30 de janeiro de 2015

O garoto no convés (John Boyne)



Em O garoto no convés, John Boyne entrega ao leitor um romance histórico e de formação, trazendo a história de John Jacob Turnstile, um rapaz que terá a sua vida transformada após integrar a tripulação do famoso navio HMS Bounty.

O HMS Bounty foi um navio na Marinha Inglesa do século XVIII comandado pelo tenente William Bligh e que tinha como missão uma viagem até o Taiti para buscar um carregamento de mudas de fruta-pão. As mudas seriam plantadas na Jamaica e serviriam como alimentação boa e barata para os escravos. Porém, em abril de 1789, o Bounty serviu de palco para um motim, no qual o imediato do capitão/tenente do navio, Fletcher Christian, tomou o comando da embarcação, deixando William Bligh e os tripulantes que não concordaram com os amotinados à deriva em uma pequena barca no oceano Pacífico. Surpreendentemente, após uma série de dificuldades, os homens abandonados conseguiram sobreviver e retornar à Inglaterra.

No romance de John Boyne, que utiliza a história do motim do Bounty como enredo principal, o leitor é apresentado ao órfão de 14 anos John Jacob Turnstile que, após sofrer muitos abusos no orfanato em que vivia e realizar roubos pelas ruas de Portsmouth, é condenado a muitos anos de prisão. Porém, a vítima de seu último delito propõe que a pena seja cumprida de outra forma: John Jacob deveria embarcar na próxima missão do HMS Bounty e se tornar o novo criado do capitão William Bligh. Não muito empolgado com a sugestão, mas decidido a não ir para a cadeia, John Jacob aceita a proposta e terá a sua vida mudada.

A partir da visão do adolescente, o leitor tem acesso ao universo do Bounty - marcado pela hierarquia da tripulação e os costumes e superstições dos homens do mar - à estadia dos marujos no Taiti e ao fatídico dia em abril de 1789 quando a embarcação e seus tripulantes entraram para a história e se transformaram em inspiração para muitas obras de aventuras marítimas na literatura e no cinema.


Desde que ouvi falar em John Boyne e resolvi pesquisar sobre seus livros, "O garoto no convés" foi o primeiro a atrair a minha atenção, porém o quarto trabalho do autor com que eu tive contato. Devo confessar que, apesar de ter gostado muito da leitura, a experiência foi um pouco exaustiva em alguns momentos.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio John Jacob Turnstile, porém anos depois de suas aventuras à bordo do Bounty, o livro é dividido em cinco partes - duas das quais ambientadas completamente em alto mar - que acompanham os acontecimentos desde a prisão do protagonista, passando por sua viagem até o Taiti e o motim até, finalmente, o retorno à Inglaterra. Logo nas primeiras linhas o leitor já consegue ter uma ideia do tom marcado por humor e ironia que será utilizado por Turnstile ao contar a sua história, o que torna o personagem bastante cativante e de fácil identificação.

John Jacob é um jovem esperto e bastante corajoso, porém não sabe disso quando a história tem início, pois se encontra em estado de fragilidade decorrente dos anos de abuso que sofreu nas mãos do detestável sr. Lewis, o dono do estabelecimento em que vive. É emocionante acompanhar as descobertas e o amadurecimento do protagonista, que quando embarca na missão rumo ao Taiti é apenas um rapazinho assustado, mas que se transforma em um homem forte após enfrentar muitas adversidades no Bounty e no mar ao longo de dois anos.

Em sua narrativa, o rapaz (ou o próprio John Boyne, que se coloca no lugar de seu protagonista) consegue reproduzir a atmosfera dos acontecimentos que viveu e dos cenários que conheceu, fazendo com que seja muito simples para o leitor se inserir naquele contexto. Com descrições precisas, mas nada excessivas, Turnstile nos coloca à bordo do Bounty, onde assistimos de camarote o desenrolar da missão do capitão Bligh e de sua relação tempestuosa com os demais tripulantes da embarcação, incluindo o imediato Fletcher Christian. Também somos apresentados a algumas superstições náuticas - como o sacrifício ao Rei Netuno quando uma embarcação chega à linha do Equador - e à hierarquia de um navio, que faz com que o protagonista sofra até que consiga se ajustar.

Na história real, não é possível definir quem é o herói e quem é o vilão quando falamos de William Bligh e Fletcher Christian, pois tudo é uma questão de perspectiva. Porém, para o leitor de "O garoto no convés" fica clara a decisão de John Boyne em transformar Bligh, através dos olhos de John Jacob, no grande herói da aventura. Mesmo que muitas vezes se mostre como um indivíduo temperamental, dado à bruscas mudanças de humor, William Bligh é um indivíduo que preza pela honra e que tem como principal objetivo concluir a sua missão com sucesso e levar seus homens de volta para casa em segurança. Enquanto o capitão se mostra rígido e sério com a tripulação em diversos momentos, é inegável o carinho que ele dirige ao protagonista, se transformando num tipo de figura paterna para o órfão. A relação entre Bligh e Turnstile, marcada pelo companheirismo e lealdade, é, provavelmente, o aspecto de que mais gostei em todo o livro. Em contrapartida, o rapaz não poupa palavras quando quer criticar o sr. Christian, muitas vezes se incomodando com o fato de o oficial ser muito engomadinho, passando a maior parte do tempo verificando se as unhas estão limpas e se os cabelos estão bem penteados. John Jacob chega, inclusive, a chamar Fletcher Christian de vilão!

É interessante mencionar que o autor teve acesso à diversos livros sobre o motim do HMS Bounty que lhe serviram tanto de inspiração, quanto como forma de verificar a veracidade - na medida do possível - dos fatos que estava romanceando em sua história. Entre o material de pesquisa, que é citado pelo autor, estão o livro escrito por William Bligh junto com Edward Christian (irmão de Flecther Christian) a partir de seus diários de viagem e também transcrições dos processos relativos ao motim do Bounty.

Apesar da narrativa fluída na primeira parte, a leitura se tornou maçante em alguns trechos, principalmente na segunda metade do livro. Por se tratar de um romance de aventura marítima, obviamente, é de se esperar que boa parte do enredo se desenrole no mar e com "O garoto no convés" não é diferente, de forma que o autor se utiliza de várias páginas para descrever o - muitas vezes tedioso - cotidiano da tripulação do Bounty. A quarta parte, que narra os 48 dias à bordo da pequena barca à deriva no oceano, é narrada minuciosamente e separada por cada dia, como se fosse um diário. A estrutura funciona bem para criar e transmitir a atmosfera de angústia e desespero dos personagens, porém, a redução no ritmo da narrativa pode ser considerada um empecilho para aqueles que buscam algo mais dinâmico e com ação. 

Como curiosidade, achei bem interessante perceber que o fidalgo que sugere que John Jacob embarque no Bounty é Matthiew Zélla, o ladrão do tempo e protagonista do primeiro romance de John Boyne.

Para concluir, quero ressaltar que gostei bastante da leitura de "O garoto no convés", apesar de ter me incomodado um pouco com o ritmo. O livro, além de apresentar ao leitor um momento célebre na História, é também uma ótima aventura marítima narrada por um protagonista interessante e que se desenvolve com o virar das páginas. Leitura recomendada!

16 de janeiro de 2015

Eu sou Malala (Malala Yousafzai & Christina Lamb)


Após ser baleada por um membro do Talibã, em 2012, Malala Yousafzai se tornou conhecida em todo o mundo e muitos questionaram os motivos para uma garota de 15 anos ser considerada uma ameaça. Um ano depois, já recuperada e refugiada em outro país, Malala resolve contar a sua história em um livro.

O homem usava um gorro de lã tradicional e tinha um lenço sobre o nariz e a boca, como se estivesse gripado. Parecia um estudante universitário. Então avançou para a porta traseira do ônibus e se debruçou em nossa direção. 'Quem é Malala', perguntou (...). Minhas amigas mais tarde me contaram que a mão do rapaz tremia ao atirar. Quando chegamos ao hospital, meu cabelo longo e o colo de Moniba estavam cobertos de sangue. Quem é Malala? Malala sou eu e esta é minha história. (p.17)
Nascida no Vale do Swat - região que faz parte do território Paquistanês, apesar de funcionar quase como um estado independente dentro de outro estado -, desde muito pequena Malala lidou com a diferenciação muito nítida feita entre homens e mulheres na região em que vivia. Enquanto os meninos podiam fazer o que bem entendessem, além de pensar em sua educação e sucesso profissional, as meninas deveriam se comportar, se preocupando com os afazeres domésticos e com um bom casamento. Mesmo dentro de tal contexto, Malala sempre recebeu incentivo de seu pai, Ziauddin, para que estudasse e sonhasse em ser algo mais do que uma esposa e uma mãe.

Após a chegada do Talibã ao Vale do Swat, teve início um período de repressão, em que novas leis foram impostas e quem ousar desobedecê-las deve arcar com as consequências, que vão desde açoitamentos públicos à execuções. Meninas foram proibidas de frequentar as escolas e as mulheres instruídas a permanecer dentro de casa e só sair com a companhia de um homem de sua família. Ziauddin não aceitou os termos e, sendo dono de uma escola, continuou incentivando a educação de meninas.

Sentíamos que o Talibã nos via como pequenos bonecos a ser controlados, aos quais se dizia o que fazer e como vestir-se. Pensei que se Deus quisesse que fôssemos assim, não nos teria feito diferentes uns dos outros. (p.135)


Assim como o pai, Malala também passou a lutar por seus direitos e frequentemente participava de palestras em que falava para meninas sobre a importância de ir para a escola e do valor que tem o ensino. Em 2009, participou de um documentário para o New York Times (aviso: o documentário tem cenas fortes de violência, como corpos expostos e decapitados) em que falou um pouco sobre o período em que teve que abandonar os estudos por conta de constantes bombardeios entre soldados paquistaneses e americanos (Osama Bin Laden estava escondido em um local bem próximo ao Swat) sofridos por sua cidade. No vídeo, mais uma vez, ela foca na importância da educação para crianças - meninos e meninas - em todo o mundo.

Em Eu Sou Malala a jovem fala a respeito de sua infância no Vale do Swat e de como a região sofreu com a chegada do Talibã após o terremoto de 2005, narrando alguns dos acontecimentos históricos que marcaram o território. Ela também conta como foi se recuperar após o atentado contra a sua vida e de como se estabeleceu, junto com a sua família, na Inglaterra.


Narrado em primeira pessoa pela própria Malala, o livro é dividido em cinco partes (Antes do Talibã, O vale da morte, Três meninas, três balas, Entre a vida e a morte e Uma segunda vida) em que ela explica um pouco da história do Vale do Swat e dos motivos que o tornam tão distinto do resto do território paquistanês. Ao tratar da história de seu país, Malala também apresenta um parâmetro social, econômico e político do Paquistão, deixando claro que lá as taxas de analfabetismo são muito altas, o que contribui bastante para a corrupção e para o avanço do Talibã, que deturpa os ensinamentos do islamismo, de forma a manipular a população de acordo com seus objetivos.

Nosso povo ficou desorientado. Pensa que o mais importante é defender o Islã e é malconduzido por aqueles que, como o Talibã, interpretam deliberadamente o Corão de forma errada. Devíamos nos concentrar em problemas práticos. Há tantos analfabetos em nosso país! As mulheres, sobretudo, não têm nenhuma instrução. Vivemos numa nação onde pessoas explodem escolas. Não dispomos de fornecimento confiável de energia elétrica. Não se passa um único dia sem o assassinato de pelo menos um paquistanês. (p. 234)

Além do campo político, social e econômico, o leitor também tem conhecimento do cotidiano da região e da vida familiar de sua narradora. Desde o início fica claro que Malala é uma adolescente como qualquer outra - ela gosta de escutar Justin Bieber, de assistir Ugly Betty e os filmes da série Crepúsculo -, com conflitos interpessoais, dúvidas e descobertas próprios dessa fase da vida. A linguagem é bem acessível. Acredito que isso se deva tanto ao fato de ter sido escrito por uma adolescente, quanto ao fato de o inglês não ser a língua nativa de Malala. Aliás, vale mencionar que o livro foi escrito com a ajuda da jornalista Christina Lamb. Não fica claro até que ponto a jornalista a auxiliou e até onde tudo o que está escrito foi ideia original de Malala, o que não muda de forma alguma a importância da obra.

Gostei bastante da leitura de Eu sou Malala, que está entre os favoritos de 2014. Me identifiquei com Malala em alguns momentos e, de certa forma, a experiência de leitura de seu livro despertou em mim emoções muito próximas das que senti lendo O Diário de Anne Frank. Talvez isso tenha ocorrido por ambos os livros trazerem os relatos de meninas que ainda muito jovens tiveram contato com a extrema violência. Felizmente, o destino de Malala foi positivo e hoje, já recuperada, ela continua com sua luta para que todas as crianças do mundo tenham acesso à educação. Em 2013, participou de uma conferência da ONU e no ano passado se tornou a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Além de bastante inspirador, o livro também é bastante interessante por tratar um pouco da história do Swat e do Paquistão. Confesso que, antes da leitura, tinha pouco conhecimento sobre estas regiões e o que sabia vinha de algumas notícias que li na internet e que sempre me deixavam confusa. Malala contextualiza sua história de forma a tornar um pouco mais clara para o leitor do mundo ocidental a realidade em que vivem muitos paquistaneses. Ela também frisa a importância de não classificar todo e qualquer muçulmano como terrorista, explicando que o Islã é uma religião que prega a paz e a igualdade, enquanto o Talibã distorce tudo para alcançar seus objetivos.

Eu não conseguia entender o que o Talibã queria fazer. 'Eles estão caluniando nossa religião', falei em entrevistas. 'Como você vai aceitar o Islã se eu apontar uma arma para sua cabeça e afirmar que o Islã é a verdadeira religião? Se eles querem que todas as pessoas do mundo sejam muçulmanas, por que primeiro não se mostram bons muçulmanos?' (p. 159)

Acredito que, levando em consideração o momento que estamos vivendo, esta mensagem é bastante válida. Leitura recomendadíssima!

31 de dezembro de 2014

As Melhores Leituras de 2014



Conheci esse livro por acaso e não sabia muito bem sobre o que era, além de que tinha alguma coisa a ver com um mistério relacionado à obra de William Shakespeare. Gostei bastante da leitura, não é o melhor livro que li na minha vida e acho que não vai mudar a vida de ninguém, mas é um livro muito gostoso de ler, que te envolve e que você não quer largar enquanto não chegar no final. Tem mistério e tem ação; não chega a ser policial, mas tem aquela característica que o faz o leitor ficar investigando junto com o personagem e é bem legal. Decidi colocar o livro na lista de melhores do ano porque ele me tirou de uma ressaca literária em questão de poucos dias.

Primeiro livro da Trilogia da Névoa, este livro é bem no estilo das histórias do Zafón. Voltado para o público juvenil, o livro traz uma história sobre amizade e tem uma atmosfera meio macabra, assustadora e bizarra que acontece em um cenário tropical. É um livro bem bacana e que termina de um jeito meio estranho e que você não sabe dizer se entendeu direito. Recomendo bastante!

Cartas do Papai Noel (J.R.R. Tolkien)
É um livro muito fofo e que me fez ficar com vontade de ler outros livros do Tolkien, um autor que admiro bastante apesar de ter lido pouco. A leitura mostra muito de como era a relação dele com seus filhos ao trazer as cartas que o autor escrevia para eles como se fosse o Papai Noel. É muito bonito a forma como ele tentou manter viva neles a fantasia do Natal. A edição da Martins Fontes, além de trazer o conteúdo das cartas, inclui as ilustrações lindas que o autor fez para acompanhá-las.

Este foi um dos primeiros livros a trazer a viagem no tempo como tema e a leitura é bem envolvente, nos levando do século XIX até um futuro distante. O que mais me impactou foi perceber o tanto do século XIX que ainda trazemos conosco e como muitas das coisas que eles pensavam e se questionavam naquela época ainda são bastante atuais para nós. É uma aventura bem divertida e que eu recomendo.

Este é o primeiro livro da série Os Heróis do Olimpo, que começa muito bem. O universo já é familiar e novos personagens se misturam aos antigos. Gostei dos novos mistérios e das novas missões, e foi ótimo lembrar como as histórias do Rick Riordan são cheias de aventura e humor.

Adorei essa leitura, que é o tipo de terror que dá medinho mesmo. História de terror com espírito, casa assombrada e que envolve crianças. Apesar do início um pouco lento, achei bem envolvente e gostei do fato de não conseguir confiar na narradora; não dá para saber até que ponto ela tem credibilidade e o final é daqueles que deixam a gente questionando tudo.

Acho que este é um dos livros mais subestimados do autor; uma pena, porque é um dos meus favoritos dele. Tem uma história meio absurda, com alguns clichês e estereótipos, mas eu gostei da ideia. Também não achei a Margot uma personagem chata e acho que este é o livro do autor com o qual eu mais me identifiquei com as reflexões levantadas. Recomendo demais!

Adoro esse tipo de livro que traz o relato de experiências bem distantes das que eu vivi ou vivo; é possível aprender muito com o que a Malala tem a nos dizer. Gostei de como ela fala da sua vida no Vale do Swat e de como pude aprender sobre o que aconteceu no Paquistão depois da chegada do Talibã. É um livro bem marcante e assustador em diversos momentos, mas que eu acho que todos deveriam ler.

Claro que não poderia faltar este livro, que foi a maior surpresa que tive em 2014! Comecei a ler Mentirosos bem desacreditada e imaginando uma história sem graça e previsível, mas me enganei. Faz meses desde que terminei essa leitura e ainda estou pensando naquele final. A leitura é bem fluida, os personagens são cativantes e o cenário é bem envolvente. Realmente gostei e recomendo!

O melhor livro que li em 2014 e virou favorito da vida! Esse é o tipo de livro que demora para te abandonar, sabe? A gente termina de ler e ficamos dias, meses até, pensando sobre o que aconteceu e sobre as irmãs Lisbon.  A escrita envolve e mexe com os nossos sentidos, conseguimos sentir o que os meninos narradores sentem, conseguimos sentir a dor e os anseios deles; a sensação de incompreensão e frustração que a narrativa transmite também passa a ser nossa. Não posso mentir, é um livro bem melancólico, mas é um livro lindo.

17 de dezembro de 2014

Anjos à mesa (Debbie Macomber) • BOOK REVIEW



Anjos à mesa traz Goodness, Shirley e Mercy, anjos criados por Debbie Macomber e que já apareceram em seis outros romances da autora. Porém, os livros podem ser lidos em qualquer ordem. Nesta história, o trio precisa treinar um novo aprendiz, Will, e a ocasião escolhida para visitar a Terra é o dia de Ano Novo.

Na Times Square, faltando pouco tempo para a contagem regressiva, Lucie se encontra perdida, sem saber onde se encontram suas amigas. Cansada de esperar e decidida a ir embora, ela esbarra em Aren e os dois, inesperadamente e inexplicavelmente, se beijam ao soar da meia-noite. Depois de sair da rua movimentada, os dois decidem tomar um café para conversarem e descobrem que foram feitos um para o outro. Pouco sabiam que a maneira inusitada como se conheceram fora resultado de um descuido do jovem anjo Will. E como toda ação tem uma reação, este descuido trará consequências.

Ao constatarem que gostaram muito de se conhecer e de que querem seguir adiante com um relacionamento, Aren e Lucie também percebem que o momento não é o mais apropriado. Ele é novo na cidade e está prestes a iniciar em um novo emprego; ela tem planos de abrir um restaurante nos próximos meses. Ainda assim, Aren propõe que Lucie pense na situação e que se decidir levar a sério a relação, ela deveria encontrá-lo no topo do Empire State Buildind em uma semana.

Imprevistos acontecem, meses se passam e agora Lucie e Aren deparam com uma segunda chance. E os anjos farão de tudo para ajudá-los...ou quase isso.

Não é segredo para ninguém que amo o Natal e o clima das festas de fim de ano. Sendo assim, sempre procuro assistir a filme e realizar leituras que combinem com este período mágico e Anjos à mesa me pareceu uma escolha bastante plausível. Gostei do que encontrei, mas não vou mentir, não adorei.

O livro traz uma premissa bastante simples e até previsível, o que não impede a possibilidade de uma boa experiência de leitura. Não tinha altas expectativas e/ou esperava encontrar um livro que mudaria a minha vida, de forma que, a princípio, tudo fluiu muito bem. Meus problemas começaram na segunda metade do livro. O tempo todo fiquei com a impressão de que Debbie Macomber criou problemas nas vidas dos personagens para que a história se estendesse; no início, o recurso funcionou, mas aos poucos ficou repetitivo e pareceu enrolação. No fundo, acho que o enredo funcionaria melhor se fosse um conto, ou se tivesse menos clichês.

Os personagens, ainda que carismáticos, também foram se tornando cansativos. Principalmente no final, quando a enrolação se disfarçou de orgulho e teimosia da parte de Aren e Lucie. Em nenhum momento anterior ficou esclarecido este aspecto das personalidades dos protagonistas, o que fez com que o comportamento de ambos mudasse de forma bastante abrupta. Não entendi muito bem a função dos anjos, a não ser a de criar confusão, adicionar elementos de humor e lembrar o leitor do real significado das festas de fim de ano. Tirando o fato de que foram eles que iniciaram o romance, não fazem muita diferença no desenrolar dos acontecimentos posteriores. A não ser para criar as enrolações os problemas já citados.

A narrativa em terceira pessoa é bastante direta, com pouca - na verdade, nenhuma - descrição de ambientes ou situações. É bastante fluida, mas achei um tanto simples e seca em algumas partes; não me agradou muito. Mesmo com os aspectos que, para mim, foram negativos, ainda assim, gostei da leitura. Porém, não sei se leria outro trabalho da autora.

Como disse, o livro traz uma história bastante previsível e é recheado de clichês, porém, acredito que possa agradar àqueles que estão procurando algo sem muita profundidade, ainda assim, agradável para ler neste período de festas.

15 de dezembro de 2014

Frankenstein (Mary Shelley)

A edição em que li foi outra, também em inglês.

Frankenstein, livro clássico do terror e marco da ficção científica, surgiu de uma forma interessante. Durante uma temporada chuvosa e entediante de férias, Mary Shelley, seu futuro marido e um grupo de amigos - entre eles, Lord Byron - resolveram contar histórias de terror e chegaram ao acordo de que, até o fim da viagem, todos deveriam escrever uma história a ser compartilhada. E foi a partir deste desafio que nasceu Frankenstein ou o moderno Prometeu (título original).

O romance, que traz elementos da literatura de terror gótica e do romantismo, foi publicado pela primeira vez em 1818, quando Mary Shelley tinha apenas 19 anos. No entanto, ao longo de sua vida, a autora fez algumas alterações em sua obra, de forma que a versão que temos hoje e que é considerada como a edição definitiva é a terceira edição, de 1931.

Logo no início da leitura, somos apresentados à Robert Walton, comandante de uma expedição ao Polo Norte que se corresponde com sua irmã, a quem conta o que ocorre durante a viagem. É a partir das cartas de Walton que o leitor tem conhecimento de Victor Frankenstein, um homem que foi encontrado à deriva no oceano pela tripulação de Walton. Após recobrar a consciência, o sobrevivente passa a narrar a sua história.

Nascido em uma família abastada, Victor Frankenstein sempre teve tudo do bom e do melhor, fazendo parte dos círculos sociais influentes de sua comunidade e tendo acesso à melhor educação. Ao completar 17 anos, ingressa na universidade e passa a se interessar por ciência, filosofia, alquimia e pela questão da origem da vida. Depois de muito estudar sobre tais assuntos, ele descobre o segredo para criar um ser humano e resolve fazer um experimento. Bem sucedido, se assusta e foge, abandonando sua criatura.

Anos se passam e Frankenstein retoma a sua vida em sua cidade natal, se aproximando de sua família, amigos e da moça com quem sonha casar algum dia. Porém, coisas estranhas passam a acontecer nas redondezas e ele desconfia de que tenham relação com o que fez no passado. Em determinado momento, Victor e sua criatura se reencontram e, a partir deste ponto, temos conhecimento do que veio a acontecer com a criatura, que ao longo dos anos conseguiu sobreviver, aprendeu a se comunicar e até a desenvolver pensamentos filosóficos e sociais.

Há anos queria ler Frankenstein e, depois de muita enrolação, finalmente o fiz! Sinceramente, esperava gostar mais; considero a experiência de leitura bastante válida e, de certa forma, enriquecedora, mas não vou mentir: não a achei prazerosa. Acredito que essa sensação tenha resultado da forma como a narrativa é estruturada e dos personagens - com os quais pouco me identifiquei.

É um pouco complicado explicar como a história é estruturada, mas vamos tentar. A narrativa tem início com as cartas que Robert Walton escreve para sua irmã; nelas ele explica como conheceu Victor Frankenstein e anexa o relato do mesmo. Neste momento, temos um segundo narrador que conta a história de sua vida e anexa ao seu relato aquele feito pela criatura, narrando os acontecimentos de sua recente existência durante o período em que esteve distante de seu criador. Logo, o que temos é uma história dentro de outra história, que por sua vez, está dentro de outra. Por se tratar de narrativas em primeira pessoa, é difícil para o leitor conferir a credibilidade de tudo o que é dito. Não é possível saber, por exemplo, se tudo que a criatura diz que fez é verdade, porque quem narra o relato dela é Victor Frankenstein.

Sobre o protagonista, pouco tenho a dizer, exceto que não gostei dele. A impressão que ficou é que Victor Frankenstein é um ser mimado e covarde que não sabe lidar com as consequências de seus atos. Em sua narrativa fica o tempo todo tentando se justificar, se fazendo de vítima - como se não tivesse culpa alguma em relação aos acontecimentos ruins na história - quando, na verdade, tudo o que ocorre resulta de suas decisões. Durante boa parte da leitura, me questionei sobre quem seria o verdadeiro monstro na história: a criatura - que não pediu para existir e que, por conta de ter sido abandonada, comete atrocidades - ou Frankenstein. Por outro lado, a criatura não é de todo inocente; principalmente quando fica obcecada por vingança.

Na narrativa, me incomodei com as repetições e também com o excesso de sentimentos. Este último, reconheço que seja um recurso da literatura da época, do Romantismo que fazia uso dos sentimentos e também das descrições da natureza. Porém, não encontro explicação para os personagens se repetirem o tempo todo, deixando a leitura enfadonha em algumas partes. Há também o fato de que é difícil acreditar em alguns fatos, como, por exemplo, uma criatura recém-nascida já ser capaz de andar e, aos três anos, já conseguir ler e filosofar. Mas, uma vez que o leitor aceita esses acontecimentos como uma verdade, a leitura flui melhor.

Como já expliquei, mesmo não achando a leitura prazerosa, estou feliz por tê-la realizado. O que mais me fascinou em Frankenstein é a atualidade de sua história. Ainda que, para mim, o livro se aproxime mais da ficção científica, não há como negar que o avanço da ciência e a sua utilização de forma descontrolada, sem pesar suas consequências, pode gerar enredos aterrorizantes. E é justamente aí que está a beleza da obra de Mary Shelley, que levanta questões que continuam a fazer sentido dois séculos depois de sua publicação. Assim, a leitura de Frankenstein é importante, válida e recomendada à todos os que gostam de clássicos ou de ficção científica.






Esta leitura também é parte do desafio The Rory Gilmore Reading Challenge.