6 de março de 2015

Alta Fidelidade (Nick Hornby)

(...) O que vem antes, a música ou o sofrimento? Eu ouvia música porque sofria? Ou sofria porque ouvia música? Será que aqueles discos todos é que me deixavam melancólico? (p.30)
Ambientado na Londres dos anos 1990, Alta Fidelidade, de Nick Hornby, traz a história de Rob, um cara de 35 anos que trabalha em uma loja de CDs, da qual também é dono. Após o fim de seu longo relacionamento com Laura, Rob tenta superar o ocorrido listando os cinco piores términos de namoro de toda a sua vida – começando pela primeira namorada, que conheceu nos tempos de colégio, até chegar às relações da fase adulta.




Ele é completamente obcecado por música, e passa a maior parte do seu tempo consumindo álbuns de seus artistas preferidos, adquirindo vinis novos e raros para a sua coleção e gravando mixtapes. Basicamente, sua existência se resume a abrir e fechar a loja e, entre essas funções, passar horas e mais horas na companhia de Dick e Barry – os funcionários da loja, de quem não gosta muito – conversando sobre música, insultando clientes que, aparentemente, não tem tanto conhecimento sobre o assunto e sofrendo por causa de Laura. Assim como Rob, Dick e Barry não tem uma vida além da loja.

Por meio de uma narrativa em primeira pessoa, Rob tenta nos convencer – no caso, convencer sua ex – de que o fim do namoro com Laura não foi, nem de longe, o mais humilhante de sua vida. Assim, por meio de seu TOP 5, nos transporta aos diferentes períodos de sua história, nos apresentando suas antigas namoradas e explicando as circunstâncias em que tais relacionamentos chegaram ao fim; tudo acompanhado de uma lista de músicas que marcaram aqueles momentos. Ao falar sobre esses relacionamentos, Rob deixa claro o impacto que cada um teve em seu futuro e tenta compreender o que aconteceu entre ele e Laura para que chegassem ao ponto em que chegaram. 

Com essa premissa, Nick Hornby, com uma escrita fluída e envolvente, apresenta o leitor a um drama sobre relacionamentos na modernidade que se transformou, segundo o The Guardian, em um clássico imediato. Apesar de ambientado 20 anos atrás, o enredo e os temas abordados em “Alta Fidelidade” permanecem atuais. Por meio da história de Rob, o autor trata de alguns dos problemas mais comuns ao ser humano do século XXI: o medo de relacionamentos e de confiar em outra pessoa, a dificuldade para amadurecer e o excesso de egoísmo e egocentrismo.

***

No fundo, o livro é um monólogo, no qual o protagonista tenta se encontrar, se fazendo de vítima e culpando suas ex-namoradas pela vida frustrante que leva. Rob é desagradável, pedante e imaturo e isso transparece em sua narrativa, de forma que o leitor consegue enxergar como ele é, mas ele não. Ele é uma pessoa superficial, que julga as outras tendo como base interesses e conhecimentos musicais, e se estes não estiverem de acordo com o que ele julga interessante, a pessoa se torna descartável. Ele não está pronto para um relacionamento sério, mas ao invés de assumir isso, prefere por a culpa na ex, dizendo que ela gostava de bandas que para ele eram intragáveis, e não aceitando que ela saia à procura de alguém que espera o mesmo que ela em um relacionamento.

Mas aquilo ali continha uma verdade séria e essencial, a de que essas coisas importam mesmo, portanto não é legal fingir que uma relação tem futuro quando as coleções de disco divergem violentamente, o quando os filmes preferidos de cada um nem conversariam caso se encontrassem em uma festa. (p. 117)

Mesmo sem simpatizar com Rob, não pude evitar sentir alguma identificação com algumas das coisas que ele diz, principalmente em relação a suas impressões sobre a música em geral e o poder que ela tem de modificar o nosso humor e nos trazer esperança em momentos em que tudo parece perdido. Gostei também de sua sinceridade em relação a algumas normas do comportamento social que, para ele, não fazem o menor sentido. Muitas vezes ele fala algumas coisas que podem incomodar, mas, quando paramos para pensar percebemos que não são tão absurdas e a gente até já pensou nelas, mas nunca as tornamos públicas.

Talvez vivamos, todos nós que passamos os dias absorvendo material emocional, num estado de alta intensidade, e consequentemente jamais consigamos estar simplesmente contentes: precisamos estar infelizes, ou absurda e apaixonadamente felizes, e esses são estados difíceis de se obter numa relação sólida e estável. (p. 166)

Por fim, “Alta Fidelidade” é um livro interessante, de fácil leitura, que proporciona algumas reflexões nas entrelinhas e está recheado de referências musicais. Gostei bastante da escrita de Nick Hornby e, com certeza, pretendo ter mais contato com seu trabalho. Leitura recomendada!



2 de março de 2015

Sobre maratonas literárias | Vida de Leitora #09

Fevereiro foi um mês estranho no quesito leituras, porque 1) iniciei várias leituras e 2) não concluí muitas. Normalmente, não saio por aí me descabelando por conta de mais ou menos livros lidos por mês, mas a situação relatada acima me deixou um tanto preocupada. Digo isso porque em nenhum momento tive a sensação de passar por uma ressaca literária, já que me sentia motivada para ler e os livros escolhidos estavam interessantes.

No fim, acho que fui possuída pelo espírito carnavalesco típico do mês de fevereiro e, quando não estava lendo, me entreguei a outras atividades de meu interesse. Ainda assim, sem arrependimentos por não ler, não queria chegar ao fim do mês sem, pelo menos, avançar bastante na leitura dos livros iniciados. Foi aí que me permiti entrar no embalo das maratonas literárias 24h, que parecem estar fazendo bastante sucesso entre os booktubers brasileiros que acompanho.

Mas antes de expressar o que penso desse tipo de experiência e compartilhar um pouco sobre o que foi a minha, acho válido utilizar alguns caracteres para explicar o que é uma maratona literária àqueles que não sabem muito bem sobre o que eu estou falando. Basicamente, uma maratona literária diz respeito a um determinado período de tempo em que uma pessoa - ou várias pessoas - se propõe a ler um determinado número de páginas/livros ou apenas a ler mais do que o que costuma ler rotineiramente. Uma das maratonas mais conhecidas do tipo é a gringa Bout of Books, que no último mês de janeiro chegou à sua décima segunda edição. O evento dura uma semana, na qual, além de ler bastante, os interessados podem participar de desafios e sorteios e fazer atualizações sobre o seu desempenho nas redes sociais. Aqui no Brasil, creio que a mais conhecida é a Maratona Literária, que segue os moldes da Bout of Books e já teve quatro edições, incluindo uma especial de Carnaval.

Citei apenas alguns dos exemplos mais conhecidos, mas é claro que há vários tipos de maratonas literárias - organizadas por blogs, canais literários e até nas redes sociais -, com diferentes durações e desafios. Sem contar aquelas mais pessoais que muitos leitores resolvem fazer sozinhos. Particularmente, eu adoro a ideia de maratona literária; penso que é um ótimo jeito de incentivar a leitura (no caso de maratonas organizadas por blogs, por exemplo, em que muita gente participa) e também de fazer com que coloquemos as nossas leituras em dia.

E foi justamente este segundo ponto que me motivou a fazer a minha própria maratona literária 24h durante o mês de fevereiro. Já que contava com alguns livros iniciados e nenhum concluído, pensei que se reservasse um dia para ler, poderia pelo menos concluir algumas dessas leituras e avançar bastante em outras. E, felizmente, a brincadeira foi divertida e pude obter resultados satisfatórios. Porém, penso que isso só ocorreu porque não me pressionei a ler e também porque não dispus de todas as 24 horas do dia para me dedicar à leitura. No dia escolhido para fazer a maratona, vários imprevistos apareceram pelo caminho, de forma que só parei para ler quando sabia que não seria interrompida. Sem perceber, acho que encontrei o segredo para uma maratona 24h sem dor, sofrimento e cansaço, rs. 

Sei que para muitos, as maratonas literárias nem sempre resultam em boas experiências. Há quem se sinta obrigado a ler, e sabemos que isso não é legal; há também aqueles que leem bastante na maratona, mas vivenciam uma ressaca literária tenebrosa nas semanas seguintes. Algo parecido aconteceu com a Mell depois que ela faz uma maratona 24h, lembram?

Então, acho que para se obter um resultado positivo em uma maratona literária, seja ela de qual tipo for, é importante encarar tudo como um jogo em que todo mundo sai ganhando e o que importa é a participação e não os resultados. Como para tudo na vida, a criação de expectativas pode ser um problema. Pode acontecer de estabelecermos metas impossíveis ou inviáveis durante aquele período em que a maratona vai acontecer; então, quando o evento chega ao fim, o que sobra é a frustração por não conseguir atingir os seus objetivos de leitura iniciais. Por isso, é importante escolher um bom momento para participar de uma maratona literária e também se certificar de que você está no ~clima~ para ficar lendo por várias horas. Ah, e a escolha dos livros é bastante importante. Penso que as leituras mais recomendadas para esse tipo de experiência sejam aquelas que instigam o leitor e prendem a sua atenção; aventura, ação e mistério, por exemplo, são os meus gêneros preferidos para uma maratona literária, pois trazem tramas envolventes que dificilmente me deixam cansada ou entediada depois de algumas horas. 

Se as dicas acima forem levadas em consideração na hora de participar de uma maratona literária, o leitor tem tudo para ter uma ótima experiência de leitura. Assim, concluo o texto afirmando que gosto de maratonas literárias e que pretendo participar desse tipo de evento sempre que for possível e eu estiver com vontade. 

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

13 de fevereiro de 2015

Noah foge de casa (John Boyne)



Em Noah foge de casa, o leitor é apresentado a Noah Barleywater, um garotinho de 8 anos que - como o título deixa claro - resolve fugir de casa. Antes de o sol raiar e de seus pais acordarem, Noah já iniciou a sua caminhada rumo ao desconhecido.

Após passar por uma peculiar cidade em que macieiras estão vivas e ter seu trajeto cruzado por animais falantes, ele chega à uma floresta. E no centro dela há uma curiosíssima e mágica loja de brinquedos em que tudo é feito de madeira e que serve de lar para um velhinho bastante intrigante e com uma história interessante. Durante as próximas horas, ambos travam diálogos, trocam experiências e compreendem a importância de se manter fiel à uma promessa.

A leitura de "Noah foge de casa" foi uma experiência bastante agradável e a história apresentada por John Boyne, além de muito fofa, se revelou uma surpresa. Narrado em terceira e em primeira pessoa, o infantojuvenil parece o tipo de história para ser lida em voz alta para uma criança. É impossível não se emocionar ou se deixar cativar pelo enredo com ar de mistério e aspectos sutis de fantasia.

O protagonista, Noah, é um garotinho esperto e é por meio de sua curiosidade que somos apresentados ao universo da loja de brinquedos e de seu peculiar vendedor. Por vezes assustado ou intrigado, Noah tem um motivo para ter fugido de casa, mas se recusa a sequer pensar sobre o assunto. Assim, o mistério que permeia o motivo permanece ao longo de boa parte do livro.

Dessa forma,o garoto prefere conhecer melhor o dono da loja e escutar a respeito de suas aventuras quando este era jovem. Assumindo a narrativa, o velhinho fala a respeito de seu pai, o Pápi, e de quando ambos decidiram se mudar para a floresta, deixando para trás o passado na cidade; e sobre as situações pelas quais passou a partir de então - iniciar os estudos em uma nova escola, os conflitos com os colegas, a descoberta de que era um excelente corredor e, até, a sua transformação em um atleta olímpico. Cada uma das histórias do velhinho é representada por um títere (marionete) que fora entalhado por seu pai.

Eventualmente, Noah também compartilha algumas de suas experiências com o velho e é a partir deste ponto que passamos a ter alguma noção das razões que o levaram a sair de casa. Por meio dos diálogos entre os dois, John Boyne trata de temas mais profundos (eu disse que o livro tinha camadas!) e levanta questões interessantes de serem abordadas com crianças: a importância da família, o cuidado que se deve ter ao desejar algo, a valorização de promessas feitas e também sobre a fuga de seus problemas e o que isso pode trazer como consequência.

Durante a leitura, a identidade do dono da loja de brinquedos também passa a ser questionada e o leitor fica intrigado para saber quem ele é. Não vou mentir: apesar das inúmeras pistas que o autor deixou, eu só descobri quem o velhinho era no final. E a sensação que tive foi uma mistura de surpresa e encanto que só me fez gostar ainda mais da leitura.

Apesar da atmosfera fantasiosa - que em alguns momentos me lembrou o País das Maravilhas - e de momentos divertidos, "Noah foge de casa" não chega a ser um livro feliz. Muito pelo contrário, penso que é um livro bastante triste e melancólico, principalmente se considerarmos o público a que ele se dirige. Ainda assim, justamente por tratar de situações pelas quais todos passamos em alguma fase da vida, não posso deixar de considerar a leitura válida; tanto para crianças, quanto para adultos.

30 de janeiro de 2015

O garoto no convés (John Boyne)



Em O garoto no convés, John Boyne entrega ao leitor um romance histórico e de formação, trazendo a história de John Jacob Turnstile, um rapaz que terá a sua vida transformada após integrar a tripulação do famoso navio HMS Bounty.

O HMS Bounty foi um navio na Marinha Inglesa do século XVIII comandado pelo tenente William Bligh e que tinha como missão uma viagem até o Taiti para buscar um carregamento de mudas de fruta-pão. As mudas seriam plantadas na Jamaica e serviriam como alimentação boa e barata para os escravos. Porém, em abril de 1789, o Bounty serviu de palco para um motim, no qual o imediato do capitão/tenente do navio, Fletcher Christian, tomou o comando da embarcação, deixando William Bligh e os tripulantes que não concordaram com os amotinados à deriva em uma pequena barca no oceano Pacífico. Surpreendentemente, após uma série de dificuldades, os homens abandonados conseguiram sobreviver e retornar à Inglaterra.

No romance de John Boyne, que utiliza a história do motim do Bounty como enredo principal, o leitor é apresentado ao órfão de 14 anos John Jacob Turnstile que, após sofrer muitos abusos no orfanato em que vivia e realizar roubos pelas ruas de Portsmouth, é condenado a muitos anos de prisão. Porém, a vítima de seu último delito propõe que a pena seja cumprida de outra forma: John Jacob deveria embarcar na próxima missão do HMS Bounty e se tornar o novo criado do capitão William Bligh. Não muito empolgado com a sugestão, mas decidido a não ir para a cadeia, John Jacob aceita a proposta e terá a sua vida mudada.

A partir da visão do adolescente, o leitor tem acesso ao universo do Bounty - marcado pela hierarquia da tripulação e os costumes e superstições dos homens do mar - à estadia dos marujos no Taiti e ao fatídico dia em abril de 1789 quando a embarcação e seus tripulantes entraram para a história e se transformaram em inspiração para muitas obras de aventuras marítimas na literatura e no cinema.


Desde que ouvi falar em John Boyne e resolvi pesquisar sobre seus livros, "O garoto no convés" foi o primeiro a atrair a minha atenção, porém o quarto trabalho do autor com que eu tive contato. Devo confessar que, apesar de ter gostado muito da leitura, a experiência foi um pouco exaustiva em alguns momentos.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio John Jacob Turnstile, porém anos depois de suas aventuras à bordo do Bounty, o livro é dividido em cinco partes - duas das quais ambientadas completamente em alto mar - que acompanham os acontecimentos desde a prisão do protagonista, passando por sua viagem até o Taiti e o motim até, finalmente, o retorno à Inglaterra. Logo nas primeiras linhas o leitor já consegue ter uma ideia do tom marcado por humor e ironia que será utilizado por Turnstile ao contar a sua história, o que torna o personagem bastante cativante e de fácil identificação.

John Jacob é um jovem esperto e bastante corajoso, porém não sabe disso quando a história tem início, pois se encontra em estado de fragilidade decorrente dos anos de abuso que sofreu nas mãos do detestável sr. Lewis, o dono do estabelecimento em que vive. É emocionante acompanhar as descobertas e o amadurecimento do protagonista, que quando embarca na missão rumo ao Taiti é apenas um rapazinho assustado, mas que se transforma em um homem forte após enfrentar muitas adversidades no Bounty e no mar ao longo de dois anos.

Em sua narrativa, o rapaz (ou o próprio John Boyne, que se coloca no lugar de seu protagonista) consegue reproduzir a atmosfera dos acontecimentos que viveu e dos cenários que conheceu, fazendo com que seja muito simples para o leitor se inserir naquele contexto. Com descrições precisas, mas nada excessivas, Turnstile nos coloca à bordo do Bounty, onde assistimos de camarote o desenrolar da missão do capitão Bligh e de sua relação tempestuosa com os demais tripulantes da embarcação, incluindo o imediato Fletcher Christian. Também somos apresentados a algumas superstições náuticas - como o sacrifício ao Rei Netuno quando uma embarcação chega à linha do Equador - e à hierarquia de um navio, que faz com que o protagonista sofra até que consiga se ajustar.

Na história real, não é possível definir quem é o herói e quem é o vilão quando falamos de William Bligh e Fletcher Christian, pois tudo é uma questão de perspectiva. Porém, para o leitor de "O garoto no convés" fica clara a decisão de John Boyne em transformar Bligh, através dos olhos de John Jacob, no grande herói da aventura. Mesmo que muitas vezes se mostre como um indivíduo temperamental, dado à bruscas mudanças de humor, William Bligh é um indivíduo que preza pela honra e que tem como principal objetivo concluir a sua missão com sucesso e levar seus homens de volta para casa em segurança. Enquanto o capitão se mostra rígido e sério com a tripulação em diversos momentos, é inegável o carinho que ele dirige ao protagonista, se transformando num tipo de figura paterna para o órfão. A relação entre Bligh e Turnstile, marcada pelo companheirismo e lealdade, é, provavelmente, o aspecto de que mais gostei em todo o livro. Em contrapartida, o rapaz não poupa palavras quando quer criticar o sr. Christian, muitas vezes se incomodando com o fato de o oficial ser muito engomadinho, passando a maior parte do tempo verificando se as unhas estão limpas e se os cabelos estão bem penteados. John Jacob chega, inclusive, a chamar Fletcher Christian de vilão!

É interessante mencionar que o autor teve acesso à diversos livros sobre o motim do HMS Bounty que lhe serviram tanto de inspiração, quanto como forma de verificar a veracidade - na medida do possível - dos fatos que estava romanceando em sua história. Entre o material de pesquisa, que é citado pelo autor, estão o livro escrito por William Bligh junto com Edward Christian (irmão de Flecther Christian) a partir de seus diários de viagem e também transcrições dos processos relativos ao motim do Bounty.

Apesar da narrativa fluída na primeira parte, a leitura se tornou maçante em alguns trechos, principalmente na segunda metade do livro. Por se tratar de um romance de aventura marítima, obviamente, é de se esperar que boa parte do enredo se desenrole no mar e com "O garoto no convés" não é diferente, de forma que o autor se utiliza de várias páginas para descrever o - muitas vezes tedioso - cotidiano da tripulação do Bounty. A quarta parte, que narra os 48 dias à bordo da pequena barca à deriva no oceano, é narrada minuciosamente e separada por cada dia, como se fosse um diário. A estrutura funciona bem para criar e transmitir a atmosfera de angústia e desespero dos personagens, porém, a redução no ritmo da narrativa pode ser considerada um empecilho para aqueles que buscam algo mais dinâmico e com ação. 

Como curiosidade, achei bem interessante perceber que o fidalgo que sugere que John Jacob embarque no Bounty é Matthiew Zélla, o ladrão do tempo e protagonista do primeiro romance de John Boyne.

Para concluir, quero ressaltar que gostei bastante da leitura de "O garoto no convés", apesar de ter me incomodado um pouco com o ritmo. O livro, além de apresentar ao leitor um momento célebre na História, é também uma ótima aventura marítima narrada por um protagonista interessante e que se desenvolve com o virar das páginas. Leitura recomendada!

16 de janeiro de 2015

Eu sou Malala (Malala Yousafzai & Christina Lamb)


Após ser baleada por um membro do Talibã, em 2012, Malala Yousafzai se tornou conhecida em todo o mundo e muitos questionaram os motivos para uma garota de 15 anos ser considerada uma ameaça. Um ano depois, já recuperada e refugiada em outro país, Malala resolve contar a sua história em um livro.

O homem usava um gorro de lã tradicional e tinha um lenço sobre o nariz e a boca, como se estivesse gripado. Parecia um estudante universitário. Então avançou para a porta traseira do ônibus e se debruçou em nossa direção. 'Quem é Malala', perguntou (...). Minhas amigas mais tarde me contaram que a mão do rapaz tremia ao atirar. Quando chegamos ao hospital, meu cabelo longo e o colo de Moniba estavam cobertos de sangue. Quem é Malala? Malala sou eu e esta é minha história. (p.17)
Nascida no Vale do Swat - região que faz parte do território Paquistanês, apesar de funcionar quase como um estado independente dentro de outro estado -, desde muito pequena Malala lidou com a diferenciação muito nítida feita entre homens e mulheres na região em que vivia. Enquanto os meninos podiam fazer o que bem entendessem, além de pensar em sua educação e sucesso profissional, as meninas deveriam se comportar, se preocupando com os afazeres domésticos e com um bom casamento. Mesmo dentro de tal contexto, Malala sempre recebeu incentivo de seu pai, Ziauddin, para que estudasse e sonhasse em ser algo mais do que uma esposa e uma mãe.

Após a chegada do Talibã ao Vale do Swat, teve início um período de repressão, em que novas leis foram impostas e quem ousar desobedecê-las deve arcar com as consequências, que vão desde açoitamentos públicos à execuções. Meninas foram proibidas de frequentar as escolas e as mulheres instruídas a permanecer dentro de casa e só sair com a companhia de um homem de sua família. Ziauddin não aceitou os termos e, sendo dono de uma escola, continuou incentivando a educação de meninas.

Sentíamos que o Talibã nos via como pequenos bonecos a ser controlados, aos quais se dizia o que fazer e como vestir-se. Pensei que se Deus quisesse que fôssemos assim, não nos teria feito diferentes uns dos outros. (p.135)


Assim como o pai, Malala também passou a lutar por seus direitos e frequentemente participava de palestras em que falava para meninas sobre a importância de ir para a escola e do valor que tem o ensino. Em 2009, participou de um documentário para o New York Times (aviso: o documentário tem cenas fortes de violência, como corpos expostos e decapitados) em que falou um pouco sobre o período em que teve que abandonar os estudos por conta de constantes bombardeios entre soldados paquistaneses e americanos (Osama Bin Laden estava escondido em um local bem próximo ao Swat) sofridos por sua cidade. No vídeo, mais uma vez, ela foca na importância da educação para crianças - meninos e meninas - em todo o mundo.

Em Eu Sou Malala a jovem fala a respeito de sua infância no Vale do Swat e de como a região sofreu com a chegada do Talibã após o terremoto de 2005, narrando alguns dos acontecimentos históricos que marcaram o território. Ela também conta como foi se recuperar após o atentado contra a sua vida e de como se estabeleceu, junto com a sua família, na Inglaterra.


Narrado em primeira pessoa pela própria Malala, o livro é dividido em cinco partes (Antes do Talibã, O vale da morte, Três meninas, três balas, Entre a vida e a morte e Uma segunda vida) em que ela explica um pouco da história do Vale do Swat e dos motivos que o tornam tão distinto do resto do território paquistanês. Ao tratar da história de seu país, Malala também apresenta um parâmetro social, econômico e político do Paquistão, deixando claro que lá as taxas de analfabetismo são muito altas, o que contribui bastante para a corrupção e para o avanço do Talibã, que deturpa os ensinamentos do islamismo, de forma a manipular a população de acordo com seus objetivos.

Nosso povo ficou desorientado. Pensa que o mais importante é defender o Islã e é malconduzido por aqueles que, como o Talibã, interpretam deliberadamente o Corão de forma errada. Devíamos nos concentrar em problemas práticos. Há tantos analfabetos em nosso país! As mulheres, sobretudo, não têm nenhuma instrução. Vivemos numa nação onde pessoas explodem escolas. Não dispomos de fornecimento confiável de energia elétrica. Não se passa um único dia sem o assassinato de pelo menos um paquistanês. (p. 234)

Além do campo político, social e econômico, o leitor também tem conhecimento do cotidiano da região e da vida familiar de sua narradora. Desde o início fica claro que Malala é uma adolescente como qualquer outra - ela gosta de escutar Justin Bieber, de assistir Ugly Betty e os filmes da série Crepúsculo -, com conflitos interpessoais, dúvidas e descobertas próprios dessa fase da vida. A linguagem é bem acessível. Acredito que isso se deva tanto ao fato de ter sido escrito por uma adolescente, quanto ao fato de o inglês não ser a língua nativa de Malala. Aliás, vale mencionar que o livro foi escrito com a ajuda da jornalista Christina Lamb. Não fica claro até que ponto a jornalista a auxiliou e até onde tudo o que está escrito foi ideia original de Malala, o que não muda de forma alguma a importância da obra.

Gostei bastante da leitura de Eu sou Malala, que está entre os favoritos de 2014. Me identifiquei com Malala em alguns momentos e, de certa forma, a experiência de leitura de seu livro despertou em mim emoções muito próximas das que senti lendo O Diário de Anne Frank. Talvez isso tenha ocorrido por ambos os livros trazerem os relatos de meninas que ainda muito jovens tiveram contato com a extrema violência. Felizmente, o destino de Malala foi positivo e hoje, já recuperada, ela continua com sua luta para que todas as crianças do mundo tenham acesso à educação. Em 2013, participou de uma conferência da ONU e no ano passado se tornou a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Além de bastante inspirador, o livro também é bastante interessante por tratar um pouco da história do Swat e do Paquistão. Confesso que, antes da leitura, tinha pouco conhecimento sobre estas regiões e o que sabia vinha de algumas notícias que li na internet e que sempre me deixavam confusa. Malala contextualiza sua história de forma a tornar um pouco mais clara para o leitor do mundo ocidental a realidade em que vivem muitos paquistaneses. Ela também frisa a importância de não classificar todo e qualquer muçulmano como terrorista, explicando que o Islã é uma religião que prega a paz e a igualdade, enquanto o Talibã distorce tudo para alcançar seus objetivos.

Eu não conseguia entender o que o Talibã queria fazer. 'Eles estão caluniando nossa religião', falei em entrevistas. 'Como você vai aceitar o Islã se eu apontar uma arma para sua cabeça e afirmar que o Islã é a verdadeira religião? Se eles querem que todas as pessoas do mundo sejam muçulmanas, por que primeiro não se mostram bons muçulmanos?' (p. 159)

Acredito que, levando em consideração o momento que estamos vivendo, esta mensagem é bastante válida. Leitura recomendadíssima!