10 de junho de 2018

1001 LIVROS PARA LER ANTES DE MORRER: o início OFICIAL de um projeto de leitura + livros que já li (parte 1)

Depois de algum tempo amadurecendo a ideia, decidi finalmente trazer para o blog de forma oficial um projeto de leitura que me acompanha há muitos anos: 1001 livros para ler antes de morrer.

Ilustração criada pelo ChatGPT.

Esse não é um projeto inédito, quem acompanha a comunidade de leitores na internet com certeza já deve ter visto várias pessoas se aventurando por essa lista, cada uma à sua maneira. No meu caso, essa jornada começou de forma não oficial lá em 2014, quando comprei o livro que reúne essa seleção. Desde então, venho lendo alguns desses títulos aos poucos, sem método rígido, quase como quem vai sendo puxada pelos livros no momento certo.

O que me motivou a oficializar o projeto agora foi, principalmente, a vontade de revisitar essa lista com mais intenção. Muitos desses livros já estão na minha estante — alguns, inclusive, eu tenho vontade de reler. Então resolvi marcar esse recomeço com um primeiro post, reunindo também todas as leituras do projeto que já realizei desde que comecei a compartilhar as minhas leituras na internet

📚 Razão e Sensibilidade (Jane Austen)
A primeira leitura da lista que quero destacar é Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Li o livro em 2015, durante meu projeto pessoal de leitura das obras da autora (projeto que, confesso, ainda preciso retomar). Até agora, este é o romance da Jane de que mais gostei. A história acompanha duas irmãs lidando com a perda da herança após a morte do pai, a mudança para uma cidade menor e o deslocamento social que isso provoca. A partir daí, surgem reflexões sobre relacionamentos, casamento e as possibilidades de vida para mulheres no século XIX. É um romance que me marcou muito e que recomendo com carinho.

📚 Frankenstein (Mary Shelley)
Outro clássico fundamental dessa lista é Frankenstein, de Mary Shelley. Considerado o marco inicial da ficção científica, é um livro que me marcou profundamente. Embora tenha chegado a um ponto de exaustão durante a leitura, é uma história que permanece comigo até hoje. A narrativa acompanha Victor Frankenstein e as consequências devastadoras de sua decisão de “brincar de Deus”. Com sua estrutura epistolar e seus múltiplos níveis de relato, o livro influenciou profundamente o terror e a ficção científica como conhecemos, e ainda ecoa fortemente na cultura pop contemporânea.

📚 Jane Eyre (Charlotte Brontë)
Jane Eyre, de Charlotte Brontë, ocupa um lugar especial na minha trajetória de leitora. Foi esse livro que me fez querer criar um canal no YouTube para conversar com outros leitores. Acompanhar a vida de Jane, da infância difícil à vida adulta, é uma experiência intensa e inspiradora. O romance mistura elementos góticos, mistério, suspense e uma história de amor complexa, tudo conduzido por uma protagonista extremamente forte. É um dos clássicos que, sem dúvida, pretendo reler no futuro.

📚 Alice (Lewis Carroll)
Na mesma lista aparecem As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Lewis Carroll. A edição em que li reúne os dois livros, ambos clássicos da literatura inglesa e mundial. Embora muita gente conheça a história pelas adaptações, especialmente da Disney, o contato com o texto original é uma experiência única. Através do Espelho, em especial, foi uma descoberta deliciosa para mim, já que eu não conhecia tão bem essa parte da história.

📚 A Máquina do Tempo (H.G. Wells)
Ainda no campo da ficção científica, A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, foi uma das melhores leituras que fiz em 2014. É um dos meus livros favoritos do gênero, talvez por tratar de viagem no tempo — um tema que sempre me fascinou. Mesmo escrito no século XIX, o livro continua extremamente atual, com uma mensagem final poderosa e inquietante. A leitura é envolvente, rápida e cheia de suspense.

📚 O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerad)
Chegando ao século XX, O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, foi uma das minhas primeiras leituras comentadas no canal, em 2013. Até hoje é um dos meus livros preferidos. Com personagens moralmente questionáveis e uma atmosfera marcada por festas, excessos e vazio existencial, o romance retrata de forma brilhante a Nova York da década de 1920. Desde então, fico ensaiando a leitura de outros livros do autor — algo que certamente acontecerá ao longo deste projeto.

📚 Capitães da Areia (Jorge Amado)
O único livro nacional que li da lista até agora foi Capitães da Areia, de Jorge Amado. Meu primeiro contato com o autor aconteceu apenas em 2016, e fico muito feliz que não tenha sido durante a época da escola. O livro retrata a vida de meninos em situação de rua em Salvador, com uma delicadeza surpreendente. Apesar da dureza da realidade apresentada, há momentos de ternura quase lúdica, que me lembraram, em certos pontos, os “garotos perdidos” de Peter Pan. É uma leitura dolorosa, mas necessária.
💻 Post sobre o livro (em breve)

📚 Senhor das Moscas (William Golding)
Também em 2016 li Senhor das Moscas, de William Golding. Não foi uma leitura prazerosa, no sentido convencional, mas foi extremamente significativa. A história acompanha um grupo de crianças tentando se organizar em uma ilha deserta após um acidente de avião, e levanta reflexões profundas sobre natureza humana, sociedade, leis e moralidade. É um livro difícil, mas importante — e que sempre recomendo, mesmo sem ter gostado exatamente do processo de leitura.
💻 Post sobre o livro (em breve)

📚 O Sol é para Todos (Harper Lee)
O Sol é para Todos, de Harper Lee, foi uma das leituras mais tocantes que fiz em 2015. Narrado pela perspectiva da pequena Scout, o livro aborda o racismo de forma sensível e poderosa. Atticus Finch, seu pai, é um dos personagens mais íntegros da literatura, e sua defesa de um homem negro acusado injustamente é o centro moral da história. Mesmo tendo lido já adulta, o impacto foi enorme.

📚 Androides sonham com ovelhas elétricas? (Philip K. Dick)
Outro clássico da ficção científica é Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, obra que deu origem ao filme Blade Runner. Apesar de retratar um futuro aparentemente distante, o livro levanta questões muito próximas da nossa realidade: o que nos torna humanos? Onde termina a empatia e começa a mecanização da vida? É uma leitura inquietante e bastante atual.

📚 As virgens suicidas (Jeffrey Eugenides)
Por fim, um dos livros que mais me marcaram emocionalmente foi As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides. Foi minha leitura favorita de 2014 e o único livro da lista escrito na década de 1990. A história, narrada por meninos que observam à distância a vida de cinco irmãs, carrega uma atmosfera melancólica e onírica. Mesmo sabendo desde o início o desfecho trágico, o livro envolve profundamente e permanece com o leitor por muito tempo.

Além das leituras comentadas acima, também acrescentei à página do desafio os livros que li antes de ter blog, assim como os títulos que já tenho na estante e que pretendo ler/reler. Lembrando sempre que o projeto funciona mais como um incentivo para que eu mantenha um hábito de leitura do que como fonte de pressão. A ideia é ler sem seguir uma ordem rígida, guiada mais pela curiosidade em relação aos livros do que qualquer cronograma. O importante é ler, descobrir e se deixar transformar pelas histórias.

7 de maio de 2018

CONTO: A aventura do Estrela do Ocidente (Agatha Christie)


Publicado em 1924, A aventura do Estrela do Ociente é o conto que abre a coletânea Poirot Investiga. Narrada pelo Capitão Hastings, a história tem início quando Hercule Poirot é procurado por Mary Marvell, uma famosa atriz de cinema norte-americana que está visitando a Inglaterra com seu marido, também ator, Gregory Rolf. O motivo da visita são três cartas misteriosas que a atriz recebeu de um intrigante homem chinês e que, ao que tudo indica, se referem ao seu famoso diamante Estrela do Ocidente. O teor das cartas sugerem um possível roubo da joia nos próximos dias e a atriz, preocupada, precisa do auxílio do perspicaz detetive belga.

Poirot, pronto para ajudar, sugere que a joia fique sob a sua guarda até que a ameaça seja eliminada, porém, Mary Marvell não concorda. O casal pretende comparecer à mansão de Lord e Lady Yardly com o intuito de negociar a utilização da propriedade como cenário de um filme e Mary faz questão de exibir seu diamante na ocasião. Já que não conseguem chegar à um consenso, Poirot decide abandonar a investigação. Horas mais tarde, na ausência de Poirot, Hastings recebe Lady Yardly, que lhe conta que recebeu três cartas misteriosas nos últimos dias em circunstâncias semelhantes às vividas por Mary, também sugerindo o roubo de uma joia. Assim, após a partida da mulher e a chegada de Poirot, Hastings explica tudo o que aconteceu e, intrigado, o detetive resolve solucionar o caso apenas para a sua própria satisfação.

O primeiro aspecto que chamou a minha atenção após a leitura do conto é que aqui, diferente do que acontece na maioria das histórias de Agatha Christie, o mistério não gira em torno de um assassinato e da necessidade de descobrir a identidade do assassino. O foco está em proteger as joias. O interessante, talvez por ser uma história menor, é que quase não dá tempo de começar a especular e, muito menos, de entender o que está acontecendo. E esta última característica me fez questionar se, mais uma vez, não estava sendo "atrapalhada" pelo bobalhão do Hastings.

Tenho a sensação de que Hastings serve ao propósito de confundir o leitor e, com isso, fazer com que as grandes revelações feitas por Poirot tenham um peso ainda maior. Contudo, neste conto específico, o leitor fica realmente às cegas, já que em nenhum momento conseguimos acompanhar a linha de raciocínio do detetive - coisa que conseguimos perceber levemente em diálogos travados entre Poirot e Hastings nos romances anteriores - e, em contrapartida, somos entregues aos pitacos vergonhosos do capitão. Em sua defesa, deve ser difícil conviver com Poirot, cheio de métodos e reservas até o momento do desfecho. Quanto à solução, ainda que tenha sido satisfatória, fiquei com a impressão de que algumas explicações surgiram magicamente, pois não consegui acompanhar o processo investigativo realizado pelas células cinzentas de Poirot.

É um conto divertido - é sério, eu realmente dei gargalhada depois de ler alguns comentários do Hastings -, com uma narrativa fluida e envolvente. Dá para ler bem rapidinho, durante uma pausa para beber um café e comer um pedaço de chocolate.

Quando meu amigo voltou, tive o maior prazer em relatar-lhe o que acontecera durante a sua ausência. (...) Percebi que não estava muito satisfeito por não estar presente. Mas imaginei que era apenas um acesso de ciúme. Poirot sistematicamente subestima minha capacidade e calculei que se estava sentindo triste por não encontrar qualquer falha. Fiquei secretamente satisfeito comigo mesmo, embora procurasse disfarçar com receio de irritá-lo. (P. 14) 

25 de abril de 2018

the shuffle experiment: uma playlist para o mês de abril

Quando me dei conta de que o mês estava acabando e que eu só tinha um punhado de rascunhos de playlist, me propus uma brincadeira (porque eu sou exatamente o tipo de pessoa que tem essas manias no meio da madrugada, quando deveria estar dormindo, rs) seguindo as seguintes regras: a lista deveria ter 20 faixas e elas seriam selecionadas de acordo com o ~mood~ predominante da primeira, que seria escolhida sabiamente pelo mecanismo shuffle. Assim, ativei o modo aleatório e, a partir da primeira música que saiu, fui construindo a playlist, respeitando um fio condutor que faz sentido na minha cabeça, mas que jamais saberei explicar. Acho válido mencionar que a coisa só começou a funcionar direito depois da terceira tentativa, mas tudo bem, a vida é assim mesmo. Gostei bastante da experiência e recomendo.


#01 WILD (Troye Sivan)
#02 Lost Boys Life (Computer Games)
#03 Us (James Bay)
#04 Take Me To Church (Hozier)
#05 Don't Blame Me (Taylor Swift)
#06 D.D. (The Weeknd)
#07 BeFoUr (Zayn)
#08 Wild Love (James Bay)
#09 Believer (Imagine Dragon)
#10 I Did Something Bad (Taylor Swift)
#11 Green Light (Lorde)
#12 Cut To The Feeling (Carly Rae Jepsen)
#13 Out Of The Woods (Taylor Swift)
#14 Relax, Take It Easy (MIKA)
#15 Kill 'Em With Kindness (Selena Gomez)
#16 Sparks (Hilary Duff)
#17 Touch It (Ariana Grande)
#18 PILLOWTALK (Zayn)
#19 Crying in the Club (Camila Cabello)
#20 Perfect Places (Lorde)

24 de abril de 2018

COISAS QUE GOSTEI: A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Zafón)

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, é um dos meus livros preferidos da vida e após ter feito uma releitura no ano passado, hoje trago uma lista das coisas que mais gosto nele.


📖 O início 
Tenho para mim que o início é uma das mais importantes partes de um livro - se não for, de fato, a mais importante -, já que é dele a responsabilidade por fisgar ou não um leitor. No que diz respeito ao início de A Sombra do Vento digo que não apenas me cativou logo nas primeiras frases, como também se tornou um dos mais inesquecíveis que já li. Me ganhou por, ao mesmo tempo, trazer um quê de familiaridade e instigar a minha curiosidade.

📖 História de formação
Não sei se já cheguei a mencionar, mas em todo caso, fica aqui o lembrete (?) de que adoro histórias de formação. Então, imaginem a minha alegria ao me dar conta de que A Sombra do Vento, com seus muitos aspectos interessantes, também tem uma história desse tipo. Aqui acompanhamos o amadurecimento de Daniel Sempere - o narrador e protagonista - durante a sua adolescência, quando desvenda os mistérios da vida de Julián Carax e, ao mesmo tempo, vive experiências que lhe transformarão para sempre.

📖 Atmosfera de mistério e investigação
Não é segredo para ninguém que eu gosto de histórias policiais e um dos fatores que me fazem adorar A Sombra do Vento é que o livro traz elementos do gênero. Tanto quando Daniel e Fermín resolvem investigar o intrigante escritor Julián Carax, quanto nos momentos em que figuras sinistras escondidas nas sombras espreitam na calada da noite, o que predomina é uma sensação de suspense e uma atmosfera misteriosa completamente envolventes.

📖 Fermín Romero de Torres
Os personagens do livro são bem construídos e até o mais secundário tem uma chance de brilhar, mas aquele que faz as vezes de coadjuvante e acaba por roubar a cena é, sem sombra de dúvidas, Fermín Romero de Torres. Com um passado nebuloso e cheio de interrogações, Fermín carrega muito sofrimento e tem todas as razões do universo para ser uma pessoa amarga, mas opta por ser sempre otimista e dono de um coração enorme. Cativante do começo ao fim, ele faz com que a gente queira fazer parte de seu círculo de amizades.

📖 Narrativa envolvente
Carlos Ruiz Zafón escreve muito bem e sua narrativa é uma delícia. Assim, A Sombra do Vento se revela aquele tipo de livro que faz a gente se lembrar do porquê de gostar tanto de ler, já que devoramos as páginas sem nem perceber. Meio poética e com bastante humor, a escrita é cheia de referências literárias e traz ares de Alexandre Dumas.

📖 A relação de Daniel com seu pai
Daniel se se tornou órfão de mãe quando ainda era pequeno e seu pai é a sua única família. É lindo perceber que, mesmo com tanta tristeza e amargura em sua vida, o senhor Sempere fez tudo o que estava ao seu alcance para proteger o seu filho dos horrores do mundo e lhe proporcionar uma criação saudável, em meio àquilo que ele considera o que há de mais valoroso: os livros. Os dois comandam a livraria Sempere & Filhos - passada de geração para geração - e tem ótimas conversas sobre a vida, o universo e tudo mais por lá.

📖 Barcelona
Por meio de sua narrativa envolvente, Carlos Ruiz Zafón faz o leitor viajar no tempo e o conduz pelas ruas de Barcelona durante a primeira metade do século XX. Aqui conhecemos a cidade antes das guerras - com seus casarões cheios de histórias e segredos de famílias renomadas que tiveram fins trágicos - e o que restou depois dos conflitos. É tudo bastante visual e durante a leitura, me imaginei andando pelas ramblas e pela Avenida del Tibidabo, bebendo um café no Els Quatre Gats, avistando o castelo de Montjuïc, encontrando a livraria Sempere & Filhos na rua de Santa Ana, etc. Realmente, uma viagem.

📖 O Cemitério dos Livros Esquecidos
Claro que não poderia fazer uma lista de coisas que adoro em A Sombra do Vento e deixar o fascinante Cemitério dos Livros Esquecidos de fora. No começo da história, após o enterro de sua esposa, o senhor Sempere apresenta o lugar à Daniel, que encontrará o livro que irá mudar a sua vida. O lugar é uma enorme biblioteca com todos os livros do mundo escondida em um labirinto debaixo de Barcelona e são poucas as pessoas que sabem a sua localização. É um santuário para os livros, que contém a alma de quem os escreveu e também de quem os leu. O Cemitério dos Livros Esquecidos aparece nos outros livros da série, mas é aqui, através dos olhos do pequeno Daniel, que o visitamos pela primeira vez.

7 de março de 2018

A Filha Perdida (Elena Ferrante) • BOOK REVIEW

Sobre o que é?
Leda, uma professora universitária que, aos 47 anos e aliviada por suas filhas já serem adultas, decide tirar férias no litoral da Itália. Lá ela acaba acaba se fascinando por uma grande família napolitana, especialmente por Nina, uma jovem mãe, e sua filha. Ao passar dias observando as interações dessas pessoas, ela reflete sobre sua vida e suas escolhas, e pela primeira vez se sente livre.

O que eu mais gostei?
Em primeiro lugar, sem sombra de dúvidas, a escrita bastante fluida de Elena Ferrante. Sem me dar conta, estava completamente envolvida pela história e bastante curiosa para saber qual seria o desenrolar dos acontecimentos. Ainda que seja uma escrita que considerei bem descritiva em alguns momentos, não se torna algo enfadonho que deixa o leitor cansado. 

Também gostei de como a autora apresenta um outro olhar a respeito da maternidade. Um olhar com o qual não estamos muito acostumados a esbarrar pela literatura e que mostra o lado "feio" e que parece sempre ser escondido e pouco comentado. Leda, apesar de amar suas filhas, não gosta de ser mãe e de como a sociedade impõe esse papel às mulheres. O livro nos faz perceber o quanto a maternidade ainda é algo sobre o qual pouco se fala de forma completamente aberta, revelando todos os seus aspectos positivos e negativos. Gostei de como a autora chama atenção para o fato de que a partir do momento que uma mulher se torna mãe, a percepção geral - e completamente errônea - é a de que esta é a sua única função e que todo e qualquer interesse e anseio que ela possa ter tido até então deixa de existir. Em outras palavras, a sociedade anula a mulher quando esta se torna mãe.

O fato de a protagonista não ser necessariamente uma pessoa agradável também merece destaque. Leda não se arrepende de suas escolhas e de atitudes vistas pela maioria como questionáveis. Ela tem certeza de quem é o do que quer e não irá se desculpar por isso. Como disse, pode parecer bastante desagradável e egoísta, mas gosto do caráter transgressor e - por que não? - empoderador que esse comportamento confere à personagem.

O que pode ser motivo para não gostar?
A sensação de ler páginas e mais páginas com muitas palavras e pouca coisa dita. Elena Ferrante toca em questões importantes, bastante válidas e muito importantes para a realidade feminina. Porém, todo o fluxo de consciência de Leda se torna bastante repetitivo depois de um tempo e isso me fez perder o interesse pela leitura. Sinceramente, fiquei surpresa por isso ter acontecido, já que o livro é, na verdade, uma novela e não tem nem 200 páginas. Também fiquei com a sensação de que a narrativa construiu um suspense - possivelmente com algum simbolismo que permaneceu oculto para mim - que no fim, não levou à nada e, de certa forma, não teve utilidade alguma. 

Em um âmbito mais pessoal, ainda que o livro aborde um tema relevante, para mim a novidade foi nula e a sensação foi a de encontrar mais do mesmo. É possível que essa sensação tenha menos a ver com o livro e mais a ver com a expectativa geral criada por conta da repercussão das obras da autora pela internet. Talvez eu tenha exagerado em minha vontade de amar Elena Ferrante e, por isso, quebrei a cara. Sigo sem entender o hype - que, aliás, é mais um motivo para não gostar, já que expectativas estragam praticamente tudo.

Recomendo para quem?
Pessoas que tenham muito interesse em Elena Ferrante, pessoas que busquem um olhar diferente do convencional a respeito da maternidade e pessoas que gostem de narrativas envolventes.

Eu as amava demais e achava que o amor por elas impedia que eu me tornasse eu mesma.