22 de maio de 2015

A casa assombrada (John Boyne)


Londres, Inglaterra, 1867. 

Eliza Caine é uma jovem professora que culpa Charles Dickens pela morte de seu pai e, consequentemente, por torná-la uma pessoa sozinha no mundo. Afinal, foi após a decisão de sair de casa em uma noite chuvosa e fria para assistir a uma leitura que Dickens faria na galeria Knightsbridge, que seu pai, um entomologista fascinado pela obra do famoso romancista, ficou ainda mais doente e faleceu. 

Sozinha e sem condições de pagar o aluguel da confortável casa em que vivia com o pai, Eliza responde a um misterioso anúncio em um jornal e se torna a nova governanta de Gaudlin Hall, propriedade localizada no condado de Norfolk. Ao chegar à mansão, ela nota, ao ser recebida pelas crianças das quais deverá cuidar, que há algo de estranho no local. Isabella se comporta de maneira muito formal e séria para uma garota de 12 anos e Eustace parece assustado; ambos escondem algo. E, aparentemente, não há nenhum adulto na casa. 

Sem muitas informações sobre quem fez o anúncio, ou sobre as crianças, Eliza resolve fazer perguntas às pessoas que vivem na região, mas todos se mostram bastante incomodados com a menção do nome Gaudlin Hall, se tornam frios e se distanciam. De volta à mansão, uma série de acontecimentos inexplicáveis se apresenta a ela: janelas impossíveis de serem abertas, cortinas que se movem sozinhas, uma estranha sensação de estar sendo observada. E seu desespero aumenta quando descobre que é a sexta governanta que a propriedade teve em menos de um ano. 

De uma forma geral, gostei da leitura de A casa assombrada. O terror em si não foi o que mais me impressionou – tendo em vista que já li outros livros do gênero -, mas sim a forma como John Boyne conduz a história, com a criação de mistérios e a constante atmosfera de suspense. Durante a leitura fiquei o tempo todo com a sensação de que algo estava prestes a acontecer.

A narrativa, envolvente e fluida, é feita em primeira pessoa pela própria Eliza Caine, que com suas impressões dos acontecimentos faz com que o leitor se sinta inserido na história. Gostei de como ela se mostra determinada a entender o que está acontecendo e não se importa com até onde tenha que ir para chegar à verdade (mesmo que tenha que ferir a etiqueta e “se intrometer” na vida alheia). Mesmo que as pessoas fujam de suas perguntas e mudem de assunto, ela sabe que precisa proteger as crianças e não quer ter o mesmo destino das governantas anteriores. 

Além da clara referência a Charles Dickens, o livro me fez pensar em outros dois romances do século XIX. O enredo me lembrou bastante o de A outra volta do parafuso, de Henry James, tanto pelo fato de que ambos trazem governantas como as protagonistas e narradoras, quanto pelo fato de que as mansões em que as histórias acontecem parecem ser habitadas por espíritos. Acredito que a semelhança com o clássico de Henry James seja intencional. Em alguns trechos, a história também me fez pensar em Jane Eyre, de Charlotte Brontë; não tanto pelo enredo, mas pelo elemento casa-antiga-que-guarda-um-segredo. 

Por ser ambientado no século XIX e narrado por uma mulher, o livro apresenta ao leitor um pouco de como era a realidade feminina daquela época, quando uma jovem de 21 anos podia trabalhar, mas o ideal mesmo era ter um marido. Eliza nunca se preocupou com namorados e, depois de terminar os estudos, se tornou professora. Em vários momentos ela é indagada por outras mulheres a respeito de casamento e se ela não pensa em ter filhos, apesar de não ser tão atraente. Mesmo constrangida com as perguntas, ela se mantém firme em sua decisão de ser independente, mesmo que isso desagrade algumas pessoas ao seu redor. Gosto do fato de a protagonista pensar de forma à frente de seu tempo.

No que diz respeito ao desenvolvimento da história, não vou mentir: achei bastante previsível. E talvez isso tenha acontecido justamente por já ter lido a obra de Henry James. Porém, vale a pena mencionar que as duas histórias trazem desfechos diferentes. Enquanto acho o final de A outra volta do parafuso muito bom, o mesmo não posso dizer do que ocorre nos últimos capítulos do livro de John Boyne. Achei tudo muito absurdo e, ouso dizer, mirabolante. Ainda assim, não acho que o final tenha ofuscado a obra como um todo. O livro é bem escrito e sua experiência de leitura é agradável, pois prende a atenção do leitor. Recomendo principalmente para dias frios.

24 de abril de 2015

O Livro Selvagem (Juan Villoro)



Quando tinha 13 anos Juan teve que lidar com uma situação difícil e dolorosa: seus pais se divorciaram. Perdido, assistindo ao sofrimento de sua mãe, sem saber como agir e com raiva do pai, o garoto é enviado para a casa de um tio – na verdade, um primo distante de sua mãe -, onde deverá permanecer durante as suas férias de verão.

Tio Tito é um cara solitário que mora em uma casa antiga, enorme e cheia de cômodos. Ah, e ele tem uma obcessão peculiar: livros. Sua residência é, na verdade, uma grande biblioteca, pois em cada canto – na cozinha, na sala, nos quartos, nos banheiros, nas escadas, etc. – é possível encontrar livros. E a coleção trata dos mais diversos temas, que vão desde “os dentes das avós” até “como governar sem ser presidente”. Contrariado, Juan demora a se adaptar à vida na casa do tio Tito, achando-o um tanto excêntrico e estranhando seus hábitos, como beber chá de cachimbo incessantemente e desprezar qualquer tipo de barulho que interrompa suas experiências de leitura, o que o impede de ter um telefone em casa, por exemplo.

Aos poucos, o garoto começa a compreender a dinâmica da casa e se aventura pelas estantes, mesmo sem gostar de ler, à procura de algum livro que possa lhe interessar. Dividindo o seu tempo entre a leitura e fazer companhia para o tio, Juan recebe deste a missão de encontrar O livro selvagem, um livro misterioso, que não se permite ser lido e que está escondido na biblioteca. Para isso, ele irá contar com a ajuda de Catalina, uma garota que trabalha na farmácia da esquina e que compartilha com Juan a recém descoberta paixão pelos livros. 


Falando de forma direta: amei O livro selvagem, que acredito ser uma das melhores leituras que farei em 2015. Juan Villoro conseguiu, em poucas páginas, apresentar uma história cativante, envolvente e capaz de fazer o leitor sorrir a cada virada de página. A leitura me proporcionou sensações semelhantes às que tive quando conheci dois dos meus livros preferidos: A história sem fim, de Michael Ende, e A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón.

A narrativa – feita em primeira pessoa por Juan (o personagem) – é simples, fluida e bastante divertida. Por meio dos diálogos entre o protagonista com tio Tito, o autor aproveita para fazer referências e citar autores e livros conhecidos, como Julio Cortazar, A metamorfose, de Franz Kafka e Moby Dick, de Herman Melville. É também através destas conversas que Villoro tenta mostrar a importância e o poder dos livros para a vida de seus leitores.

Ao longo de toda a leitura é possível deparar com uma metáfora belíssima, em que o autor compara livros com remédios e livrarias/bibliotecas com farmácias. De acordo com tio Tito, pessoas doentes vão à farmácia procurando algum medicamento que as faça se sentirem melhor e o mesmo procedimento pode ser aplicado a uma visita a uma livraria ou biblioteca. As pessoas buscam livros que as deixem bem, dizendo aquilo que precisam escutar naquele exato momento. 

O enredo conta também, ainda que de forma sutil, com alguns elementos de fantasia que só o tornam ainda mais interessante. A biblioteca de tio Tito, por exemplo, traz livros que se movimentam quando ninguém os observa, mudando de lugar quando querem ser lidos ou não, podendo também escolher o leitor. Catalina, quando lê uma história, pode transformá-la em algo muito melhor. E há o livro selvagem, que se esconde nas sombras da biblioteca, pois não quer que ninguém o leia.
"Nada tem tanto caráter quanto um livro. Uma biblioteca é um 'almário': uma coleção de almas, sobrinho. Os livros se locomovem como as almas nos cemitérios, para se aproximar ou fugir de alguém". (p.35)

"(...) Há duas maneiras de um livro chegar até você: a normal e a secreta. A normal é aquela em que você o compra, ou alguém lhe dá ou empresta. Já a secreta é muito mais importante: nesse caso, é o livro que escolhe seu leitor. Às vezes, as duas maneiras se confundem. Você acha que decidiu comprar um determinado livro, mas na verdade foi ele que se colocou ali para que você o enxergasse e se sentisse atraído." (p. 37)

Quando faltavam poucas páginas para a conclusão do livro – que tem apenas 192 páginas, vejam só! -, fiquei triste porque não queria que a história chegasse ao fim. Ao mesmo tempo em que fiquei encantada com o universo da biblioteca do tio Tito, não pude deixar de me afeiçoar também aos personagens e acompanhar o desenvolvimento de suas histórias enquanto procuravam o livro misterioso. Gosto muito da forma como o autor foi construindo a relação entre Juan e o tio Tito e de como a literatura e o amor pelos livros se relaciona com tudo isso.

Acho difícil que um leitor apaixonado se sinta de forma diferente, pois O livro selvagem cativa o leitor, que se identifica com Juan descobrindo o mundo da leitura e o poder que os livros têm de nos tocar, nos ajudar e nos transformar. Por isso, a leitura é mais que recomendada; ainda que o livro seja direcionado à um público juvenil, a história é atraente para adultos também.

"Todo livro está adormecido até que um leitor o acorde. Dentro dele vive a sombra da pessoa que o escreveu". (p. 164)

17 de abril de 2015

Sobre expectativas | Vida de Leitora #12

Hoje vamos conversar sobre expectativas, as grandes culpadas por - na maioria das vezes - não gostarmos de uma leitura, ou gostarmos mais do que esperávamos. Penso que muitas de nossas impressões em relação a um livro dependem muito do que pensávamos ou esperávamos deles antes da leitura; e estes fatores estão relacionados à expectativa.

Recentemente, li o bastante comentado Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Confesso que logo que o livro foi lançado não tive interesse em lê-lo, porém, minha curiosidade surgiu e cresceu muito conforme eu lia ou assistia as impressões de muita gente que acompanho. A opinião que me pareceu geral é a de que o livro é maravilhoso e provavelmente se transformará em um clássico contemporâneo. Assim, concluí que a leitura seria, no mínimo, interessante e resolvi encarar suas mais de 500 páginas.

Gostei? Sim, mas não tanto quanto imaginei gostar. Tive alguns problemas com a leitura e com a escrita da autora que não convém mencionar no momento. A questão é que meu interesse pela leitura de Americanah surgiu depois de ver as opiniões de outras pessoas e por alguma razão inexplicável aceitei sem margem para erro que o livro é uma obra-prima da literatura contemporânea, sem defeitos, a definição da perfeição. E, obviamente, me frustrei, porque não achei nada disso do livro da Chimamanda. Isso quer dizer que os outros leitores estavam mentindo ao dizerem que o livro é bom? 
Claro que não, estavam apenas expressando as opiniões deles, oras. Errada fui eu que, a partir destas opiniões, passei a enxergar o livro como algo de outro mundo sem sequer ter lido uma página do mesmo, entendem?

Não estou dizendo que é errado esperar algo de uma leitura ou levar em consideração a opinião de outros leitores. Mas prefiro acreditar que, inicialmente, um livro é apenas um livro que poderá, ou não, me agradar; e esta decisão deve ser feita tendo como base apenas a minha experiência com a leitura, sem interferências externas resultantes de expectativas.

Quando leio um livro e não gosto de alguns aspectos, fico incomodada, mas aceito razoavelmente bem os problemas. Porém, quando decido acreditar que a leitura é a nova obra-prima do mundo e encontro nesta algum “defeito”, fico extremamente irritada, me sinto enganada e revoltada. E isso não faz sentido algum, porque ninguém pode garantir com 100% de certeza que qualquer livro publicado é a melhor coisa que já foi escrita. E vale lembrar que o que é bom para mim, pode não ser bom para outra pessoa, certo? Logo, é realmente impossível afirmar de forma objetiva que um livro é horrível ou incrível, porque é tudo uma questão de perspectiva.

Sabendo de tudo isso, evito ao máximo me deixar influenciar por resenhas, sejam estas positivas ou negativas, a respeito de um livro que tenho interesse em ler. Porém, confesso que esta é uma missão difícil quando se trata de um livro bastante popular e comentado, porque sempre sou levada a crer que as páginas em questão irão me encantar ou decepcionar. Porque, sim, há também a possibilidade de as expectativas serem negativas; mas neste caso, acho que a experiência de leitura não é tão afetada e o resultado é agradável. Ano passado, quando comecei a ler Mentirosos, de E. Lockhart, já havia visto tantas opiniões sobre o livro que estava esperando me decepcionar e me culpar por ter perdido tempo com um livro ruim. No entanto, o que aconteceu foi justamente o oposto e me surpreendi.

Ou seja, expectativas podem ajudar ou atrapalhar muito. Ainda assim, prefiro que elas não existam. Prefiro me entregar a uma leitura sem esperar nada – nada mesmo, nem bom e nem ruim – e deixar que a história e a narrativa me mostrem se fiz uma boa escolha ou se apenas perdi o meu tempo. É difícil agir dessa forma e, como ficou claro pelo primeiro exemplo, nem sempre dá certo; mas, quando funciona, é ótimo e me poupa do estresse que é terminar um calhamaço com um sentimento de frustração. Digo isso porque se não tivesse esperado muito de Americanah, poderia até ter gostado mais dele.

Assim, meu conselho como leitora para vocês, também leitores é: não criem expectativas, nunca. 

Texto publicado originalmente na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

31 de março de 2015

Razão e Sensibilidade (Jane Austen)

A edição em que li foi uma anterior lançada pela mesma editora.

Publicado em 1811, Razão e sensibilidade é o primeiro trabalho de Jane Austen e foi aclamado já na época de sua publicação, que ocorreu de forma anônima. O romance traz a história das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que com suas personalidades e comportamentos opostos, representam a dualidade que dá título à obra.

No início do romance, Austen nos apresenta à família Dashwood - composta pelo Sr. Dashwood, sua esposa e suas três filhas (Elinor, Marianne e Margaret) -, que vive na renomada Norland Park, uma grande e belíssima propriedade localizada em Sussex, Inglaterra. O Sr. Dashwood se casou duas vezes, portanto sabe que de acordo com as leis vigentes na época, na ocasião de sua morte, sua esposa e filhas seriam deixadas sem nada, e sua fortuna e propriedade seriam entregues a seu filho primogênito, fruto de seu primeiro casamento. Durante o período retratado por Austen, mulheres não tinham direito à herança ou ao trabalho, assim, seu sustento seria garantido por seus familiares homens ou por um bom casamento.

Após a morte do Sr. Dashwood, que ocorre logo nos primeiros capítulos, suas filhas e esposa são deixadas à mercê da boa vontade de seu herdeiro, o Sr. John Dashwood. Este, por sua vez, acreditando estar fazendo mais que a sua obrigação, oferece à madrasta e às suas irmãs uma mísera quantia em dinheiro, o que as obriga a procurar uma nova residência que esteja de acordo com a nova renda. Assim, as Dashwood se mudam para Devonshire, onde passam a viver em um chalé emprestado por Sir John Middleton, um primo distante da Sra. Dashwood. E é neste novo e diferente ambiente – marcado por situações inconvenientes e pessoas, aparentemente, sem refinamento - que as duas protagonistas irão deparar com as primeiras dores resultantes de decepções amorosas.

Antes de partir para Devonshire, Elinor se apaixonou por Edward Ferrars, cunhado de seu irmão, que parece retribuir o seu sentimento, apesar de adotar uma postura mais tímida e reservada. Mesmo sabendo que o Sr. Ferrars está destinado a uma dama rica, Elinor não deixa de sonhar com a possibilidade de um dia poder ser a sua esposa e fica bastante frustrada ao ter que deixá-lo, passando a sofrer de forma silenciosa. Marianne, por sua vez, se apaixona perdidamente por Willoughby de Allenham, um cavalheiro que a salva após uma queda em um dia chuvoso. Ao contrário da irmã, Marianne é bastante efusiva em relação aos seus sentimentos, deixando claro para todos o que pensa e sendo incapaz de compreender a postura fria e calada de Elinor em relação a Edward.

Por meio da busca dessas duas irmãs por um final feliz, Jane Austen entrega ao leitor muito mais do que uma história de amor. Ela nos apresenta um romance sobre os costumes de uma época e de uma sociedade rígida, injusta e hipócrita; e ao criticar esta realidade, a autora faz uso de seu já conhecido senso de humor marcado pela ironia e pela exposição de seus personagens ao ridículo.

***

Acho muito difícil falar sobre este livro, porque sinto que por mais que tente, jamais conseguirei ressaltar tudo o que há de incrível neste clássico. Gosto muito da forma sutil como Jane Austen se utiliza de uma história de amor para criticar os costumes de sua época. Por meio do cotidiano dessas mulheres e suas vidas domésticas, a autora atenta para algumas questões que um olhar mais despercebido pode deixar passar batido.

Já perdi as contas de quantas vezes li comentários de pessoas dizendo que os livros de Jane Austen são superficiais, bobinhos e com personagens que apenas buscam um casamento. Creio que tais pessoas não levaram em consideração o contexto das histórias de Austen ao formularem os comentários. Pois, ao considerar a realidade das mulheres daquela época - que não podiam trabalhar, ir para a escola/universidade ou herdar uma fortuna -, compreende-se que o que elas poderiam esperar de melhor em suas vidas era, de fato, um bom casamento como forma de sustento. A “rebeldia” das heroínas de Austen está no fato de elas, apesar de não aceitarem a realidade em que estão inseridas, tentarem ser feliz nela, buscando um casamento feliz, ao lado de um homem que as aceite como são, retribuindo o afeto e respeitando-as intelectualmente.

Em Razão e sensibilidade, as heroínas têm personalidade e sabem o que querem, mesmo que seus desejos mais íntimos não estejam de acordo com as expectativas da sociedade. Marianne (que lembra um pouco Catherine Morland, de A abadia de Northanger) não tem medo de falar o que pensa, mesmo que sua honestidade possa ser interpretada como grosseria. Elinor despreza a noção de que um casamento bem sucedido se baseia em posses e poder econômico. Ambas querem casar por amor e lutam para que isso aconteça.

Ao apresentar duas protagonistas tão opostas, a autora também traz à tona um dos debates mais populares acerca da natureza humana: razão x emoção. No início do século XIX (cenário no qual o livro foi escrito), o Romantismo, com seu culto à sensibilidade, fazia oposição aos ideais iluministas, que prezavam pela razão. Por meio das heroínas em Razão e sensibilidade, o leitor entra em contato com as duas vertentes opostas de pensamento. Elinor, a razão, é uma jovem sensata, que esconde seus sentimentos e que sempre pensa muito antes de agir. Marianne, a emoção, é dramática, impulsiva e expansiva; todos sabem o que pensa ou sente; para ela, só é possível ter sentimentos se estes forem externados.

Além da dicotomia entre razão e emoção, o livro trabalha com outras formas de opostos, seja ao apresentar diferentes maneiras de olhar para um mesmo assunto (casamento como um negócio x casamento por amor) ou, mais uma vez, pelas personalidades dos personagens (Coronel Brandon x Willoughby, Elinor x Lucy Steele, Elinor x Srta. Morton, Marianne x Eliza, Marianne x Srta. Grey, Edward x Robert).

Em Razão e sensibilidade, Austen trata de outra questão comum em seus livros: a de preconceitos e julgamentos a partir da aparência de algo ou alguém. Como sempre, tais julgamentos são errôneos. A Sra. Jennings, por exemplo, é vista o tempo todo por Marianne como uma velha sem classe e inconveniente que só quer saber sobre a sua vida amorosa para fazer fofoca; porém, conforme a trama avança, a jovem percebe que, na verdade, a Sra. Jennings, apesar de seus defeitos, é uma mulher bastante maternal e que se preocupa com ela. Há também o caso de Willoughby, que surge como um príncipe encantado montado em um cavalo branco, mas que aos poucos vai se revelando justamente o oposto. Tanto os enredos, quanto os personagens de Jane Austen são marcados por camadas; tudo é muito mais profundo do que parece.

Quanto ao final, é preciso dizer que Jane Austen gosta de conceder finais felizes para suas heroínas e com Razão e sensibilidade não poderia ser diferente. Ambas as irmãs encontram desfechos muito positivos para jovens de sua época e, enquanto concordo com o fim de Elinor, não sei se posso dizer o mesmo em relação à Marianne. Fiquei com a sensação de que, de alguma forma, a autora resolveu punir a personagem por seu excesso de sentimentalismo, dando-lhe um final que pende mais para o lado racional. Ainda que fique claro, ao final da obra, que Austen defende a ideia de que é necessário que haja um equilíbrio entre razão e emoção, não consigo deixar de pensar que ela defende muito mais o lado da razão, enaltecendo o comportamento de Elinor e criticando o de Marianne.

Por fim, no que diz respeito à narrativa, a leitura flui bem no início e no fim, mas se torna lenta no meio. Há partes em que nada parece acontecer e, mesmo que o livro não deixe de ter seu encanto e despertar o interesse, nestes momentos se torna enfadonho. Também fiquei incomodada com o excesso de páginas dedicadas aos sofrimentos de Marianne em oposição às poucas oferecidas à Elinor, mas isso é mais uma questão de gosto, visto que Elinor é a minha preferida na história. No entanto, mesmo com um ritmo meio inconstante, a leitura de Razão e sensibilidade é extremamente válida e recomendada.








27 de março de 2015

Sobre spoilers | Vida de Leitora #11


Esta semana concluí a leitura de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, e fui correndo para a internet procurar opiniões de outras pessoas sobre o livro. Um dos vídeos que mais gostei de assistir foi o da booktuber canadense Ariel Bissett (para assistir, clique aqui), que aborda os principais temas tratados na obra clássica e comenta também sobre suas partes preferidas. Porém, enquanto assistia Ariel falando sobre as suas impressões de leitura deparei com uma indagação de minha parte e, creio, da parte de muita gente.

Em certo ponto do vídeo, Ariel fala sobre uma descoberta realizada pela heroína Elinor Dashwood apenas na metade do livro, revelando um trecho essencial do enredo. Assim, não pude deixar de pensar "pera, mas assim estraga a experiência de quem não leu o livro ainda". E aí, me pergunto: o que é um spoiler? Até quando a revelação dos acontecimentos de um livro pode ser considerada um spoiler?

Aos que não estão familiarizados com o termo, spoiler deriva da expressão de língua inglesa to spoil, que em uma tradução livre seria algo como estragar, e não diz respeito apenas ao universo literário; filmes e séries de televisão também podem ser estragados pela revelação de spoilers. Assim, se você não quer saber o que vai acontecer com o seu personagem preferido de um seriado, por exemplo, é muito importante ter cuidado por onde anda nesta terra de ninguém chamada internet. Vivemos em uma era muito ágil e é apenas uma questão de minutos até que uma informação caia da rede. Mesmo assim, com todo o cuidado do mundo, você ainda corre o risco de descobrir o desfecho de um livro antes de lê-lo. E aí, novamente, questionamos o que é, de fato, um spoiler.

Por exemplo, O sangue do Olimpo, desfecho da série Os heróis do Olimpo, foi lançado no final do ano passado e tem muita gente que ainda não o leu (tudo bem que estamos em março, mas livros demandam mais tempo que filmes, certo?). Então, se em uma conversa entre dois amigos, um revela ao outro o que acontece no final, penso que a revelação é um spoiler, visto que estragou a experiência daquele que ainda não leu. Por outro lado, temos os clássicos, como o citado Razão e sensibilidade, escrito há mais de 200 anos. Seria a revelação de um aspecto do enredo um spoiler? Tendo em vista que estamos falando de uma obra que sobreviveu a dois séculos, já foi adaptada para cinema e televisão e é encontrada em diversas referências na cultura pop, é de imaginar que muita gente já saiba o que acontece na história e, por isso, falar sobre fatos reveladores da trama não necessariamente é considerado um spoiler, certo? Não sei.

Há quem diga que qualquer informação que entregue muita coisa do enredo é um spoiler, não importa há quantos anos a obra exista. Há aqueles que entendem como spoiler qualquer revelação de acontecimentos de obras recentes e não se importam se descobrirem o final de um clássico, por exemplo. Eu, particularmente, evito buscar qualquer tipo de informações relacionadas aos livros que estou lendo ou tenho a intenção de ler. Faço isso porque gosto que meu contato com uma obra não sofra interferências externas e eu possa formar as minhas impressões com base no que eu, de fato, consegui capturar da leitura. Da mesma forma, evito comentar acontecimentos que considero reveladores - mesmo em clássicos - em minhas resenhas; se por alguma razão precisar falar o que acontece, aviso que spoilers virão. Assim, a pessoa decide se quer continuar a ler a resenha ou a assistir ao vídeo.

Esta é uma discussão na qual creio que não exista um certo e um errado, mas sim diferentes pontos de vista. Por isso, não consigo encontrar uma solução para o meu dilema.

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.