro de 2014

A Máquina do Tempo (H.G. Wells)


Publicado em 1895, A máquina do tempo, de H.G. Wells, é considerado o primeiro romance de ficção científica a abordar o tema de viagem no tempo. Tendo início em uma residência localizada na Londres vitoriana, a história traz um grupo de homens renomados - médico, jornalista, advogado, etc. - reunidos para um jantar à convite de um conhecido, chamado apenas de "O viajante do tempo".

Após ser indagado sobre os motivos que levaram ao convite para o jantar, o viajante explica que construiu uma máquina capaz de se mover pela quarta dimensão, a dimensão do tempo. Os convidados se mostram incrédulos a respeito do que acabaram de escutar, assim, o viajante resolve provar, viajando para o futuro e voltando para contar o que viveu.

Chegando ao ano 801.702, o viajante no tempo entrará em contato com um novo mundo e com uma nova espécie humana, dividida em duas: os pacíficos Eloi e os temidos Morlocks. Convivendo com os Eloi, ele irá refletir sobre os avanços da ciência e da tecnologia e tentará entender o que levou a humanidade a chegar àquele ponto.

A leitura, de uma forma geral, foi bastante interessante e envolvente. Surpreendentemente, consegui escapar ilesa de spoilers relacionados à história, de forma que pouco sabia sobre o enredo. Logo, fui sendo, aos poucos, conduzida por H.G. Wells em sua história de aventura no futuro.

Gostei da possibilidade de acompanhar um homem da ciência do século XIX entrando em contato com um mundo do futuro e completamente diferente daquele com que estava acostumado. Lendo A máquina do tempo percebi que mesmo após dois séculos, ainda vivemos o reflexo do que foi o século XIX; tudo bem que os avanços tecnológicos e científicos já atingiram um outro patamar, mas ainda assim, consigo enxergar o homem do século XXI como uma continuidade do que foi o homem do século XIX. Assim, o livro de H.G. Wells, apesar de antigo, continua bastante atual. E essa é a grande maravilha dos clássicos. 

O livro é pequeno, por isso, não entregarei muito do enredo. Gostei muito das descrições de cenários do futuro, como os locais onde os Eloi e os Morlocks vivem. Através dos olhos do viajante, o autor conseguiu fazer com que eu sentisse um estranhamento em relação ao mundo do futuro, tentando entender essas duas espécies derivadas da humanidade e como viviam. Há uma atmosfera de mistério na história e quando finalmente compreendi o que estava acontecendo, fiquei surpresa e me envolvi ainda mais com a leitura.

A narrativa, feita em primeira pessoa e por dois personagens, é bastante fluida e traz descrições de cenários na medida certa. O único porém que poderia ser feito neste aspecto é a forma superficial com que o autor conta a história. O livro foi o primeiro trabalho de Wells, que foi bastante criticado por - vejam só! - Jules Verne por não ter apresentado uma base científica em sua história. O viajante construiu uma máquina do tempo e ficou por aí mesmo, o leitor que imagine o procedimento que ele utilizou em sua experiência. Para mim, este ponto em particular não incomoda, visto que não sou uma pessoa muito...científica. Ainda assim, gostaria de ter encontrado maiores explicações relacionadas aos Eloi e Morlocks e sua forma de "governo"; gostaria de ter compreendido melhor o que levou a humanidade a chegar até ali.

Mesmo com estes pontos que podem ser considerados negativos para alguns leitores, o livro me proporcionou várias reflexões acerca do ser humano e o seu futuro. Me fez pensar em como estará o planeta daqui a milhares de anos, se os humanos ainda serão a espécie dominante e, se sim, se teremos avançado ainda mais ou regredido à um ponto primitivo. E se não estivermos mais aqui, como seria a espécie dominante? O autor também aproveita para tratar, ainda que de forma sutil, sobre a questão da luta de classes, bastante recorrente desde o século XIX. Ao concluir, percebi que o autor não tinha uma visão muito otimista a respeito da humanidade.

De forma geral, gostei da leitura de A máquina do tempo, uma história de aventura que me fez pensar em algumas questões. É um livro agradável, rápido de ler e recomendado à todos os que gostam de histórias sobre viagem no tempo.

2 de outubro de 2014

O Retrato: um romance de obsessão (Charlie Lovett)


O Retrato: um romance de obsessão,  escrito pelo estadunidense Charlie Lovett, é ambientado no ano de 1995 e em uma pequena vila no interior da Inglaterra chamada Kingham. Após a precoce morte de sua esposa, Amanda, Peter Byerly deixou os Estados Unidos se mudou para Kinghan com o intuito de se afastar de tudo e de todos os que o faziam lembrar dela. Ele sofre de ansiedade social e desde os tempos da faculdade, quando começou a namorar Amanda, ela se transformou em sua proteção, fazendo com que o ato de se relacionar com outras pessoas se tornasse menos assustador.

Peter é apaixonado por livros, em especial aqueles que são considerados raros, como primeiras edições ou aquelas que pertenceram a pessoas renomadas. Ganha a vida procurando este tipo de livro, com a intenção de restaurá-los e vendê-los a colecionadores ou doá-los à bibliotecas. Antes de conhecer Amanda, os livros eram o seu refúgio e buscava neles uma forma de não precisar interagir com outras pessoas.

Decidido a retomar a sua vida e a seguir os conselhos de seu terapeuta, Peter visita uma pequena livraria de livros usados com a esperança de encontrar alguma raridade. Entre as estantes, ele encontra uma edição antiga de um livro sobre falsificações das obras de William Shakespeare, mas o que realmente o surpreende é uma aquarela que estava escondida dentro do livro. A pintura, claramente datada do período vitoriano, traz uma mulher muito parecida com Amanda.

Surpreso e intrigado, Peter decide descobrir a origem da aquarela e suas pesquisas o levarão mais longe do que ele jamais poderia imaginar. Em sua busca por pistas sobre o paradeiro do enigmático pintor da aquarela, Peter se encontrará no centro de uma investigação histórica: o mistério do "Pandosto", livro de Robert Greene cuja primeira e edição teria inspirado William Shakespeare a escrever a peça "Conto de inverno" e na qual o dramaturgo teria feito diversas anotações nas margens.

Por meio de uma história que mistura mistério, suspense, romance e drama, Charlie Lovett conduz o leitor por uma viagem no tempo, começando pelas décadas de 1980 e 1990, visitando as eras elisabetana e vitoriana e apresentando personagens históricas. O resultado é um romance marcado pela presença dos livros e pela obsessão daqueles que os amam. 

***
Primeiramente, preciso dizer que Charlie Lovett sabe conduzir uma história. A narrativa em terceira pessoa é dividida em três partes que se intercalam, de forma que a cada fim de capítulo um leitor é presenteado com um gancho, o que faz com que seja praticamente impossível largar o livro até chegar ao desfecho.

Além de acompanharmos a vida de Peter Byerly em 1995, tentando superar a perda de sua esposa e tentando compreender a origem da aquarela, somos levados também aos anos 1980, quando Peter ainda estava na faculdade; assim, podemos descobrir como ele e Amanda se conheceram e compreender como ela era importante para ele. É nesta parte da narrativa que somos apresentados à paixão de Peter, os livros raros, e temos acesso a várias informações verdadeiras sobre colecionadores e falsificadores. 

Também acompanhamos uma terceira narrativa que não traz nenhum protagonista em particular, a não ser o "Pandosto". Assim, o leitor acompanha a trajetória do livro desde os anos 1500 e pouco, quando este chega às mãos de Shakespeare, até o período da Era Vitoriana, quando se tem o último registro do paradeiro do livro. A partir desta narrativa, somos apresentados à diferentes figuras históricas, como o próprio Shakespeare e o famoso colecionador Robert Cotton.

O enredo, apesar de envolvente, foi, para mim, um tanto previsível. Antes de chegar ao desfecho, já havia descoberto o mistério da aquarela e o do Pandosto. Mas isso, de forma alguma transformou a leitura em algo enfadonho. Acredito que tenha descoberto o final antes por já estar familiarizada com o gênero de investigações. De qualquer forma, como o livro traz elementos de diferentes gêneros, foi impossível me prender apenas ao mistério, de forma que, antes que me desse conta, já estava apegada à história do protagonista e seus dramas particulares. Ainda no que diz respeito a previsibilidades, preciso avisar que o livro é recheado de clichês que vão desde frases de impacto manjadas até um ~romance~ com uma coadjuvante feminina que surge no meio da trama.

Gostei muito da forma como Peter é apresentado, surgindo como um sujeito introspectivo e com dificuldades de relacionamento, mas que, aos poucos, começa a se transformar. Neste aspecto, posso afirmar que o autor fez um ótimo trabalho de desenvolvimento de personagem, já que ao final do livro Peter não é mais o mesmo do início. Quanto aos demais personagens, não sei se posso dizer o mesmo, já que todos parecem ser meros coadjuvantes na trama. Até o "vilão" da história é meio...nebuloso. A única exceção talvez seja Amanda, que nos é apresentada tanto pelo narrador - nos flashbacks dos anos 1980 - quanto pela perspectiva de Peter, que constantemente conversa com ela e imagina como seriam as suas respostas ou comportamento em relação a suas atitudes. 

Apesar do livro trazer uma trama com mistério e suspense, não diria que o livro tem um desenrolar rápido. Ao contrário do que acontece com os livros de Dan Brown, por exemplo, em que os protagonistas passam por situações extremas e de correria contra o tempo em poucos dias, em O retrato as coisas ocorrem em um ritmo mais normal, sem muito desespero, e a ação propriamente dita só aparece no final. Acredito que ter ambientado a história na década de 1990 contribuiu para esse andamento mais tranquilo da narrativa, afinal, Peter é old school e realiza suas pesquisas em bibliotecas e por meio de ligações telefônicas. Gostei de poder lembrar, ainda que de forma breve, como era a vida antes do Google e dos smartphones. 

No fim, mesmo com alguns aspectos que podem ser considerados um empecilho para alguns leitores, eu gostei de "O retrato". Não acho que Charlie Lovett tivesse qualquer pretensão de escrever a mais nova obra-prima do século XXI, mas sim um livro envolvente, que servisse como um bom entretenimento e que acabasse por deixar o leitor curioso em relação aos universos que ele apresenta: o dos colecionadores de livros raros e o das peças de William Shakespeare. No meu caso, afirmo que o autor foi bem sucedido, principalmente no que diz respeito as obras do Grande Dramaturgo! Já separei algumas de suas peças para leitura nos próximos meses.

Assim, com as devidas ressalvas feitas, fica aqui a minha recomendação de um livro divertido e com cara de filme para assistir em um domingo à tarde, acompanhado por um balde de pipoca e um copão de Cola-cola. 

Em termos físicos, a edição feita pela Novo Conceito está bem caprichada. O livro traz as amadas páginas amarelas que não cansam a vista e um ótimo espaçamento entre as linhas. Ah, as letras estão de bom tamanho também. Como disse, fisicamente falando, tá de parabéns.

O problema ficou mesmo por conta da revisão, que deixou passar alguns errinhos. Não são muitos e, em sua maioria, são erros de digitação - duas vezes a mesma letra ou palavra, travessão fora de lugar, falta de espaçamento entre ponto final e início de frase -; mas fiquei um tanto chocada com o erro de concordância verbal ("Aquelas partes dele estava congeladas;...". - Página 388, quarta linha), que ainda quero acreditar que foi um erro de digitação. Como o livro é um lançamento recente, espero que a Novo Conceito melhore a revisão para uma segunda edição.