13 de março de 2015

Sobre atropelar leituras | Vida de Leitora #10

Oi, meu nome é Michelle e eu tenho um sério problema: eu atropelo as minhas leituras. Hoje quero conversar com vocês sobre um hábito que tenho como leitora e que vem me incomodado um pouco ultimamente. Venho, por meio deste post, procurar aqueles que como eu também sofrem deste mal e, quem sabe, encontrar alguma justificativa para tal comportamento.

Mas antes, vamos às explicações. O que quer dizer atropelar as leituras? Basicamente, atropelar uma leitura consiste em você largar um livro por conta de outro, mas não porque o primeiro seja ruim, e sim porque o segundo promete ser igualmente interessante. Vou exemplificar com uma situação real pela qual passei nesta última semana. Estou lendo o comentadíssimo Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie, e gostando muito da leitura; porém, recentemente, recebi um exemplar de Objetos cortantes, da famosa Gillian Flynn, que me intriga bastante, pois adoro um bom livro policial e morro de curiosidade para conhecer o trabalho da autora. Resultado: atropelei a leitura de Americanah e comecei Objetos cortantes. Não abandonei a leitura do primeiro, mas estou intercalando com a leitura do segundo. Ambos os livros, cada um à sua maneira, são bons.

Agora, pensem que antes de começar Americanah, atropelei a leitura de Razão e Sensibilidade, clássico de Jane Austen, autora cujo trabalho me agrada bastante. Estou lendo os três livros ao mesmo tempo; quatro, se somarmos o Profissões para mulheres e outros artigos feministas, de Virginia Woolf, que estou lendo mais devagar. Ah, tudo isso e mais o As aventuras de Robin Hood, de Alexandre Dumas, que está em stand by durante o mês de março. Entendem onde quero chegar? É muita leitura simultânea para pouco tempo. É muita vontade de ler várias coisas para uma pessoa só.

Juro para vocês que não sei o porquê deste meu comportamento. Não sei por qual razão sofro de tamanha impaciência que me impede de agir de forma normal e ler apenas um livro de cada vez. Se formos considerar que estou lendo uns cinco livros ao mesmo tempo, obviamente, não terminarei nenhum deles tão cedo, logo, esse comportamento não tem lógica alguma e só atrasa mais as leituras. 

Em uma tentativa de desvendar o mistério do meu atropelar das leituras, usei a desculpa de que intercalo livros para não me enjoar das histórias. Ou a de que tenho tanta sede por novas tramas que, simplesmente, começo a ler tudo de uma vez. A primeira desculpa até faria sentido se eu estivesse intercalando dois tipos diferentes de texto - um romance e uma biografia, por exemplo -, mas o que acontece está longe disso. Apenas um livro é de não-ficção, enquanto os demais diferem apenas no estilo de história. No fundo, acho que a segunda desculpa tem um certo fundo de verdade. Tenho sim muita vontade de conhecer diferentes histórias, explorar novos universos e, claro, conhecer o trabalho de muitos autores; porém, há de se concordar que dá para fazer tudo isso com uma dose de calma e paciência, certo? Acho que o que rola é aquele desespero de saber que há muita coisa boa para ser descoberta na literatura e que, por mais que tentemos, não iremos conseguir ler tudo o que existe para ler no mundo. A vida é curta, infelizmente.

Assim, tentamos nos contentar com aquilo que conseguimos ler e fazemos o possível para não esbarrar em livros ruins pelo caminho. E, claro, atropelamos as leituras. As atropelamos na esperança de que, agindo dessa forma, o desespero de saber que a vida é curta será amenizado, afinal de contas, estamos lendo o máximo que podemos em um curto espaço de tempo, certo? Bom, não sei em relação a vocês, mas para mim é errado. Por mais que eu tente me convencer que esse hábito deixa as minhas leituras mais dinâmicas, sei que não é bem assim que me sinto em relação a elas. Em uma das prateleiras do meu quarto, coloco os livros que estão em andamento e, ultimamente, quando olho para ela sinto um incômodo, porque 1) não era para ter tanta coisa lá e 2) estou gostando de todos os livros, então não sei qual deles escolher para ler antes de dormir. E, acreditem, isso é bem perturbador, porque perco uns bons minutos tentando escolher qual será a leitura da noite. Minutos que poderiam ser gastos com a leitura propriamente dita. Viram só? Não faz sentido algum. 

Ah, e acabei de me dar conta de que também estou lendo A Dança dos Dragões, de G.R.R. Martin. É, mais essa. E o livro é enorme. Acho que já deu para ter uma ideia do caos que anda a minha vida de leitora, né? Drama à parte, sei que não estou sozinha, então, se tiver alguém aí na mesma situação, sinta-se abraçado, ok? Não surte, vai dar tudo certo. E se alguém já passou por algo parecido, por favor, diga como foi que você fez para sair dessa situação ou para abandonar esse hábito? Sua ajuda será muito bem-vinda. Obrigada.


Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

6 de março de 2015

Alta Fidelidade (Nick Hornby)

(...) O que vem antes, a música ou o sofrimento? Eu ouvia música porque sofria? Ou sofria porque ouvia música? Será que aqueles discos todos é que me deixavam melancólico? (p.30)
Ambientado na Londres dos anos 1990, Alta Fidelidade, de Nick Hornby, traz a história de Rob, um cara de 35 anos que trabalha em uma loja de CDs, da qual também é dono. Após o fim de seu longo relacionamento com Laura, Rob tenta superar o ocorrido listando os cinco piores términos de namoro de toda a sua vida – começando pela primeira namorada, que conheceu nos tempos de colégio, até chegar às relações da fase adulta.




Ele é completamente obcecado por música, e passa a maior parte do seu tempo consumindo álbuns de seus artistas preferidos, adquirindo vinis novos e raros para a sua coleção e gravando mixtapes. Basicamente, sua existência se resume a abrir e fechar a loja e, entre essas funções, passar horas e mais horas na companhia de Dick e Barry – os funcionários da loja, de quem não gosta muito – conversando sobre música, insultando clientes que, aparentemente, não tem tanto conhecimento sobre o assunto e sofrendo por causa de Laura. Assim como Rob, Dick e Barry não tem uma vida além da loja.

Por meio de uma narrativa em primeira pessoa, Rob tenta nos convencer – no caso, convencer sua ex – de que o fim do namoro com Laura não foi, nem de longe, o mais humilhante de sua vida. Assim, por meio de seu TOP 5, nos transporta aos diferentes períodos de sua história, nos apresentando suas antigas namoradas e explicando as circunstâncias em que tais relacionamentos chegaram ao fim; tudo acompanhado de uma lista de músicas que marcaram aqueles momentos. Ao falar sobre esses relacionamentos, Rob deixa claro o impacto que cada um teve em seu futuro e tenta compreender o que aconteceu entre ele e Laura para que chegassem ao ponto em que chegaram. 

Com essa premissa, Nick Hornby, com uma escrita fluída e envolvente, apresenta o leitor a um drama sobre relacionamentos na modernidade que se transformou, segundo o The Guardian, em um clássico imediato. Apesar de ambientado 20 anos atrás, o enredo e os temas abordados em “Alta Fidelidade” permanecem atuais. Por meio da história de Rob, o autor trata de alguns dos problemas mais comuns ao ser humano do século XXI: o medo de relacionamentos e de confiar em outra pessoa, a dificuldade para amadurecer e o excesso de egoísmo e egocentrismo.

***

No fundo, o livro é um monólogo, no qual o protagonista tenta se encontrar, se fazendo de vítima e culpando suas ex-namoradas pela vida frustrante que leva. Rob é desagradável, pedante e imaturo e isso transparece em sua narrativa, de forma que o leitor consegue enxergar como ele é, mas ele não. Ele é uma pessoa superficial, que julga as outras tendo como base interesses e conhecimentos musicais, e se estes não estiverem de acordo com o que ele julga interessante, a pessoa se torna descartável. Ele não está pronto para um relacionamento sério, mas ao invés de assumir isso, prefere por a culpa na ex, dizendo que ela gostava de bandas que para ele eram intragáveis, e não aceitando que ela saia à procura de alguém que espera o mesmo que ela em um relacionamento.

Mas aquilo ali continha uma verdade séria e essencial, a de que essas coisas importam mesmo, portanto não é legal fingir que uma relação tem futuro quando as coleções de disco divergem violentamente, o quando os filmes preferidos de cada um nem conversariam caso se encontrassem em uma festa. (p. 117)

Mesmo sem simpatizar com Rob, não pude evitar sentir alguma identificação com algumas das coisas que ele diz, principalmente em relação a suas impressões sobre a música em geral e o poder que ela tem de modificar o nosso humor e nos trazer esperança em momentos em que tudo parece perdido. Gostei também de sua sinceridade em relação a algumas normas do comportamento social que, para ele, não fazem o menor sentido. Muitas vezes ele fala algumas coisas que podem incomodar, mas, quando paramos para pensar percebemos que não são tão absurdas e a gente até já pensou nelas, mas nunca as tornamos públicas.

Talvez vivamos, todos nós que passamos os dias absorvendo material emocional, num estado de alta intensidade, e consequentemente jamais consigamos estar simplesmente contentes: precisamos estar infelizes, ou absurda e apaixonadamente felizes, e esses são estados difíceis de se obter numa relação sólida e estável. (p. 166)

Por fim, “Alta Fidelidade” é um livro interessante, de fácil leitura, que proporciona algumas reflexões nas entrelinhas e está recheado de referências musicais. Gostei bastante da escrita de Nick Hornby e, com certeza, pretendo ter mais contato com seu trabalho. Leitura recomendada!



2 de março de 2015

Sobre maratonas literárias | Vida de Leitora #09

Fevereiro foi um mês estranho no quesito leituras, porque 1) iniciei várias leituras e 2) não concluí muitas. Normalmente, não saio por aí me descabelando por conta de mais ou menos livros lidos por mês, mas a situação relatada acima me deixou um tanto preocupada. Digo isso porque em nenhum momento tive a sensação de passar por uma ressaca literária, já que me sentia motivada para ler e os livros escolhidos estavam interessantes.

No fim, acho que fui possuída pelo espírito carnavalesco típico do mês de fevereiro e, quando não estava lendo, me entreguei a outras atividades de meu interesse. Ainda assim, sem arrependimentos por não ler, não queria chegar ao fim do mês sem, pelo menos, avançar bastante na leitura dos livros iniciados. Foi aí que me permiti entrar no embalo das maratonas literárias 24h, que parecem estar fazendo bastante sucesso entre os booktubers brasileiros que acompanho.

Mas antes de expressar o que penso desse tipo de experiência e compartilhar um pouco sobre o que foi a minha, acho válido utilizar alguns caracteres para explicar o que é uma maratona literária àqueles que não sabem muito bem sobre o que eu estou falando. Basicamente, uma maratona literária diz respeito a um determinado período de tempo em que uma pessoa - ou várias pessoas - se propõe a ler um determinado número de páginas/livros ou apenas a ler mais do que o que costuma ler rotineiramente. Uma das maratonas mais conhecidas do tipo é a gringa Bout of Books, que no último mês de janeiro chegou à sua décima segunda edição. O evento dura uma semana, na qual, além de ler bastante, os interessados podem participar de desafios e sorteios e fazer atualizações sobre o seu desempenho nas redes sociais. Aqui no Brasil, creio que a mais conhecida é a Maratona Literária, que segue os moldes da Bout of Books e já teve quatro edições, incluindo uma especial de Carnaval.

Citei apenas alguns dos exemplos mais conhecidos, mas é claro que há vários tipos de maratonas literárias - organizadas por blogs, canais literários e até nas redes sociais -, com diferentes durações e desafios. Sem contar aquelas mais pessoais que muitos leitores resolvem fazer sozinhos. Particularmente, eu adoro a ideia de maratona literária; penso que é um ótimo jeito de incentivar a leitura (no caso de maratonas organizadas por blogs, por exemplo, em que muita gente participa) e também de fazer com que coloquemos as nossas leituras em dia.

E foi justamente este segundo ponto que me motivou a fazer a minha própria maratona literária 24h durante o mês de fevereiro. Já que contava com alguns livros iniciados e nenhum concluído, pensei que se reservasse um dia para ler, poderia pelo menos concluir algumas dessas leituras e avançar bastante em outras. E, felizmente, a brincadeira foi divertida e pude obter resultados satisfatórios. Porém, penso que isso só ocorreu porque não me pressionei a ler e também porque não dispus de todas as 24 horas do dia para me dedicar à leitura. No dia escolhido para fazer a maratona, vários imprevistos apareceram pelo caminho, de forma que só parei para ler quando sabia que não seria interrompida. Sem perceber, acho que encontrei o segredo para uma maratona 24h sem dor, sofrimento e cansaço, rs. 

Sei que para muitos, as maratonas literárias nem sempre resultam em boas experiências. Há quem se sinta obrigado a ler, e sabemos que isso não é legal; há também aqueles que leem bastante na maratona, mas vivenciam uma ressaca literária tenebrosa nas semanas seguintes. Algo parecido aconteceu com a Mell depois que ela faz uma maratona 24h, lembram?

Então, acho que para se obter um resultado positivo em uma maratona literária, seja ela de qual tipo for, é importante encarar tudo como um jogo em que todo mundo sai ganhando e o que importa é a participação e não os resultados. Como para tudo na vida, a criação de expectativas pode ser um problema. Pode acontecer de estabelecermos metas impossíveis ou inviáveis durante aquele período em que a maratona vai acontecer; então, quando o evento chega ao fim, o que sobra é a frustração por não conseguir atingir os seus objetivos de leitura iniciais. Por isso, é importante escolher um bom momento para participar de uma maratona literária e também se certificar de que você está no ~clima~ para ficar lendo por várias horas. Ah, e a escolha dos livros é bastante importante. Penso que as leituras mais recomendadas para esse tipo de experiência sejam aquelas que instigam o leitor e prendem a sua atenção; aventura, ação e mistério, por exemplo, são os meus gêneros preferidos para uma maratona literária, pois trazem tramas envolventes que dificilmente me deixam cansada ou entediada depois de algumas horas. 

Se as dicas acima forem levadas em consideração na hora de participar de uma maratona literária, o leitor tem tudo para ter uma ótima experiência de leitura. Assim, concluo o texto afirmando que gosto de maratonas literárias e que pretendo participar desse tipo de evento sempre que for possível e eu estiver com vontade. 

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

13 de fevereiro de 2015

Noah foge de casa (John Boyne)



Em Noah foge de casa, o leitor é apresentado a Noah Barleywater, um garotinho de 8 anos que - como o título deixa claro - resolve fugir de casa. Antes de o sol raiar e de seus pais acordarem, Noah já iniciou a sua caminhada rumo ao desconhecido.

Após passar por uma peculiar cidade em que macieiras estão vivas e ter seu trajeto cruzado por animais falantes, ele chega à uma floresta. E no centro dela há uma curiosíssima e mágica loja de brinquedos em que tudo é feito de madeira e que serve de lar para um velhinho bastante intrigante e com uma história interessante. Durante as próximas horas, ambos travam diálogos, trocam experiências e compreendem a importância de se manter fiel à uma promessa.

A leitura de "Noah foge de casa" foi uma experiência bastante agradável e a história apresentada por John Boyne, além de muito fofa, se revelou uma surpresa. Narrado em terceira e em primeira pessoa, o infantojuvenil parece o tipo de história para ser lida em voz alta para uma criança. É impossível não se emocionar ou se deixar cativar pelo enredo com ar de mistério e aspectos sutis de fantasia.

O protagonista, Noah, é um garotinho esperto e é por meio de sua curiosidade que somos apresentados ao universo da loja de brinquedos e de seu peculiar vendedor. Por vezes assustado ou intrigado, Noah tem um motivo para ter fugido de casa, mas se recusa a sequer pensar sobre o assunto. Assim, o mistério que permeia o motivo permanece ao longo de boa parte do livro.

Dessa forma,o garoto prefere conhecer melhor o dono da loja e escutar a respeito de suas aventuras quando este era jovem. Assumindo a narrativa, o velhinho fala a respeito de seu pai, o Pápi, e de quando ambos decidiram se mudar para a floresta, deixando para trás o passado na cidade; e sobre as situações pelas quais passou a partir de então - iniciar os estudos em uma nova escola, os conflitos com os colegas, a descoberta de que era um excelente corredor e, até, a sua transformação em um atleta olímpico. Cada uma das histórias do velhinho é representada por um títere (marionete) que fora entalhado por seu pai.

Eventualmente, Noah também compartilha algumas de suas experiências com o velho e é a partir deste ponto que passamos a ter alguma noção das razões que o levaram a sair de casa. Por meio dos diálogos entre os dois, John Boyne trata de temas mais profundos (eu disse que o livro tinha camadas!) e levanta questões interessantes de serem abordadas com crianças: a importância da família, o cuidado que se deve ter ao desejar algo, a valorização de promessas feitas e também sobre a fuga de seus problemas e o que isso pode trazer como consequência.

Durante a leitura, a identidade do dono da loja de brinquedos também passa a ser questionada e o leitor fica intrigado para saber quem ele é. Não vou mentir: apesar das inúmeras pistas que o autor deixou, eu só descobri quem o velhinho era no final. E a sensação que tive foi uma mistura de surpresa e encanto que só me fez gostar ainda mais da leitura.

Apesar da atmosfera fantasiosa - que em alguns momentos me lembrou o País das Maravilhas - e de momentos divertidos, "Noah foge de casa" não chega a ser um livro feliz. Muito pelo contrário, penso que é um livro bastante triste e melancólico, principalmente se considerarmos o público a que ele se dirige. Ainda assim, justamente por tratar de situações pelas quais todos passamos em alguma fase da vida, não posso deixar de considerar a leitura válida; tanto para crianças, quanto para adultos.

30 de janeiro de 2015

O garoto no convés (John Boyne)



Em O garoto no convés, John Boyne entrega ao leitor um romance histórico e de formação, trazendo a história de John Jacob Turnstile, um rapaz que terá a sua vida transformada após integrar a tripulação do famoso navio HMS Bounty.

O HMS Bounty foi um navio na Marinha Inglesa do século XVIII comandado pelo tenente William Bligh e que tinha como missão uma viagem até o Taiti para buscar um carregamento de mudas de fruta-pão. As mudas seriam plantadas na Jamaica e serviriam como alimentação boa e barata para os escravos. Porém, em abril de 1789, o Bounty serviu de palco para um motim, no qual o imediato do capitão/tenente do navio, Fletcher Christian, tomou o comando da embarcação, deixando William Bligh e os tripulantes que não concordaram com os amotinados à deriva em uma pequena barca no oceano Pacífico. Surpreendentemente, após uma série de dificuldades, os homens abandonados conseguiram sobreviver e retornar à Inglaterra.

No romance de John Boyne, que utiliza a história do motim do Bounty como enredo principal, o leitor é apresentado ao órfão de 14 anos John Jacob Turnstile que, após sofrer muitos abusos no orfanato em que vivia e realizar roubos pelas ruas de Portsmouth, é condenado a muitos anos de prisão. Porém, a vítima de seu último delito propõe que a pena seja cumprida de outra forma: John Jacob deveria embarcar na próxima missão do HMS Bounty e se tornar o novo criado do capitão William Bligh. Não muito empolgado com a sugestão, mas decidido a não ir para a cadeia, John Jacob aceita a proposta e terá a sua vida mudada.

A partir da visão do adolescente, o leitor tem acesso ao universo do Bounty - marcado pela hierarquia da tripulação e os costumes e superstições dos homens do mar - à estadia dos marujos no Taiti e ao fatídico dia em abril de 1789 quando a embarcação e seus tripulantes entraram para a história e se transformaram em inspiração para muitas obras de aventuras marítimas na literatura e no cinema.


Desde que ouvi falar em John Boyne e resolvi pesquisar sobre seus livros, "O garoto no convés" foi o primeiro a atrair a minha atenção, porém o quarto trabalho do autor com que eu tive contato. Devo confessar que, apesar de ter gostado muito da leitura, a experiência foi um pouco exaustiva em alguns momentos.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio John Jacob Turnstile, porém anos depois de suas aventuras à bordo do Bounty, o livro é dividido em cinco partes - duas das quais ambientadas completamente em alto mar - que acompanham os acontecimentos desde a prisão do protagonista, passando por sua viagem até o Taiti e o motim até, finalmente, o retorno à Inglaterra. Logo nas primeiras linhas o leitor já consegue ter uma ideia do tom marcado por humor e ironia que será utilizado por Turnstile ao contar a sua história, o que torna o personagem bastante cativante e de fácil identificação.

John Jacob é um jovem esperto e bastante corajoso, porém não sabe disso quando a história tem início, pois se encontra em estado de fragilidade decorrente dos anos de abuso que sofreu nas mãos do detestável sr. Lewis, o dono do estabelecimento em que vive. É emocionante acompanhar as descobertas e o amadurecimento do protagonista, que quando embarca na missão rumo ao Taiti é apenas um rapazinho assustado, mas que se transforma em um homem forte após enfrentar muitas adversidades no Bounty e no mar ao longo de dois anos.

Em sua narrativa, o rapaz (ou o próprio John Boyne, que se coloca no lugar de seu protagonista) consegue reproduzir a atmosfera dos acontecimentos que viveu e dos cenários que conheceu, fazendo com que seja muito simples para o leitor se inserir naquele contexto. Com descrições precisas, mas nada excessivas, Turnstile nos coloca à bordo do Bounty, onde assistimos de camarote o desenrolar da missão do capitão Bligh e de sua relação tempestuosa com os demais tripulantes da embarcação, incluindo o imediato Fletcher Christian. Também somos apresentados a algumas superstições náuticas - como o sacrifício ao Rei Netuno quando uma embarcação chega à linha do Equador - e à hierarquia de um navio, que faz com que o protagonista sofra até que consiga se ajustar.

Na história real, não é possível definir quem é o herói e quem é o vilão quando falamos de William Bligh e Fletcher Christian, pois tudo é uma questão de perspectiva. Porém, para o leitor de "O garoto no convés" fica clara a decisão de John Boyne em transformar Bligh, através dos olhos de John Jacob, no grande herói da aventura. Mesmo que muitas vezes se mostre como um indivíduo temperamental, dado à bruscas mudanças de humor, William Bligh é um indivíduo que preza pela honra e que tem como principal objetivo concluir a sua missão com sucesso e levar seus homens de volta para casa em segurança. Enquanto o capitão se mostra rígido e sério com a tripulação em diversos momentos, é inegável o carinho que ele dirige ao protagonista, se transformando num tipo de figura paterna para o órfão. A relação entre Bligh e Turnstile, marcada pelo companheirismo e lealdade, é, provavelmente, o aspecto de que mais gostei em todo o livro. Em contrapartida, o rapaz não poupa palavras quando quer criticar o sr. Christian, muitas vezes se incomodando com o fato de o oficial ser muito engomadinho, passando a maior parte do tempo verificando se as unhas estão limpas e se os cabelos estão bem penteados. John Jacob chega, inclusive, a chamar Fletcher Christian de vilão!

É interessante mencionar que o autor teve acesso à diversos livros sobre o motim do HMS Bounty que lhe serviram tanto de inspiração, quanto como forma de verificar a veracidade - na medida do possível - dos fatos que estava romanceando em sua história. Entre o material de pesquisa, que é citado pelo autor, estão o livro escrito por William Bligh junto com Edward Christian (irmão de Flecther Christian) a partir de seus diários de viagem e também transcrições dos processos relativos ao motim do Bounty.

Apesar da narrativa fluída na primeira parte, a leitura se tornou maçante em alguns trechos, principalmente na segunda metade do livro. Por se tratar de um romance de aventura marítima, obviamente, é de se esperar que boa parte do enredo se desenrole no mar e com "O garoto no convés" não é diferente, de forma que o autor se utiliza de várias páginas para descrever o - muitas vezes tedioso - cotidiano da tripulação do Bounty. A quarta parte, que narra os 48 dias à bordo da pequena barca à deriva no oceano, é narrada minuciosamente e separada por cada dia, como se fosse um diário. A estrutura funciona bem para criar e transmitir a atmosfera de angústia e desespero dos personagens, porém, a redução no ritmo da narrativa pode ser considerada um empecilho para aqueles que buscam algo mais dinâmico e com ação. 

Como curiosidade, achei bem interessante perceber que o fidalgo que sugere que John Jacob embarque no Bounty é Matthiew Zélla, o ladrão do tempo e protagonista do primeiro romance de John Boyne.

Para concluir, quero ressaltar que gostei bastante da leitura de "O garoto no convés", apesar de ter me incomodado um pouco com o ritmo. O livro, além de apresentar ao leitor um momento célebre na História, é também uma ótima aventura marítima narrada por um protagonista interessante e que se desenvolve com o virar das páginas. Leitura recomendada!