18 de julho de 2015

Os filhos de Anansi (Neil Gaiman)


Em Os filhos de Anansi – que não é uma continuação de Deuses Americanos, mas, talvez, algo como um spin-off -, somos apresentados à Fat Charlie Nancy, um sujeito bastante azarado e meio fracassado. Durante a infância, Fat Charlie se sentia constantemente humilhado por seu pai, Anansi, que o fazia passar pelas mais constrangedoras situações - que normalmente envolviam um jeito espalhafatoso de se vestir e apresentações de karaokê - e que o transformavam em motivo de piada entre os colegas de escola.

Quando o livro tem início, Fat Charlie – que abandonou os Estados Unidos e seu pai para morar na Inglaterra – vive de forma bastante medíocre, trabalhando para um indivíduo detestável em um escritório que odeia e planejando seu casamento com Rosie, cuja mãe o despreza com todas as forças do universo. Tudo começa a mudar quando Rosie lhe pede para convidar Anansi para o casamento e ele se vê obrigado a enfrentar o seu passado humilhante. 

Ao chegar aos EUA, Fat Charlie é informado de que seu pai está morto e também descobre que ele era, de fato, o deus africano Anansi. O motivo para Fat Charlie não ter poderes é porque estes haviam sido herdados apenas por seu irmão, Spider, cuja existência Fat Charlie ignorava completamente. Alguns dias depois, Spider visita Fat Charlie e transforma a sua vida em um completo caos que envolve magia, troca de identidade e seres mitológicos malignos e vingativos.

É complicado definir o tipo de história presente em Os filhos de Anansi, visto que há uma mistura de diferentes gêneros. Há elementos de fantasia, comédia, sobrenatural e, de acordo com o próprio autor, thriller. A narrativa é simples e flui muito bem, principalmente no início. Os títulos dos capítulos, além de divertidos, combinam com o tom da história, que está carregada do humor característico do texto de Neil Gaiman.

Meu problema com o livro se deve ao desenvolvimento do enredo e à construção bastante falha de mundo e personagens. Durante toda a leitura fiquei com a sensação de que algo estava faltando ao livro até que me dei conta de que se eu tivesse que fechar o livro e nunca descobrir o final, não lamentaria. O fato é que não senti absolutamente nenhuma identificação com nenhum dos personagens e isto é um problema enorme, porque se não gostei dos personagens e/ou não consigo acreditar que eles existem - ainda que seja em uma obra de ficção -, fica difícil manter o interesse pela história.

História esta que, por sua vez, poderia ter sido interessante não fosse a maneira como foi executada. A impressão que tive foi a de que Neil Gaiman teve uma ideia muito boa e que fazia todo o sentido do mundo na cabeça dele, porém, na hora em que ele foi passar para o papel, alguma coisa se perdeu e o resultado foi um livro frustrante, cheio de buracos. Senti falta de uma apresentação mais detalhada do mundo paralelo/fantasioso que ele apresenta, assim como dos elementos da lenda na qual ele se inspirou para criar a história. Em alguns momentos, o autor chega a fazer uso de certa metalinguagem ao utilizar a sua história para falar sobre a criação de histórias, mas no meio de toda a confusão do enredo mirabolante, esta parte ficou meio esquecida.

Dificilmente recomendaria este livro para alguém que nunca teve contato com o autor. Para estes, ainda acho que Lugar nenhum seja uma melhor porta de entrada. Aos que já conhecem o estilo de Neil Gaiman e ficaram na dúvida em relação a Os filhos de Anansi, sugiro que não se deixem levar apenas pela minha opinião e pesquisem outras resenhas antes de se decidirem se irão ler, porque faço parte de uma minoria que não gostou da leitura.

24 de junho de 2015

A última dança de Chaplin (Fabio Stassi)

Há alguns anos, quando comecei a me interessar por cinema e pelos filmes clássicos, a figura de Charles Chaplin se tornou algo com que eu acabava esbarrando de vez em quando. É inevitável, afinal, quando pensamos em História do Cinema, é primordial falar também sobre Chaplin e aquele que se tornou o seu personagem mais conhecido: o Vagabundo (que estrela em alguns dos principais títulos do ator, como O Garoto e Tempos Modernos).

Confesso que não tive, nem de longe, um vasto contado com o trabalho de Chaplin; ainda assim, o considero uma das mais inspiradoras personalidades de Hollywood. Por isso, quando soube do lançamento de A última dança de Chaplin, pela editora Intrínseca, fiquei bastante empolgada porque imaginei que seria uma leitura ótima para me apresentar de forma mais aprofundada a um dos maiores ícones do século XX. Contudo, me enganei, pois não estamos falando de uma biografia (o que é avisado na sinopse), mas sim de uma obra que mistura ficção com realidade, evidenciando o talento e o brilho de seu autor, Fabio Stassi.



Na véspera de natal de 1971, Charles Chaplin, então com 82 anos, recebe a visita da Morte. Ao recordar o que uma cartomante lhe disse anos antes, ele sabe que sua hora chegou, porém, não se sente pronto para deixar a vida e resolve fazer uma aposta com a velha: se ele a fizesse rir, ela deveria permitir que ele vivesse mais um ano. Assim, divertida pelo Vagabundo, a Morte cumpre a sua parte do acordo e promete voltar no próximo natal.

Chaplin, por sua vez, não sabe se conseguirá repetir a façanha, e põe-se a escrever uma carta a Christopher, seu filho mais jovem e que teme não poder ver crescer. Em seu texto, ele discorre a respeito de sua infância conturbada e carente na Londres do final do século XIX, sobre o período em que trabalhou em um circo, sobre a sua chegada aos Estados Unidos – e a série de empregos e aventuras que o país lhe proporcionou - e, claro, sobre a descoberta do cinematógrafo (que aqui não foi uma invenção dos Irmãos Lumière, mas de Arléquim, um homem negro que era responsável pelos animais de um circo). 

Por meio de uma narrativa bastante fluida e envolvente, Fabio Stassi conduz o leitor por aquilo que chamo de uma homenagem a Charles Chaplin. Mesclando elementos reais com a ficção, a história do Chaplin de Stassi – não tão diferente daquela do Chaplin original - é marcada por altos e baixos, frustrações e descobertas. É uma história sobre alguém que procura a sua verdadeira vocação, o seu lugar no mundo e a realização de seus sonhos. 

O livro é dividido em cinco partes (no caso, cinco rolos) que compõe a carta de Chaplin, cada uma delas sendo precedida por uma noite de natal em que a Morte vem fazer a sua visita. Estes trechos são escritos como se fossem roteiros, com os nomes dos personagens indicados antes de suas falas e uma explicação da cena a ser apresentada. Em uma nota, Fabio Stassi explica que sua intenção era escrever uma obra com um andamento musical, dividida em quatro atos; não compreendi muito bem como isso funcionou, porém esta explicação faz com que o título tenha sentido. Também percebi que o autor fez sutis referências aos trabalhos de Chaplin, fazendo seu protagonista passar por situações semelhantes àquelas vividas pelo Vagabundo nos filmes. 

De uma forma geral, a leitura de A última dança de Chaplin foi prazerosa. Passado o momento em que percebi que não estava lendo uma biografia, consegui me prender à história, ficando curiosa a respeito do que viria e me surpreendendo com o belíssimo desfecho. Tenho a sensação de que teria aproveitado melhor se tivesse maior conhecimento da história de vida de Charles Chaplin e/ou de seus filmes.

22 de maio de 2015

A casa assombrada (John Boyne)


Londres, Inglaterra, 1867. 

Eliza Caine é uma jovem professora que culpa Charles Dickens pela morte de seu pai e, consequentemente, por torná-la uma pessoa sozinha no mundo. Afinal, foi após a decisão de sair de casa em uma noite chuvosa e fria para assistir a uma leitura que Dickens faria na galeria Knightsbridge, que seu pai, um entomologista fascinado pela obra do famoso romancista, ficou ainda mais doente e faleceu. 

Sozinha e sem condições de pagar o aluguel da confortável casa em que vivia com o pai, Eliza responde a um misterioso anúncio em um jornal e se torna a nova governanta de Gaudlin Hall, propriedade localizada no condado de Norfolk. Ao chegar à mansão, ela nota, ao ser recebida pelas crianças das quais deverá cuidar, que há algo de estranho no local. Isabella se comporta de maneira muito formal e séria para uma garota de 12 anos e Eustace parece assustado; ambos escondem algo. E, aparentemente, não há nenhum adulto na casa. 

Sem muitas informações sobre quem fez o anúncio, ou sobre as crianças, Eliza resolve fazer perguntas às pessoas que vivem na região, mas todos se mostram bastante incomodados com a menção do nome Gaudlin Hall, se tornam frios e se distanciam. De volta à mansão, uma série de acontecimentos inexplicáveis se apresenta a ela: janelas impossíveis de serem abertas, cortinas que se movem sozinhas, uma estranha sensação de estar sendo observada. E seu desespero aumenta quando descobre que é a sexta governanta que a propriedade teve em menos de um ano. 

De uma forma geral, gostei da leitura de A casa assombrada. O terror em si não foi o que mais me impressionou – tendo em vista que já li outros livros do gênero -, mas sim a forma como John Boyne conduz a história, com a criação de mistérios e a constante atmosfera de suspense. Durante a leitura fiquei o tempo todo com a sensação de que algo estava prestes a acontecer.

A narrativa, envolvente e fluida, é feita em primeira pessoa pela própria Eliza Caine, que com suas impressões dos acontecimentos faz com que o leitor se sinta inserido na história. Gostei de como ela se mostra determinada a entender o que está acontecendo e não se importa com até onde tenha que ir para chegar à verdade (mesmo que tenha que ferir a etiqueta e “se intrometer” na vida alheia). Mesmo que as pessoas fujam de suas perguntas e mudem de assunto, ela sabe que precisa proteger as crianças e não quer ter o mesmo destino das governantas anteriores. 

Além da clara referência a Charles Dickens, o livro me fez pensar em outros dois romances do século XIX. O enredo me lembrou bastante o de A outra volta do parafuso, de Henry James, tanto pelo fato de que ambos trazem governantas como as protagonistas e narradoras, quanto pelo fato de que as mansões em que as histórias acontecem parecem ser habitadas por espíritos. Acredito que a semelhança com o clássico de Henry James seja intencional. Em alguns trechos, a história também me fez pensar em Jane Eyre, de Charlotte Brontë; não tanto pelo enredo, mas pelo elemento casa-antiga-que-guarda-um-segredo. 

Por ser ambientado no século XIX e narrado por uma mulher, o livro apresenta ao leitor um pouco de como era a realidade feminina daquela época, quando uma jovem de 21 anos podia trabalhar, mas o ideal mesmo era ter um marido. Eliza nunca se preocupou com namorados e, depois de terminar os estudos, se tornou professora. Em vários momentos ela é indagada por outras mulheres a respeito de casamento e se ela não pensa em ter filhos, apesar de não ser tão atraente. Mesmo constrangida com as perguntas, ela se mantém firme em sua decisão de ser independente, mesmo que isso desagrade algumas pessoas ao seu redor. Gosto do fato de a protagonista pensar de forma à frente de seu tempo.

No que diz respeito ao desenvolvimento da história, não vou mentir: achei bastante previsível. E talvez isso tenha acontecido justamente por já ter lido a obra de Henry James. Porém, vale a pena mencionar que as duas histórias trazem desfechos diferentes. Enquanto acho o final de A outra volta do parafuso muito bom, o mesmo não posso dizer do que ocorre nos últimos capítulos do livro de John Boyne. Achei tudo muito absurdo e, ouso dizer, mirabolante. Ainda assim, não acho que o final tenha ofuscado a obra como um todo. O livro é bem escrito e sua experiência de leitura é agradável, pois prende a atenção do leitor. Recomendo principalmente para dias frios.

24 de abril de 2015

O Livro Selvagem (Juan Villoro)



Quando tinha 13 anos Juan teve que lidar com uma situação difícil e dolorosa: seus pais se divorciaram. Perdido, assistindo ao sofrimento de sua mãe, sem saber como agir e com raiva do pai, o garoto é enviado para a casa de um tio – na verdade, um primo distante de sua mãe -, onde deverá permanecer durante as suas férias de verão.

Tio Tito é um cara solitário que mora em uma casa antiga, enorme e cheia de cômodos. Ah, e ele tem uma obcessão peculiar: livros. Sua residência é, na verdade, uma grande biblioteca, pois em cada canto – na cozinha, na sala, nos quartos, nos banheiros, nas escadas, etc. – é possível encontrar livros. E a coleção trata dos mais diversos temas, que vão desde “os dentes das avós” até “como governar sem ser presidente”. Contrariado, Juan demora a se adaptar à vida na casa do tio Tito, achando-o um tanto excêntrico e estranhando seus hábitos, como beber chá de cachimbo incessantemente e desprezar qualquer tipo de barulho que interrompa suas experiências de leitura, o que o impede de ter um telefone em casa, por exemplo.

Aos poucos, o garoto começa a compreender a dinâmica da casa e se aventura pelas estantes, mesmo sem gostar de ler, à procura de algum livro que possa lhe interessar. Dividindo o seu tempo entre a leitura e fazer companhia para o tio, Juan recebe deste a missão de encontrar O livro selvagem, um livro misterioso, que não se permite ser lido e que está escondido na biblioteca. Para isso, ele irá contar com a ajuda de Catalina, uma garota que trabalha na farmácia da esquina e que compartilha com Juan a recém descoberta paixão pelos livros. 


Falando de forma direta: amei O livro selvagem, que acredito ser uma das melhores leituras que farei em 2015. Juan Villoro conseguiu, em poucas páginas, apresentar uma história cativante, envolvente e capaz de fazer o leitor sorrir a cada virada de página. A leitura me proporcionou sensações semelhantes às que tive quando conheci dois dos meus livros preferidos: A história sem fim, de Michael Ende, e A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón.

A narrativa – feita em primeira pessoa por Juan (o personagem) – é simples, fluida e bastante divertida. Por meio dos diálogos entre o protagonista com tio Tito, o autor aproveita para fazer referências e citar autores e livros conhecidos, como Julio Cortazar, A metamorfose, de Franz Kafka e Moby Dick, de Herman Melville. É também através destas conversas que Villoro tenta mostrar a importância e o poder dos livros para a vida de seus leitores.

Ao longo de toda a leitura é possível deparar com uma metáfora belíssima, em que o autor compara livros com remédios e livrarias/bibliotecas com farmácias. De acordo com tio Tito, pessoas doentes vão à farmácia procurando algum medicamento que as faça se sentirem melhor e o mesmo procedimento pode ser aplicado a uma visita a uma livraria ou biblioteca. As pessoas buscam livros que as deixem bem, dizendo aquilo que precisam escutar naquele exato momento. 

O enredo conta também, ainda que de forma sutil, com alguns elementos de fantasia que só o tornam ainda mais interessante. A biblioteca de tio Tito, por exemplo, traz livros que se movimentam quando ninguém os observa, mudando de lugar quando querem ser lidos ou não, podendo também escolher o leitor. Catalina, quando lê uma história, pode transformá-la em algo muito melhor. E há o livro selvagem, que se esconde nas sombras da biblioteca, pois não quer que ninguém o leia.
"Nada tem tanto caráter quanto um livro. Uma biblioteca é um 'almário': uma coleção de almas, sobrinho. Os livros se locomovem como as almas nos cemitérios, para se aproximar ou fugir de alguém". (p.35)

"(...) Há duas maneiras de um livro chegar até você: a normal e a secreta. A normal é aquela em que você o compra, ou alguém lhe dá ou empresta. Já a secreta é muito mais importante: nesse caso, é o livro que escolhe seu leitor. Às vezes, as duas maneiras se confundem. Você acha que decidiu comprar um determinado livro, mas na verdade foi ele que se colocou ali para que você o enxergasse e se sentisse atraído." (p. 37)

Quando faltavam poucas páginas para a conclusão do livro – que tem apenas 192 páginas, vejam só! -, fiquei triste porque não queria que a história chegasse ao fim. Ao mesmo tempo em que fiquei encantada com o universo da biblioteca do tio Tito, não pude deixar de me afeiçoar também aos personagens e acompanhar o desenvolvimento de suas histórias enquanto procuravam o livro misterioso. Gosto muito da forma como o autor foi construindo a relação entre Juan e o tio Tito e de como a literatura e o amor pelos livros se relaciona com tudo isso.

Acho difícil que um leitor apaixonado se sinta de forma diferente, pois O livro selvagem cativa o leitor, que se identifica com Juan descobrindo o mundo da leitura e o poder que os livros têm de nos tocar, nos ajudar e nos transformar. Por isso, a leitura é mais que recomendada; ainda que o livro seja direcionado à um público juvenil, a história é atraente para adultos também.

"Todo livro está adormecido até que um leitor o acorde. Dentro dele vive a sombra da pessoa que o escreveu". (p. 164)

17 de abril de 2015

Sobre expectativas | Vida de Leitora #12

Hoje vamos conversar sobre expectativas, as grandes culpadas por - na maioria das vezes - não gostarmos de uma leitura, ou gostarmos mais do que esperávamos. Penso que muitas de nossas impressões em relação a um livro dependem muito do que pensávamos ou esperávamos deles antes da leitura; e estes fatores estão relacionados à expectativa.

Recentemente, li o bastante comentado Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Confesso que logo que o livro foi lançado não tive interesse em lê-lo, porém, minha curiosidade surgiu e cresceu muito conforme eu lia ou assistia as impressões de muita gente que acompanho. A opinião que me pareceu geral é a de que o livro é maravilhoso e provavelmente se transformará em um clássico contemporâneo. Assim, concluí que a leitura seria, no mínimo, interessante e resolvi encarar suas mais de 500 páginas.

Gostei? Sim, mas não tanto quanto imaginei gostar. Tive alguns problemas com a leitura e com a escrita da autora que não convém mencionar no momento. A questão é que meu interesse pela leitura de Americanah surgiu depois de ver as opiniões de outras pessoas e por alguma razão inexplicável aceitei sem margem para erro que o livro é uma obra-prima da literatura contemporânea, sem defeitos, a definição da perfeição. E, obviamente, me frustrei, porque não achei nada disso do livro da Chimamanda. Isso quer dizer que os outros leitores estavam mentindo ao dizerem que o livro é bom? 
Claro que não, estavam apenas expressando as opiniões deles, oras. Errada fui eu que, a partir destas opiniões, passei a enxergar o livro como algo de outro mundo sem sequer ter lido uma página do mesmo, entendem?

Não estou dizendo que é errado esperar algo de uma leitura ou levar em consideração a opinião de outros leitores. Mas prefiro acreditar que, inicialmente, um livro é apenas um livro que poderá, ou não, me agradar; e esta decisão deve ser feita tendo como base apenas a minha experiência com a leitura, sem interferências externas resultantes de expectativas.

Quando leio um livro e não gosto de alguns aspectos, fico incomodada, mas aceito razoavelmente bem os problemas. Porém, quando decido acreditar que a leitura é a nova obra-prima do mundo e encontro nesta algum “defeito”, fico extremamente irritada, me sinto enganada e revoltada. E isso não faz sentido algum, porque ninguém pode garantir com 100% de certeza que qualquer livro publicado é a melhor coisa que já foi escrita. E vale lembrar que o que é bom para mim, pode não ser bom para outra pessoa, certo? Logo, é realmente impossível afirmar de forma objetiva que um livro é horrível ou incrível, porque é tudo uma questão de perspectiva.

Sabendo de tudo isso, evito ao máximo me deixar influenciar por resenhas, sejam estas positivas ou negativas, a respeito de um livro que tenho interesse em ler. Porém, confesso que esta é uma missão difícil quando se trata de um livro bastante popular e comentado, porque sempre sou levada a crer que as páginas em questão irão me encantar ou decepcionar. Porque, sim, há também a possibilidade de as expectativas serem negativas; mas neste caso, acho que a experiência de leitura não é tão afetada e o resultado é agradável. Ano passado, quando comecei a ler Mentirosos, de E. Lockhart, já havia visto tantas opiniões sobre o livro que estava esperando me decepcionar e me culpar por ter perdido tempo com um livro ruim. No entanto, o que aconteceu foi justamente o oposto e me surpreendi.

Ou seja, expectativas podem ajudar ou atrapalhar muito. Ainda assim, prefiro que elas não existam. Prefiro me entregar a uma leitura sem esperar nada – nada mesmo, nem bom e nem ruim – e deixar que a história e a narrativa me mostrem se fiz uma boa escolha ou se apenas perdi o meu tempo. É difícil agir dessa forma e, como ficou claro pelo primeiro exemplo, nem sempre dá certo; mas, quando funciona, é ótimo e me poupa do estresse que é terminar um calhamaço com um sentimento de frustração. Digo isso porque se não tivesse esperado muito de Americanah, poderia até ter gostado mais dele.

Assim, meu conselho como leitora para vocês, também leitores é: não criem expectativas, nunca. 

Texto publicado originalmente na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.