17 de abril de 2015

Sobre expectativas | Vida de Leitora #12

Hoje vamos conversar sobre expectativas, as grandes culpadas por - na maioria das vezes - não gostarmos de uma leitura, ou gostarmos mais do que esperávamos. Penso que muitas de nossas impressões em relação a um livro dependem muito do que pensávamos ou esperávamos deles antes da leitura; e estes fatores estão relacionados à expectativa.

Recentemente, li o bastante comentado Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Confesso que logo que o livro foi lançado não tive interesse em lê-lo, porém, minha curiosidade surgiu e cresceu muito conforme eu lia ou assistia as impressões de muita gente que acompanho. A opinião que me pareceu geral é a de que o livro é maravilhoso e provavelmente se transformará em um clássico contemporâneo. Assim, concluí que a leitura seria, no mínimo, interessante e resolvi encarar suas mais de 500 páginas.

Gostei? Sim, mas não tanto quanto imaginei gostar. Tive alguns problemas com a leitura e com a escrita da autora que não convém mencionar no momento. A questão é que meu interesse pela leitura de Americanah surgiu depois de ver as opiniões de outras pessoas e por alguma razão inexplicável aceitei sem margem para erro que o livro é uma obra-prima da literatura contemporânea, sem defeitos, a definição da perfeição. E, obviamente, me frustrei, porque não achei nada disso do livro da Chimamanda. Isso quer dizer que os outros leitores estavam mentindo ao dizerem que o livro é bom? 
Claro que não, estavam apenas expressando as opiniões deles, oras. Errada fui eu que, a partir destas opiniões, passei a enxergar o livro como algo de outro mundo sem sequer ter lido uma página do mesmo, entendem?

Não estou dizendo que é errado esperar algo de uma leitura ou levar em consideração a opinião de outros leitores. Mas prefiro acreditar que, inicialmente, um livro é apenas um livro que poderá, ou não, me agradar; e esta decisão deve ser feita tendo como base apenas a minha experiência com a leitura, sem interferências externas resultantes de expectativas.

Quando leio um livro e não gosto de alguns aspectos, fico incomodada, mas aceito razoavelmente bem os problemas. Porém, quando decido acreditar que a leitura é a nova obra-prima do mundo e encontro nesta algum “defeito”, fico extremamente irritada, me sinto enganada e revoltada. E isso não faz sentido algum, porque ninguém pode garantir com 100% de certeza que qualquer livro publicado é a melhor coisa que já foi escrita. E vale lembrar que o que é bom para mim, pode não ser bom para outra pessoa, certo? Logo, é realmente impossível afirmar de forma objetiva que um livro é horrível ou incrível, porque é tudo uma questão de perspectiva.

Sabendo de tudo isso, evito ao máximo me deixar influenciar por resenhas, sejam estas positivas ou negativas, a respeito de um livro que tenho interesse em ler. Porém, confesso que esta é uma missão difícil quando se trata de um livro bastante popular e comentado, porque sempre sou levada a crer que as páginas em questão irão me encantar ou decepcionar. Porque, sim, há também a possibilidade de as expectativas serem negativas; mas neste caso, acho que a experiência de leitura não é tão afetada e o resultado é agradável. Ano passado, quando comecei a ler Mentirosos, de E. Lockhart, já havia visto tantas opiniões sobre o livro que estava esperando me decepcionar e me culpar por ter perdido tempo com um livro ruim. No entanto, o que aconteceu foi justamente o oposto e me surpreendi.

Ou seja, expectativas podem ajudar ou atrapalhar muito. Ainda assim, prefiro que elas não existam. Prefiro me entregar a uma leitura sem esperar nada – nada mesmo, nem bom e nem ruim – e deixar que a história e a narrativa me mostrem se fiz uma boa escolha ou se apenas perdi o meu tempo. É difícil agir dessa forma e, como ficou claro pelo primeiro exemplo, nem sempre dá certo; mas, quando funciona, é ótimo e me poupa do estresse que é terminar um calhamaço com um sentimento de frustração. Digo isso porque se não tivesse esperado muito de Americanah, poderia até ter gostado mais dele.

Assim, meu conselho como leitora para vocês, também leitores é: não criem expectativas, nunca. 

Texto publicado originalmente na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

31 de março de 2015

Razão e Sensibilidade (Jane Austen)

A edição em que li foi uma anterior lançada pela mesma editora.

Publicado em 1811, Razão e sensibilidade é o primeiro trabalho de Jane Austen e foi aclamado já na época de sua publicação, que ocorreu de forma anônima. O romance traz a história das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que com suas personalidades e comportamentos opostos, representam a dualidade que dá título à obra.

No início do romance, Austen nos apresenta à família Dashwood - composta pelo Sr. Dashwood, sua esposa e suas três filhas (Elinor, Marianne e Margaret) -, que vive na renomada Norland Park, uma grande e belíssima propriedade localizada em Sussex, Inglaterra. O Sr. Dashwood se casou duas vezes, portanto sabe que de acordo com as leis vigentes na época, na ocasião de sua morte, sua esposa e filhas seriam deixadas sem nada, e sua fortuna e propriedade seriam entregues a seu filho primogênito, fruto de seu primeiro casamento. Durante o período retratado por Austen, mulheres não tinham direito à herança ou ao trabalho, assim, seu sustento seria garantido por seus familiares homens ou por um bom casamento.

Após a morte do Sr. Dashwood, que ocorre logo nos primeiros capítulos, suas filhas e esposa são deixadas à mercê da boa vontade de seu herdeiro, o Sr. John Dashwood. Este, por sua vez, acreditando estar fazendo mais que a sua obrigação, oferece à madrasta e às suas irmãs uma mísera quantia em dinheiro, o que as obriga a procurar uma nova residência que esteja de acordo com a nova renda. Assim, as Dashwood se mudam para Devonshire, onde passam a viver em um chalé emprestado por Sir John Middleton, um primo distante da Sra. Dashwood. E é neste novo e diferente ambiente – marcado por situações inconvenientes e pessoas, aparentemente, sem refinamento - que as duas protagonistas irão deparar com as primeiras dores resultantes de decepções amorosas.

Antes de partir para Devonshire, Elinor se apaixonou por Edward Ferrars, cunhado de seu irmão, que parece retribuir o seu sentimento, apesar de adotar uma postura mais tímida e reservada. Mesmo sabendo que o Sr. Ferrars está destinado a uma dama rica, Elinor não deixa de sonhar com a possibilidade de um dia poder ser a sua esposa e fica bastante frustrada ao ter que deixá-lo, passando a sofrer de forma silenciosa. Marianne, por sua vez, se apaixona perdidamente por Willoughby de Allenham, um cavalheiro que a salva após uma queda em um dia chuvoso. Ao contrário da irmã, Marianne é bastante efusiva em relação aos seus sentimentos, deixando claro para todos o que pensa e sendo incapaz de compreender a postura fria e calada de Elinor em relação a Edward.

Por meio da busca dessas duas irmãs por um final feliz, Jane Austen entrega ao leitor muito mais do que uma história de amor. Ela nos apresenta um romance sobre os costumes de uma época e de uma sociedade rígida, injusta e hipócrita; e ao criticar esta realidade, a autora faz uso de seu já conhecido senso de humor marcado pela ironia e pela exposição de seus personagens ao ridículo.

***

Acho muito difícil falar sobre este livro, porque sinto que por mais que tente, jamais conseguirei ressaltar tudo o que há de incrível neste clássico. Gosto muito da forma sutil como Jane Austen se utiliza de uma história de amor para criticar os costumes de sua época. Por meio do cotidiano dessas mulheres e suas vidas domésticas, a autora atenta para algumas questões que um olhar mais despercebido pode deixar passar batido.

Já perdi as contas de quantas vezes li comentários de pessoas dizendo que os livros de Jane Austen são superficiais, bobinhos e com personagens que apenas buscam um casamento. Creio que tais pessoas não levaram em consideração o contexto das histórias de Austen ao formularem os comentários. Pois, ao considerar a realidade das mulheres daquela época - que não podiam trabalhar, ir para a escola/universidade ou herdar uma fortuna -, compreende-se que o que elas poderiam esperar de melhor em suas vidas era, de fato, um bom casamento como forma de sustento. A “rebeldia” das heroínas de Austen está no fato de elas, apesar de não aceitarem a realidade em que estão inseridas, tentarem ser feliz nela, buscando um casamento feliz, ao lado de um homem que as aceite como são, retribuindo o afeto e respeitando-as intelectualmente.

Em Razão e sensibilidade, as heroínas têm personalidade e sabem o que querem, mesmo que seus desejos mais íntimos não estejam de acordo com as expectativas da sociedade. Marianne (que lembra um pouco Catherine Morland, de A abadia de Northanger) não tem medo de falar o que pensa, mesmo que sua honestidade possa ser interpretada como grosseria. Elinor despreza a noção de que um casamento bem sucedido se baseia em posses e poder econômico. Ambas querem casar por amor e lutam para que isso aconteça.

Ao apresentar duas protagonistas tão opostas, a autora também traz à tona um dos debates mais populares acerca da natureza humana: razão x emoção. No início do século XIX (cenário no qual o livro foi escrito), o Romantismo, com seu culto à sensibilidade, fazia oposição aos ideais iluministas, que prezavam pela razão. Por meio das heroínas em Razão e sensibilidade, o leitor entra em contato com as duas vertentes opostas de pensamento. Elinor, a razão, é uma jovem sensata, que esconde seus sentimentos e que sempre pensa muito antes de agir. Marianne, a emoção, é dramática, impulsiva e expansiva; todos sabem o que pensa ou sente; para ela, só é possível ter sentimentos se estes forem externados.

Além da dicotomia entre razão e emoção, o livro trabalha com outras formas de opostos, seja ao apresentar diferentes maneiras de olhar para um mesmo assunto (casamento como um negócio x casamento por amor) ou, mais uma vez, pelas personalidades dos personagens (Coronel Brandon x Willoughby, Elinor x Lucy Steele, Elinor x Srta. Morton, Marianne x Eliza, Marianne x Srta. Grey, Edward x Robert).

Em Razão e sensibilidade, Austen trata de outra questão comum em seus livros: a de preconceitos e julgamentos a partir da aparência de algo ou alguém. Como sempre, tais julgamentos são errôneos. A Sra. Jennings, por exemplo, é vista o tempo todo por Marianne como uma velha sem classe e inconveniente que só quer saber sobre a sua vida amorosa para fazer fofoca; porém, conforme a trama avança, a jovem percebe que, na verdade, a Sra. Jennings, apesar de seus defeitos, é uma mulher bastante maternal e que se preocupa com ela. Há também o caso de Willoughby, que surge como um príncipe encantado montado em um cavalo branco, mas que aos poucos vai se revelando justamente o oposto. Tanto os enredos, quanto os personagens de Jane Austen são marcados por camadas; tudo é muito mais profundo do que parece.

Quanto ao final, é preciso dizer que Jane Austen gosta de conceder finais felizes para suas heroínas e com Razão e sensibilidade não poderia ser diferente. Ambas as irmãs encontram desfechos muito positivos para jovens de sua época e, enquanto concordo com o fim de Elinor, não sei se posso dizer o mesmo em relação à Marianne. Fiquei com a sensação de que, de alguma forma, a autora resolveu punir a personagem por seu excesso de sentimentalismo, dando-lhe um final que pende mais para o lado racional. Ainda que fique claro, ao final da obra, que Austen defende a ideia de que é necessário que haja um equilíbrio entre razão e emoção, não consigo deixar de pensar que ela defende muito mais o lado da razão, enaltecendo o comportamento de Elinor e criticando o de Marianne.

Por fim, no que diz respeito à narrativa, a leitura flui bem no início e no fim, mas se torna lenta no meio. Há partes em que nada parece acontecer e, mesmo que o livro não deixe de ter seu encanto e despertar o interesse, nestes momentos se torna enfadonho. Também fiquei incomodada com o excesso de páginas dedicadas aos sofrimentos de Marianne em oposição às poucas oferecidas à Elinor, mas isso é mais uma questão de gosto, visto que Elinor é a minha preferida na história. No entanto, mesmo com um ritmo meio inconstante, a leitura de Razão e sensibilidade é extremamente válida e recomendada.








27 de março de 2015

Sobre spoilers | Vida de Leitora #11


Esta semana concluí a leitura de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, e fui correndo para a internet procurar opiniões de outras pessoas sobre o livro. Um dos vídeos que mais gostei de assistir foi o da booktuber canadense Ariel Bissett (para assistir, clique aqui), que aborda os principais temas tratados na obra clássica e comenta também sobre suas partes preferidas. Porém, enquanto assistia Ariel falando sobre as suas impressões de leitura deparei com uma indagação de minha parte e, creio, da parte de muita gente.

Em certo ponto do vídeo, Ariel fala sobre uma descoberta realizada pela heroína Elinor Dashwood apenas na metade do livro, revelando um trecho essencial do enredo. Assim, não pude deixar de pensar "pera, mas assim estraga a experiência de quem não leu o livro ainda". E aí, me pergunto: o que é um spoiler? Até quando a revelação dos acontecimentos de um livro pode ser considerada um spoiler?

Aos que não estão familiarizados com o termo, spoiler deriva da expressão de língua inglesa to spoil, que em uma tradução livre seria algo como estragar, e não diz respeito apenas ao universo literário; filmes e séries de televisão também podem ser estragados pela revelação de spoilers. Assim, se você não quer saber o que vai acontecer com o seu personagem preferido de um seriado, por exemplo, é muito importante ter cuidado por onde anda nesta terra de ninguém chamada internet. Vivemos em uma era muito ágil e é apenas uma questão de minutos até que uma informação caia da rede. Mesmo assim, com todo o cuidado do mundo, você ainda corre o risco de descobrir o desfecho de um livro antes de lê-lo. E aí, novamente, questionamos o que é, de fato, um spoiler.

Por exemplo, O sangue do Olimpo, desfecho da série Os heróis do Olimpo, foi lançado no final do ano passado e tem muita gente que ainda não o leu (tudo bem que estamos em março, mas livros demandam mais tempo que filmes, certo?). Então, se em uma conversa entre dois amigos, um revela ao outro o que acontece no final, penso que a revelação é um spoiler, visto que estragou a experiência daquele que ainda não leu. Por outro lado, temos os clássicos, como o citado Razão e sensibilidade, escrito há mais de 200 anos. Seria a revelação de um aspecto do enredo um spoiler? Tendo em vista que estamos falando de uma obra que sobreviveu a dois séculos, já foi adaptada para cinema e televisão e é encontrada em diversas referências na cultura pop, é de imaginar que muita gente já saiba o que acontece na história e, por isso, falar sobre fatos reveladores da trama não necessariamente é considerado um spoiler, certo? Não sei.

Há quem diga que qualquer informação que entregue muita coisa do enredo é um spoiler, não importa há quantos anos a obra exista. Há aqueles que entendem como spoiler qualquer revelação de acontecimentos de obras recentes e não se importam se descobrirem o final de um clássico, por exemplo. Eu, particularmente, evito buscar qualquer tipo de informações relacionadas aos livros que estou lendo ou tenho a intenção de ler. Faço isso porque gosto que meu contato com uma obra não sofra interferências externas e eu possa formar as minhas impressões com base no que eu, de fato, consegui capturar da leitura. Da mesma forma, evito comentar acontecimentos que considero reveladores - mesmo em clássicos - em minhas resenhas; se por alguma razão precisar falar o que acontece, aviso que spoilers virão. Assim, a pessoa decide se quer continuar a ler a resenha ou a assistir ao vídeo.

Esta é uma discussão na qual creio que não exista um certo e um errado, mas sim diferentes pontos de vista. Por isso, não consigo encontrar uma solução para o meu dilema.

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se. 

19 de março de 2015

Objetos Cortantes (Gillian Flynn)



Em Objetos Cortantes, o romance de estreia de Gillian Flynn (autora de Garota Exemplar), o leitor é apresentado a uma trama de suspense, mistério policial e drama familiar. Camille Preaker, uma mulher de trinta e poucos anos que trabalha como repórter em Chicago, Illinois, se descreve como medíocre em seu trabalho. Pouco tempo após sair de uma internação em um hospital psiquiátrico, ela recebe uma pauta de seu editor e terá que voltar à pequena Wind Gap, sua cidade natal localizada no estado do Missouri (EUA), para cobrir o caso de crimes cometidos contra duas garotas locais. Uma delas foi brutalmente assassinada e seu corpo foi encontrado sem dentes. A outra está desaparecida.

Oito anos após abandonar Wind Gap com a certeza de que não voltaria para lá tão cedo, Camille se vê obrigada a entrar em contato com seu passado, seus colegas da adolescência e sua família bastante disfuncional. Adora, sua mãe, é a mulher mais rica da cidade, além de completamente neurótica. Alan, seu padrasto, sempre se manteve distante. Amma, sua meia-irmã adolescente, é uma completa estranha. Sem manter contato com os familiares durante a sua ausência, Camille vira hóspede na casa de sua mãe e passa a ser atormentada por recordações dolorosas do período em que ali vivera, incluindo a morte de Marian, sua irmã, há muitos anos.

Aos poucos, conforme se insere novamente na comunidade da qual fez parte, Camille começa a juntar informações para a sua matéria e, ao mesmo tempo, luta contra o tempo e a má vontade dos locais para conseguir alguma declaração oficial sobre as investigações dos crimes. Assim que suas perguntas começam a encontrar algumas respostas, ela percebe que a cidade esconde segredos perturbadores e sombrios.

Já fazia tempo que queria conhecer o trabalho de Gillian Flynn e resolvi começar por Objetos Cortantes, lançamento de fevereiro da editora Intrínseca. A partir desta primeira leitura, já pude sentir que a autora não evita tratar de temas delicados e polêmicos por medo de não agradar ao público.

Em termos de expectativas – que não eram altas para evitar frustrações com livros e/ou autores amados por muitas pessoas -, as minhas foram alcançadas. Não sabia muito bem o que iria encontrar e, de forma alguma, adivinhei o que o livro me traria. Gillian Flynn é uma autora bastante talentosa; a forma como ela escreve e conduz os acontecimentos deixam o leitor completamente envolvido e com vontade de chegar rapidamente ao final para saber o que vai acontecer com os personagens.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista, o livro apresenta uma história linear marcada por algumas intervenções do passado feitas pela narradora. No tempo presente, quando Camille inicia a sua apuração dos ocorridos em Wind Gap, tudo é apresentado conforme vai acontecendo, porém, com frequência sua narrativa é interrompida por recordações do período em que vivera ali. Assim, o leitor só passa a ter conhecimento da real relação entre Camille e Adora por meio das divagações da primeira.

Camille é uma das protagonistas mais diferentes com quem já deparei em minhas leituras. Ao mesmo tempo em que consegui enxergar muita determinação e força em sua maneira de agir, não pude deixar de achá-la bastante vulnerável e frágil; principalmente quando está diante de sua mãe; e isso está completamente relacionado à sua internação em um hospital psiquiátrico e seus problemas com o consumo de álcool. Adora, por sua vez, me desagradou desde a sua primeira aparição. Ela é uma mulher fria, desequilibrada e controladora; e a forma como trata as suas filhas é, no mínimo, assustadora. Despreza Camille e dirige à Amma uma adoração doentia. Ambas vivem à sombra de Marian, a irmã perfeita e morta há anos.

Amma, devo confessar, foi a personagem que mais me fascinou no livro. Enigmática do início ao fim, a garota é detestável e imprevisível. Ela é a mais popular e bonita do colégio, consegue tudo o que quer e é capaz de irritar adultos de uma forma inexplicável. De forma contraditória, há momentos em que é adorável e gentil. Assim como Adora, ela é bastante manipuladora e o leitor, assim como Camille, nunca consegue interpretar os motivos por trás de seu comportamento volátil. 

Wind Gap, com seus costumes tradicionais e conservadores típicos de cidades pequenas, constitui um cenário propício para o tipo de história que Gillian Flynn se propõe a contar. É uma cidade em que todo mundo se conhece, marcada por boatos, disputas sociais e, claro, aparências que escondem vidas vazias e problemáticas. Os crimes cometidos contra as duas garotas choca a comunidade, que prefere acreditar que o responsável é alguém de fora, ao invés de um conhecido. A polícia se recusa a dizer algo sobre as investigações e a comunidade, de forma geral, enxerga Camille como uma intrusa, oportunista que apenas quer usar a dor local como um meio de vender mais jornais. (Neste ponto, a autora aproveita para, de forma sutil, apontar para uma realidade de nossa sociedade). Justamente pela relutância da polícia em declarar algo sobre o caso, Camille começa a sua própria investigação como uma forma de obter informações para a matéria. E é por meio de cidadãos comuns, com suas fofocas e verdades constrangedoras, que a solução surpreendente e medonha começa a se desenrolar.

Não vou mentir, esperava mais da investigação em si. Porém, conforme avançava na leitura, me dei conta de que a história era mais um drama familiar do que um mistério policial. Assim, me contentei em tentar compreender os motivos para a relação extremamente disfuncional entre Camille, sua mãe e sua irmã. Vale ressaltar que por meio da relação entre mãe e filha, Gillian Flynn trata de uma questão que contraria um pensamento generalizado que existe na sociedade em que vivemos: o de que mulheres não podem ser cruéis. Aceitamos de forma muito fácil que homens podem ser assassinos, sequestradores, torturadores, etc.; porém, dificilmente imaginamos uma mulher que se enquadre em tais perfis. Porém, com as ações de Adora e a maneira como ela trata suas filhas, assim como o comportamento de Amma, fica claro para o leitor que mulheres – mães inclusive – podem sim ser muito cruéis. E a forma como essa ideia se apresenta no livro é profundamente doentia, gerando desconforto ao leitor.

E acho que essa foi mesmo a intenção da autora, fazer o leitor se sentir mal e incomodado. A história é realmente pesada. É forte, violenta e perturbadora. Terminei a leitura por volta das 3h da manhã e ainda fiquei mais uma hora remoendo aquele final e tentando entender qual é a mensagem que Gillian Flynn quis transmitir. Até o momento em que escrevo este texto não consegui me decidir se gostei ou não do livro, mas garanto que gostei muito da experiência de leitura e acho que, apenas por este fato, Objetos Cortantes merece ser lido e recomendado. Se com seu livro de estreia, Gillian Flynn já conseguiu me afetar assim, imagino o que os outros farão. Garota exemplar já aguarda na estante.

13 de março de 2015

Sobre atropelar leituras | Vida de Leitora #10

Oi, meu nome é Michelle e eu tenho um sério problema: eu atropelo as minhas leituras. Hoje quero conversar com vocês sobre um hábito que tenho como leitora e que vem me incomodado um pouco ultimamente. Venho, por meio deste post, procurar aqueles que como eu também sofrem deste mal e, quem sabe, encontrar alguma justificativa para tal comportamento.

Mas antes, vamos às explicações. O que quer dizer atropelar as leituras? Basicamente, atropelar uma leitura consiste em você largar um livro por conta de outro, mas não porque o primeiro seja ruim, e sim porque o segundo promete ser igualmente interessante. Vou exemplificar com uma situação real pela qual passei nesta última semana. Estou lendo o comentadíssimo Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, e gostando muito da leitura; porém, recentemente, recebi um exemplar de Objetos cortantes, da famosa Gillian Flynn, que me intriga bastante, pois adoro um bom livro policial e morro de curiosidade para conhecer o trabalho da autora. Resultado: atropelei a leitura de Americanah e comecei Objetos cortantes. Não abandonei a leitura do primeiro, mas estou intercalando com a leitura do segundo. Ambos os livros, cada um à sua maneira, são bons.

Agora, pensem que antes de começar Americanah, atropelei a leitura de Razão e Sensibilidade, clássico de Jane Austen, autora cujo trabalho me agrada bastante. Estou lendo os três livros ao mesmo tempo; quatro, se somarmos o Profissões para mulheres e outros artigos feministas, de Virginia Woolf, que estou lendo mais devagar. Ah, tudo isso e mais o As aventuras de Robin Hood, de Alexandre Dumas, que está em stand by durante o mês de março. Entendem onde quero chegar? É muita leitura simultânea para pouco tempo. É muita vontade de ler várias coisas para uma pessoa só.

Juro para vocês que não sei o porquê deste meu comportamento. Não sei por qual razão sofro de tamanha impaciência que me impede de agir de forma normal e ler apenas um livro de cada vez. Se formos considerar que estou lendo uns cinco livros ao mesmo tempo, obviamente, não terminarei nenhum deles tão cedo, logo, esse comportamento não tem lógica alguma e só atrasa mais as leituras. 

Em uma tentativa de desvendar o mistério do meu atropelar das leituras, usei a desculpa de que intercalo livros para não me enjoar das histórias. Ou a de que tenho tanta sede por novas tramas que, simplesmente, começo a ler tudo de uma vez. A primeira desculpa até faria sentido se eu estivesse intercalando dois tipos diferentes de texto - um romance e uma biografia, por exemplo -, mas o que acontece está longe disso. Apenas um livro é de não-ficção, enquanto os demais diferem apenas no estilo de história. No fundo, acho que a segunda desculpa tem um certo fundo de verdade. Tenho sim muita vontade de conhecer diferentes histórias, explorar novos universos e, claro, conhecer o trabalho de muitos autores; porém, há de se concordar que dá para fazer tudo isso com uma dose de calma e paciência, certo? Acho que o que rola é aquele desespero de saber que há muita coisa boa para ser descoberta na literatura e que, por mais que tentemos, não iremos conseguir ler tudo o que existe para ler no mundo. A vida é curta, infelizmente.

Assim, tentamos nos contentar com aquilo que conseguimos ler e fazemos o possível para não esbarrar em livros ruins pelo caminho. E, claro, atropelamos as leituras. As atropelamos na esperança de que, agindo dessa forma, o desespero de saber que a vida é curta será amenizado, afinal de contas, estamos lendo o máximo que podemos em um curto espaço de tempo, certo? Bom, não sei em relação a vocês, mas para mim é errado. Por mais que eu tente me convencer que esse hábito deixa as minhas leituras mais dinâmicas, sei que não é bem assim que me sinto em relação a elas. Em uma das prateleiras do meu quarto, coloco os livros que estão em andamento e, ultimamente, quando olho para ela sinto um incômodo, porque 1) não era para ter tanta coisa lá e 2) estou gostando de todos os livros, então não sei qual deles escolher para ler antes de dormir. E, acreditem, isso é bem perturbador, porque perco uns bons minutos tentando escolher qual será a leitura da noite. Minutos que poderiam ser gastos com a leitura propriamente dita. Viram só? Não faz sentido algum. 

Ah, e acabei de me dar conta de que também estou lendo A Dança dos Dragões, de G.R.R. Martin. É, mais essa. E o livro é enorme. Acho que já deu para ter uma ideia do caos que anda a minha vida de leitora, né? Drama à parte, sei que não estou sozinha, então, se tiver alguém aí na mesma situação, sinta-se abraçado, ok? Não surte, vai dar tudo certo. E se alguém já passou por algo parecido, por favor, diga como foi que você fez para sair dessa situação ou para abandonar esse hábito? Sua ajuda será muito bem-vinda. Obrigada.


Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.