5 de agosto de 2018

Power Ballads: uma playlist de rock para dias de angústia e melancolia

Tenho muito carinho pelas power ballads, um gênero bastante sentimental e que acho que merecia ser analisado com mais atenção. Aos não muito familiarizados com o termo, eis aqui uma breve explicação: as power ballads são aquelas músicas mais lentas e cheias de emoção das bandas de hard rock / glam metal que fizeram bastante sucesso principalmente na década de 1980. Não sei explicar muito bem o que me atrai nelas, mas muito me fascina a união de letras intensas e bregas, belos arranjos de guitarra e vocais dramáticos de vocalistas trabalhados na estética farofenta da época. Couro, botas, lenços e bandanas, cabelos longos calculadamente volumosos e cheios de laquê, gelo seco e gritos, muitos gritos. Tudo bem espalhafatoso mesmo, pois o importante é impactar.

Se a sonoridade regular das bandas pende mais para o lado tiro-soco-porrada do rock, evocando bastante agressividade, a mesma intensidade se mantém quando o tema é o famigerado coração partido ou a angustiante crise existencial. Se a raiva é retratada com berros e distorções, a dor se apresenta de forma semelhante, porém por meio de ritmos mais lentos, melodias mais tristes e tons melancólicos. E os gritos são um show à parte, já que ninguém é capaz de sofrer como o roqueiro dos anos 1980 que se depara com a desilusão. Ainda que um tanto ~rústica~, a poesia de suas letras, com metáforas sobre espinhos e menções à cartas de amor na areia, também contribui para esse efeito e mostra que dentro de cada marmanjo bate um coração, e esse coração sente dor e sangra.

A estética dos clipes, por outro lado, é quase sempre bastante questionável e grotesca, e só deve fazer sentido dentro do contexto em que foram concebidas. Praticamente todos envolvem elementos aleatórios e que pouco têm a ver com a ideia geral das músicas, como imagens da banda em shows ou bastidores e mulheres dançando com roupas esvoaçantes ou apenas em poses sensuais de loungerie. Com sorte, contam alguma historinha para acompanhar a música, mas mesmo nesses casos, não estão imunes aos já citados aspectos aleatórios.

Ignorando estes fatores, e pensando no sentimentalismo, decidi reunir vinte e seis power ballads em uma lista. Assim, sem mais delongas, senhoras e senhores, peguem seus fones de ouvido e uma caixinha de lenços, segurem na minha mão e apertem o play.


#01 Hysteria - Def Leppard
#02 Every Rose Has Its Thorn - Poison
#03 I Remember You - Skid Row
#04 Don't Cry - Guns N' Roses
#05 Still Loving You - Scorpions
#06 I Still Think About You - Danger Danger
#07 Is This Love - Whitesnake
#08 Love Walked In - Thunder
#09 Alone Again - Dokken
#10 I Want To Know What Love Is - Foreigner
#11 Just Take My Heart - Mr. Big
#12 Send Me An Angel - Scorpions
#13 Dust In The Wind - Kansas
#14 Bed of Roses - Bon Jovi
#15 November Rain - Guns N' Roses
#16 Quicksand Jesus - Skid Row
#17 Here I Go Again - Whitesnake
#18 Angel - Aerosmith
#19 Looking For Love - Whitesnake
#20 To Be With You - Mr. Big
#21 Angel - Judas Priest
#22 Nothing Else Matters - Metallica
#23 Wind of Change - Scorpions
#24 Patience - Guns N' Roses
#25 Dream On - Aerosmith
#26 Mama, I'm Coming Home - Ozzy Osbourne


31 de julho de 2018

Letra & Música: As Garotas

Já faz quase um mês desde que concluí a leitura de As Garotas, de Emma Cline, porém sinto como se tivesse me despedido ontem. A minha experiência com o livro foi tão imersiva que ao longo de semanas me sentia meio deslocada da realidade, tentando conciliar os pensamentos do mundo real com todas as sensações proporcionadas pela história. As Garotas é um livro que consegue ser suave e tenso ao mesmo tempo, envolvendo o leitor em uma atmosfera muito particular. Ao virar as páginas, era como se estivesse assistindo a um filme com fotografia meio onírica. 

Fortemente inspirado no culto de Charles Manson, o livro tem início no tempo presente e nos apresenta à Evie Boyd, que narra os acontecimentos de sua adolescência durante o verão de 1969, nos Estados Unidos. Após o divórcio dos pais e um desentendimento com uma amiga, Evie acaba conhecendo um grupo de garotas que lhe despertam fascínio e com as quais passa a conviver. Elas fazem parte de um culto e desde o início, o leitor já sabe que a história não irá acabar bem. Durante toda a leitura, é possível sentir um misto de angústia e melancolia e o que prevalece é uma sensação de perda. A perda do tempo. A perda do que foi. A perda do que poderia ter sido.

Como a leitura foi uma experiência bastante visual, não demorou muito para que o meu cérebro começasse a associar os elementos deste sentido com outros, criando cenas e adicionando trilhas sonoras. Logo percebi que a estética do livro combina muito com a da Lana Del Rey, uma das minhas cantoras preferidas. Não só porque os vídeos de suas músicas costumam trazer a tal da fotografia onírica que mencionei no início do texto, mas também porque algumas de suas letras também tocam em temas que me remetem ao livro de Emma Cline. Assim, quando decidi trazer esta coluna de volta, sabia que teria que escolher uma das músicas de Lana e, por fim, acabei me decidindo: Gods & Monsters, do disco Born To Die: Paradise Edition, de 2012.

Na letra, o eu-lírico poderia ser Evie Boyd falando de seu passado, da sua experiência com o culto, de Suzanne, dos possíveis rumos que sua vida poderia ter seguido. Lana faz menção à uma terra de deuses e monstros e é possível imaginar o culto como este lugar, onde Evie, ainda cega por sua inocência, não é capaz de enxergar a real e monstruosa natureza de quem ali está e, por conta disso, os coloca em uma posição superior. É uma música sobre sentir um alerta, mas mesmo assim embarcar no perigo. Sobre perda da inocência, mas não necessariamente a perda de si.


24 de julho de 2018

Sobre reavaliar e abandonar metas de leitura | Vida de Leitora #14


Já estamos quase em agosto e não posso mais adiar: é uma verdade universalmente desconhecida que esta que vos escreve é incapaz de cumprir promessas literárias dentro de um prazo determinado. É disso mesmo que estou falando, do abandono das metas literárias estabelecidas no início do ano. Para ser justa e coerente, este é um comportamento que apresento todos os anos desde 2013, quando comecei a registrar a minha vida literária na internet e, consequentemente, me jogar em todo e qualquer desafio proposto durante os quentes e ensolarados dias de verão, quando tudo parece possível.

Contudo, com o passar das semanas, a chegada do frio e dos perrengues da vida, é inevitável que eu olhe para trás, para as promessas que fiz ao observar a minha estante, e perceba que uma reavaliação é necessária. Normalmente, sou bem sucinta: é, eu estava louca quando decidi ler esses livros e, obviamente, não vai dar mais tempo, então segue o baile, o importante é ser feliz #YOLO. Em 2018 não farei diferente. Como sei que jamais seria capaz de me forçar a ler algo que não queira unicamente pelo (des)prazer da leitura, resolvi que sim, alguns livros irão permanecer na estante por mais alguns meses ou anos e não há nada que eu possa fazer a respeito disso. Quando tiver que ser, será.

Não vou mentir, rola sim uma pequena frustração por abandonar desafios. Principalmente os mais simples, como seguir uma lista de leituras que despertam o meu interesse há anos e que eu tenho certeza de que irei amar conhecê-los. Mas a verdade, no momento, é a de que a minha realidade de leitura vem sofrendo alterações há dois anos e, por mais que eu continue apaixonada por literatura, pelos livros e pelo hábito de leitura, preciso me desprender da ilusão de que dou à eles o mesmo espaço que costumava dar. Pois não dou e não acho que isso vá mudar tão cedo. E tudo bem. Não sou mais ou menos leitora por isso, certo?

A pessoa que eu era em 2013 é bem diferente de quem sou em 2018 e isso é ótimo, a vida é assim mesmo. A gente muda, nossas responsabilidades mudam, assim como nossas prioridades e nossos interesses. Hoje a literatura, ainda que ocupe um lugar de destaque na minha vida, não é para onde direciono o foco na maior parte do tempo e, mesmo que isso me frustre um pouco, também me liberta. Depois de cinco anos tentando, sinto que já tenho conhecimento sobre mim o suficiente para concluir que não sou uma pessoa de metas literárias. É isso, não sou mais uma pessoa que lê todos os dias e, realmente, não sou uma pessoa que segue à risca as metas impostas no início do ano. Nunca fui e, provavelmente, nunca serei. E tudo bem.

O importante é sempre lembrar que a leitura deve ser sempre uma atividade que me traz alegria - além de mais um monte de outras coisas positivas - e para que isso aconteça, preciso também me lembrar de respeitar o meu momento de leitora e, principalmente, de escutar as minhas vontades literárias. Preciso parar de complicar aquilo que não está aqui para ser complicado.

Em janeiro, publiquei no YouTube um vídeo mostrando os livros que gostaria de ler em 2018. Até o momento, li apenas dois (Memórias da Princesa - Os diários de Carrie Fisher e As Garotas). Outros dois foram abandonados (Momo e A Redoma de Vidro), pois apesar de interessantes, certamente não estavam me agradando o suficiente para que eu persistisse na leitura. O que não quer dizer que não possa vir a amar essas histórias no futuro, quando sentir que está na hora de tentar mais uma vez. Mal posso esperar. E até lá, lerei aquilo que sentir vontade ou aqueles livros que me chamarem.  

10 de junho de 2018

1001 LIVROS PARA LER ANTES DE MORRER: o início OFICIAL de um projeto de leitura + livros que já li (parte 1)

Depois de algum tempo amadurecendo a ideia, decidi finalmente trazer para o blog de forma oficial um projeto de leitura que me acompanha há muitos anos: 1001 livros para ler antes de morrer.

Ilustração criada pelo ChatGPT.

Esse não é um projeto inédito, quem acompanha a comunidade de leitores na internet com certeza já deve ter visto várias pessoas se aventurando por essa lista, cada uma à sua maneira. No meu caso, essa jornada começou de forma não oficial lá em 2014, quando comprei o livro que reúne essa seleção. Desde então, venho lendo alguns desses títulos aos poucos, sem método rígido, quase como quem vai sendo puxada pelos livros no momento certo.

O que me motivou a oficializar o projeto agora foi, principalmente, a vontade de revisitar essa lista com mais intenção. Muitos desses livros já estão na minha estante — alguns, inclusive, eu tenho vontade de reler. Então resolvi marcar esse recomeço com um primeiro post, reunindo também todas as leituras do projeto que já realizei desde que comecei a compartilhar as minhas leituras na internet

📚 Razão e Sensibilidade (Jane Austen)
A primeira leitura da lista que quero destacar é Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Li o livro em 2015, durante meu projeto pessoal de leitura das obras da autora (projeto que, confesso, ainda preciso retomar). Até agora, este é o romance da Jane de que mais gostei. A história acompanha duas irmãs lidando com a perda da herança após a morte do pai, a mudança para uma cidade menor e o deslocamento social que isso provoca. A partir daí, surgem reflexões sobre relacionamentos, casamento e as possibilidades de vida para mulheres no século XIX. É um romance que me marcou muito e que recomendo com carinho.

📚 Frankenstein (Mary Shelley)
Outro clássico fundamental dessa lista é Frankenstein, de Mary Shelley. Considerado o marco inicial da ficção científica, é um livro que me marcou profundamente. Embora tenha chegado a um ponto de exaustão durante a leitura, é uma história que permanece comigo até hoje. A narrativa acompanha Victor Frankenstein e as consequências devastadoras de sua decisão de “brincar de Deus”. Com sua estrutura epistolar e seus múltiplos níveis de relato, o livro influenciou profundamente o terror e a ficção científica como conhecemos, e ainda ecoa fortemente na cultura pop contemporânea.

📚 Jane Eyre (Charlotte Brontë)
Jane Eyre, de Charlotte Brontë, ocupa um lugar especial na minha trajetória de leitora. Foi esse livro que me fez querer criar um canal no YouTube para conversar com outros leitores. Acompanhar a vida de Jane, da infância difícil à vida adulta, é uma experiência intensa e inspiradora. O romance mistura elementos góticos, mistério, suspense e uma história de amor complexa, tudo conduzido por uma protagonista extremamente forte. É um dos clássicos que, sem dúvida, pretendo reler no futuro.

📚 Alice (Lewis Carroll)
Na mesma lista aparecem As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Lewis Carroll. A edição em que li reúne os dois livros, ambos clássicos da literatura inglesa e mundial. Embora muita gente conheça a história pelas adaptações, especialmente da Disney, o contato com o texto original é uma experiência única. Através do Espelho, em especial, foi uma descoberta deliciosa para mim, já que eu não conhecia tão bem essa parte da história.

📚 A Máquina do Tempo (H.G. Wells)
Ainda no campo da ficção científica, A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, foi uma das melhores leituras que fiz em 2014. É um dos meus livros favoritos do gênero, talvez por tratar de viagem no tempo — um tema que sempre me fascinou. Mesmo escrito no século XIX, o livro continua extremamente atual, com uma mensagem final poderosa e inquietante. A leitura é envolvente, rápida e cheia de suspense.

📚 O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerad)
Chegando ao século XX, O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, foi uma das minhas primeiras leituras comentadas no canal, em 2013. Até hoje é um dos meus livros preferidos. Com personagens moralmente questionáveis e uma atmosfera marcada por festas, excessos e vazio existencial, o romance retrata de forma brilhante a Nova York da década de 1920. Desde então, fico ensaiando a leitura de outros livros do autor — algo que certamente acontecerá ao longo deste projeto.

📚 Capitães da Areia (Jorge Amado)
O único livro nacional que li da lista até agora foi Capitães da Areia, de Jorge Amado. Meu primeiro contato com o autor aconteceu apenas em 2016, e fico muito feliz que não tenha sido durante a época da escola. O livro retrata a vida de meninos em situação de rua em Salvador, com uma delicadeza surpreendente. Apesar da dureza da realidade apresentada, há momentos de ternura quase lúdica, que me lembraram, em certos pontos, os “garotos perdidos” de Peter Pan. É uma leitura dolorosa, mas necessária.
💻 Post sobre o livro (em breve)

📚 Senhor das Moscas (William Golding)
Também em 2016 li Senhor das Moscas, de William Golding. Não foi uma leitura prazerosa, no sentido convencional, mas foi extremamente significativa. A história acompanha um grupo de crianças tentando se organizar em uma ilha deserta após um acidente de avião, e levanta reflexões profundas sobre natureza humana, sociedade, leis e moralidade. É um livro difícil, mas importante — e que sempre recomendo, mesmo sem ter gostado exatamente do processo de leitura.
💻 Post sobre o livro (em breve)

📚 O Sol é para Todos (Harper Lee)
O Sol é para Todos, de Harper Lee, foi uma das leituras mais tocantes que fiz em 2015. Narrado pela perspectiva da pequena Scout, o livro aborda o racismo de forma sensível e poderosa. Atticus Finch, seu pai, é um dos personagens mais íntegros da literatura, e sua defesa de um homem negro acusado injustamente é o centro moral da história. Mesmo tendo lido já adulta, o impacto foi enorme.

📚 Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)
Outro clássico da ficção científica é Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, obra que deu origem ao filme Blade Runner. Apesar de retratar um futuro aparentemente distante, o livro levanta questões muito próximas da nossa realidade: o que nos torna humanos? Onde termina a empatia e começa a mecanização da vida? É uma leitura inquietante e bastante atual.

📚 As virgens suicidas (Jeffrey Eugenides)
Por fim, um dos livros que mais me marcaram emocionalmente foi As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides. Foi minha leitura favorita de 2014 e o único livro da lista escrito na década de 1990. A história, narrada por meninos que observam à distância a vida de cinco irmãs, carrega uma atmosfera melancólica e onírica. Mesmo sabendo desde o início o desfecho trágico, o livro envolve profundamente e permanece com o leitor por muito tempo.

Além das leituras comentadas acima, também acrescentei à página do desafio os livros que li antes de ter blog, assim como os títulos que já tenho na estante e que pretendo ler/reler. Lembrando sempre que o projeto funciona mais como um incentivo para que eu mantenha um hábito de leitura do que como fonte de pressão. A ideia é ler sem seguir uma ordem rígida, guiada mais pela curiosidade em relação aos livros do que qualquer cronograma. O importante é ler, descobrir e se deixar transformar pelas histórias.

7 de maio de 2018

CONTO: A aventura do Estrela do Ocidente (Agatha Christie)


Publicado em 1924, A aventura do Estrela do Ociente é o conto que abre a coletânea Poirot Investiga. Narrada pelo Capitão Hastings, a história tem início quando Hercule Poirot é procurado por Mary Marvell, uma famosa atriz de cinema norte-americana que está visitando a Inglaterra com seu marido, também ator, Gregory Rolf. O motivo da visita são três cartas misteriosas que a atriz recebeu de um intrigante homem chinês e que, ao que tudo indica, se referem ao seu famoso diamante Estrela do Ocidente. O teor das cartas sugerem um possível roubo da joia nos próximos dias e a atriz, preocupada, precisa do auxílio do perspicaz detetive belga.

Poirot, pronto para ajudar, sugere que a joia fique sob a sua guarda até que a ameaça seja eliminada, porém, Mary Marvell não concorda. O casal pretende comparecer à mansão de Lord e Lady Yardly com o intuito de negociar a utilização da propriedade como cenário de um filme e Mary faz questão de exibir seu diamante na ocasião. Já que não conseguem chegar à um consenso, Poirot decide abandonar a investigação. Horas mais tarde, na ausência de Poirot, Hastings recebe Lady Yardly, que lhe conta que recebeu três cartas misteriosas nos últimos dias em circunstâncias semelhantes às vividas por Mary, também sugerindo o roubo de uma joia. Assim, após a partida da mulher e a chegada de Poirot, Hastings explica tudo o que aconteceu e, intrigado, o detetive resolve solucionar o caso apenas para a sua própria satisfação.

O primeiro aspecto que chamou a minha atenção após a leitura do conto é que aqui, diferente do que acontece na maioria das histórias de Agatha Christie, o mistério não gira em torno de um assassinato e da necessidade de descobrir a identidade do assassino. O foco está em proteger as joias. O interessante, talvez por ser uma história menor, é que quase não dá tempo de começar a especular e, muito menos, de entender o que está acontecendo. E esta última característica me fez questionar se, mais uma vez, não estava sendo "atrapalhada" pelo bobalhão do Hastings.

Tenho a sensação de que Hastings serve ao propósito de confundir o leitor e, com isso, fazer com que as grandes revelações feitas por Poirot tenham um peso ainda maior. Contudo, neste conto específico, o leitor fica realmente às cegas, já que em nenhum momento conseguimos acompanhar a linha de raciocínio do detetive - coisa que conseguimos perceber levemente em diálogos travados entre Poirot e Hastings nos romances anteriores - e, em contrapartida, somos entregues aos pitacos vergonhosos do capitão. Em sua defesa, deve ser difícil conviver com Poirot, cheio de métodos e reservas até o momento do desfecho. Quanto à solução, ainda que tenha sido satisfatória, fiquei com a impressão de que algumas explicações surgiram magicamente, pois não consegui acompanhar o processo investigativo realizado pelas células cinzentas de Poirot.

É um conto divertido - é sério, eu realmente dei gargalhada depois de ler alguns comentários do Hastings -, com uma narrativa fluida e envolvente. Dá para ler bem rapidinho, durante uma pausa para beber um café e comer um pedaço de chocolate.

Quando meu amigo voltou, tive o maior prazer em relatar-lhe o que acontecera durante a sua ausência. (...) Percebi que não estava muito satisfeito por não estar presente. Mas imaginei que era apenas um acesso de ciúme. Poirot sistematicamente subestima minha capacidade e calculei que se estava sentindo triste por não encontrar qualquer falha. Fiquei secretamente satisfeito comigo mesmo, embora procurasse disfarçar com receio de irritá-lo. (P. 14)