9 de agosto de 2015

Middlesex (Jeffrey Eugenides)


Em Middlesex o leitor é apresentado à Cal Stephanides, americano de origem grega que vive em Berlim e decide contar a sua história. Nascido Calíope Stephanides, Cal renasceu como um rapaz adolescente na década de 1970, mas antes de chegar a este momento de sua existência, ele decide voltar até o período de seus avós, quando estes ainda viviam na Grécia.

Desdêmona e Esquerdinha Stephanides são irmãos e após a morte de seus pais e a invasão Turca do vilarejo em que viviam, partem para os Estados Unidos em busca de melhores perspectivas para o futuro, iniciando uma nova vida como pessoas casadas. Após a chegada ao novo país, eles passam a morar com uma prima na Detroit dos início do século XX, testemunhando acontecimentos históricos como a consolidação da Ford Motors, a Lei Seca e a Grande Depressão de 1929. Anos mais tarde, Milton - o filho de Desdêmona e Esquerdinha - se casa com sua prima, Tessie, e é desta união que nasce Calíope. Logo no início de sua história, Cal explica que a origem da mutação genética que fez com que ele nascesse hermafrodita é resultado das relações incestuosas em sua família.

Por meio de uma narrativa marcada por simbolismo, Jeffrey Eugenides apresenta ao leitor não só uma história sobre busca e construção de identidade e renascimento, mas também uma saga familiar que percorre o século XX. Antes de Calíope nascer, os Stephanides já precisavam lidar com a questão da identidade por serem imigrantes gregos em um país de cultura diferente e marcado por muita diversidade cultural. Milton, por ser o primeiro da família a nascer nos EUA, não se sente tão conectado às tradições gregas, de forma que as ações que realiza ao longo da história (lutar na Segunda Guerra Mundial, decisão de morar em uma grande casa nos subúrbios, transformar o restaurante da família em uma típica lanchonete americana, entre outros) o transformam no modelo tradicional do homem americano.

Calíope, completamente distante dos costumes e valores de sua avó, tem sua busca por uma identidade relacionada à sua sexualidade, ao fato de ter sido criada como uma menina, quando sempre se sentiu como um menino. É interessante apontar que quando ela percebe que é um menino e resolve se assumir da mesma forma é justamente durante o período em que os Estados Unidos colhem os frutos da contracultura e dos movimentos hippies, que defendiam a ideia de liberdade. 

A narrativa feita por Cal de forma não linear, marcada por referências à mitologia, tragédias e comédias gregas, é cíclica, ou seja, ecoa acontecimentos. Podemos perceber esta característica quando observamos as relações de Desdêmona com Esquerdinha e de Tessie com Milton. Há também uma situação vivida por Esquerdinha e seu cunhado que se repete com Milton quase no final do livro. Em termos de escrita, a leitura flui bem, porém, Cal não é exatamente o tipo de narrador direto. Ele se alonga em suas descrições históricas, o que pode ser considerado enfadonho para alguns, ainda assim, não chega a ser algo que atrapalhe a experiência de leitura. Middlesex é um livro que exige tempo, não por ser complexo, mas por ter muitas páginas. Meu conselho é não se pressionar para ler rápido e se deixar levar pela narrativa. 

Apesar de ter gostado do fundo histórico e da ideia de contar uma saga familiar (aliás, os membros da família são bastante peculiares. Desdêmona merecia um livro só para ela), o que mais me atraiu para o livro foi o fato de o protagonista e narrador ser hermafrodida. E justamente por isso esperava maior aprofundamento do autor neste aspecto, principalmente na última parte do livro, o que não aconteceu. Dessa forma, fiquei com a impressão de que o livro, com seus dois principais focos (Cal e sua busca por identidade e a história de imigrantes nos EUA) só entrega completamente um deles. Ainda assim, gostei de ter lido a obra, que se mostrou interessante e divertida em muitas partes, apesar de não ter atendido minhas expectativas. Não sei se indicaria Middlesex como um primeiro contato com o autor; acredito que As virgens suicidas, por ter menos páginas e trazer um enredo intrigante, funcione melhor como porta de entrada.

Esta leitura também é parte do desafio The Rory Gilmore Reading Challenge.



7 de agosto de 2015

Sobre o preconceito em relação ao Brasil | Vida de Leitora #13


Esta semana concluí a leitura de Til, clássico do Romantismo Brasileiro escrito por José de Alencar. A decisão de realizar a leitura surgiu depois de assistir ao vídeo da Tatiana Feltrin, que me convenceu a dar uma chance para uma obra que, provavelmente, jamais atrairia o meu interesse de outra forma. Digo isso porque José de Alencar figurava na minha lista de autores mais detestados, decisão que resultava diretamente dos anos de Ensino Médio. Odiei tanto Iracema que até hoje, só de pensar no livro, sinto um tipo de arrepio sinistro. Assim, não só me surpreendi por ter decidido ler outra obra de Alencar, mas também por ter adorado a leitura a ponto de considerá-la uma das favoritas do ano! 

Esta experiência reveladora me fez perceber o quão receosa ainda sou em relação aos clássicos brasileiros. Não, a melhor palavra é preconceituosa. É, isso aí, eu, Michelle, tenho preconceito com os clássicos nacionais e isso não faz o menor sentido porque eu adoro ler clássicos, principalmente aqueles escritos no século XIX. Ainda não sei apontar a origem do meu preconceito, mas tudo me leva a crer que boa parte dele surgiu por conta daquela história de leituras obrigatórias (que já discutimos aqui) e daquele hábito horroroso que quase todos nós, brasileiros, temos de sempre olhar para as nossas produções culturais com cara feia e nariz torcido, sempre esperando o pior. 

Ao ler Til, percebi que clássicos brasileiros são clássicos como quaisquer outros; têm a sua importância e o seu valor por representarem um povo e um período, sobrevivendo aos séculos até chegarem a nós. É importante saber sobre o passado para que possamos compreender o porquê de sermos como somos e aprender com nossos erros e acertos. Dito isto, através da leitura dos clássicos podemos enxergar o ser humano de outro tempo e analisar as diferenças que sua sociedade tem em relação à nossa. É muito legal perceber que sei um pouco sobre as sociedades inglesa, americana e francesa do passado; mas por que não penso o mesmo quando penso na minha, na sua, na nossa sociedade brasileira?

A Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, fez um vídeo ótimo questionando o fato de, na maioria dos casos, priorizarmos os livros estrangeiros e apresentando motivos para também lermos literatura nacional. E de todas as muito válidas razões, a que mais dialogou comigo foi a de que quando lemos livros nacionais estamos lendo sobre a nossa realidade, sobre nós, sobre o nosso país. E aí, comecei a pensar com meus botões: de que me adianta entender diferentes sociedades do mundo se não compreendo nem a minha? Isso mesmo, sou brasileira há 25 anos e o que sei do meu país é a realidade de classe média privilegiada de São Paulo. E, obviamente, o Brasil é bem mais que isso. 

Por favor, entendam que com isso não quero dizer que todos devem ler todos os clássicos; falo deles porque estão de acordo com o que eu gosto de ler, mas tudo isso se aplica à literatura brasileira em geral. Percebo que hoje - na verdade, acho que sempre foi assim - há um grande prazer geral em falar mal do Brasil e dos milhares de defeitos que este país tem, sempre comparando com a realidade de países de primeiro mundo. Não, nosso país não é perfeito; aliás, está muito longe disso e muita coisa precisa mudar para que consiga chegar perto de outros países. Penso assim: se vamos criticar algo, precisamos tentar conhecer melhor o objeto de nossas críticas. Não basta se basear apenas em algum conteúdo jornalístico tendencioso, ou em correntes mentirosas compartilhadas pelo Facebook e pelo Whatsapp. É necessário se informar e exercer o pensamento crítico.

Não é segredo para ninguém que a literatura ajuda muito no desenvolvimento do pensamento crítico; e mais que entretenimento, ela nos permite acessar o conhecimento. Assim, por meio da leitura dos clássicos nacionais – e dos livros contemporâneos também! -, não só podemos encontrar histórias interessantes e divertidas, mais também entender a História do Brasil e os acontecimentos que levaram ao momento que vivemos.

Escrevi este texto enorme (se você conseguiu chegar até aqui, muito obrigada e meus parabéns!) para tentar explicar que quero valorizar mais a produção cultural brasileira (em especial, a literatura) porque ela é um retrato do país e dos cidadãos que nele vivem. Isso significa que vou adorar tudo o que eu ler? Não, afinal de contas não sou obrigada a isso. Mas será muito mais fácil encontrar coisas de que eu goste se me livrar do preconceito e encarar tudo com uma mente mais aberta. Se eu não fizesse isso, jamais saberia que José de Alencar escreveu um livro que me agradaria e quem sairia perdendo seria eu, certo?

Texto originalmente publicado na coluna Literalmente Falando, do blog Literature-se.

1 de agosto de 2015

Assassinato no campo de golfe (Agatha Christie) | Hercule Poirot, livro #2



Assassinato no campo de golfe, é o terceiro romance de Agatha Christie e o segundo com o famoso detetive belga Hercule Poirot. Narrado em primeira pessoa pelo capitão Hastings, o mistério tem início quando Poirot recebe uma carta de monsieur Renauld, um milionário sul-americano que solicita os seus serviços com bastante urgência e lhe informa, sem muitos detalhes, que a sua vida está em risco. Intrigado, Poirot resolve partir para a França, onde seu futuro cliente vive. Ao chegar, ele nota que há algo de errado e é logo informado de que monsieur Renauld está morto. Fora assassinado na última madrugada com uma punhalada nas costas e seu corpo fora deixado no campo de golfe próximo a sua residência.

Surpreso e com a impressão de que há algo muito familiar neste caso, Poirot, fazendo uso de suas "células cinzentas", irá juntar as peças do quebra-cabeças que era a vida de monsier Renauld, buscando por motivos e suspeitos até que chegue ao verdadeiro culpado. Mas antes ele terá que enfrentar depoimentos contraditórios de pessoas que conheciam e conviviam com a vítima, além da presença de Girauld, um renomado detetive francês com métodos de investigação bastante questionáveis e que parece determinado a chegar à uma conclusão sobre o caso antes de Poirot.

***

Com uma narrativa envolvente e intrigante - como já era de se esperar da Rainha do Crime -, Assassinato no campo de golfe é um dos casos que mais gostei de ler. A investigação é cheia de detalhes, pistas (verdadeiras ou não) e personagens que prendem a atenção, o que torna impossível largar o livro até que o desfecho seja revelado. O caso, creio que um dos mais complicados que Poirot já encontrou, traz muitas reviravoltas, de forma que a chance de ser surpreendido no final é muito grande. Confesso que, como sempre, tentei investigar junto e errei. Aliás, mesmo com todas as pistas, não cheguei nem perto de descobrir o verdadeiro culpado. Ah, é neste livro que uma personagem é introduzida na vida do capitão Hastings.

A minha edição é a mais recente lançada pela editora Globo Livros, que traz uma capa bem bonita e atraente para os novos leitores, além das amadas páginas amareladas. A diagramação é satisfatória, assim como o tamanho da fonte. Porém, vale atentar para o fato de que alguns erros de revisão passaram. Ainda assim, não chega a ser algo que vá atrapalhar a leitura. 

Por fim, fica aqui mais uma dica de um livro bem legal da Agatha Christie e que, creio, pode funcionar muito bem para aqueles que nunca tiveram contato com o trabalho da autora.

31 de julho de 2015

O Gigante Enterrado (Kazuo Ishiguro)

Quando comecei a fazer parte da comunidade booktuber vários autores se tornaram de meu conhecimento, ainda que nunca tivesse lido nada que tivessem escrito. Um destes autores era o japonês Kazuo Ishiguro, famoso pelo livro Não me abandone jamais (2005). Finalmente pude ter contato com a sua obra e o livro escolhido foi O gigante enterrado, primeiro lançamento do autor em dez anos e publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Em O gigante enterrado - uma mistura de fábula e épico de fantasia - somos transportados para um passado mítico e lendário, na Idade Média de poucos anos após a morte do rei Arthur, em um contexto marcado pelos povos bretão e saxão, ogros, pássaros gigantes e fadas. Quando a história tem início, é um momento de paz entre os povos e o leitor é apresentado a Axl e Beatrice, um casal de idosos bretões que decidem abandonar a aldeia em que vivem para ir ao encontro de seu filho - de quem não se lembram muito bem e com quem já não têm contato - em uma aldeia vizinha.

A região foi afetada por uma misteriosa névoa que faz com que a população sofra de um tipo de amnésia coletiva. Pessoas desaparecem e ninguém parece notar; discussões ocorrem e ninguém entende o porquê. Ao se sentirem negligenciados na comunidade da qual fazem parte e com um objetivo em mente, Axl e Beatrice saem em sua nova jornada e têm seus caminhos cruzados por uma série de personagens - incluindo um guerreiro saxão e um cavaleiro arthuriano - e acabam se envolvendo em uma missão que inclui monges malignos e a destruição de uma grande ameaça: um dragão.

O livro é dividido em cinco partes, com capítulos narrados - em sua maioria - em terceira pessoa e que apresentam as perspectivas de diferentes personagens. Apesar de bem escrito, trazer metáforas e fluir com facilidade, confesso que tive problemas com o texto de Ishiguro, que durante as primeiras 200 páginas me manteve presa à leitura, mas que depois começou a me incomodar por conta de uma narrativa que se tornou arrastada e repetitiva. Houve um momento em que não aguentava mais ler os diálogos entre Axl e Beatrice afirmando que iam encontrar seu filho na aldeia vizinha, ou que não se lembravam de uma determinada discussão que tiveram. O mesmo vale para os devaneios enfadonhos de Sir Gawain acerca de seu tempo como cavaleiro do rei Arthur.

Quanto aos personagens, não sei até que ponto gostei deles, porque todos me pareceram bastante unilaterais e sem profundidade, de forma que, mesmo em um universo fantasioso, não consegui acreditar neles. Ainda assim, torci por Axl e Beatrice e fiquei intrigada com Winstan (meu personagem preferido) e Edwin; o mesmo não digo em relação a Sir Gawain, que de uma forma geral, achei bastante irritante. 

Apesar de meu descontentamento com alguns aspectos, acho importante ressaltar que o livro trata de temas universais - como a perda da memória (tanto no aspecto literal, quanto de forma mais simbólica, como quando o tempo passa a parte da história é esquecida), a guerra e suas consequências, a morte e o arrependimento - e deixa margem para diversas reflexões. E ainda levanta uma questão interessante:

O que é melhor: apagar/esquecer o passado e viver feliz ou saber a verdade, recobrando lembranças dolorosas, e ter que viver com as consequências desta decisão?

Por fim, gostei da leitura de O gigante enterrado, mas não sei se foi uma escolha sábia para iniciar o meu contato com o autor, já que esta foi a sua estreia no gênero de fantasia. Ainda que com ressalvas, recomendo a leitura para aqueles que gostam de histórias de fantasia à la O Hobbit, mas com uma pitada de melancolia.

18 de julho de 2015

Os filhos de Anansi (Neil Gaiman)


Em Os filhos de Anansi – que não é uma continuação de Deuses Americanos, mas, talvez, algo como um spin-off -, somos apresentados à Fat Charlie Nancy, um sujeito bastante azarado e meio fracassado. Durante a infância, Fat Charlie se sentia constantemente humilhado por seu pai, Anansi, que o fazia passar pelas mais constrangedoras situações - que normalmente envolviam um jeito espalhafatoso de se vestir e apresentações de karaokê - e que o transformavam em motivo de piada entre os colegas de escola.

Quando o livro tem início, Fat Charlie – que abandonou os Estados Unidos e seu pai para morar na Inglaterra – vive de forma bastante medíocre, trabalhando para um indivíduo detestável em um escritório que odeia e planejando seu casamento com Rosie, cuja mãe o despreza com todas as forças do universo. Tudo começa a mudar quando Rosie lhe pede para convidar Anansi para o casamento e ele se vê obrigado a enfrentar o seu passado humilhante. 

Ao chegar aos EUA, Fat Charlie é informado de que seu pai está morto e também descobre que ele era, de fato, o deus africano Anansi. O motivo para Fat Charlie não ter poderes é porque estes haviam sido herdados apenas por seu irmão, Spider, cuja existência Fat Charlie ignorava completamente. Alguns dias depois, Spider visita Fat Charlie e transforma a sua vida em um completo caos que envolve magia, troca de identidade e seres mitológicos malignos e vingativos.

É complicado definir o tipo de história presente em Os filhos de Anansi, visto que há uma mistura de diferentes gêneros. Há elementos de fantasia, comédia, sobrenatural e, de acordo com o próprio autor, thriller. A narrativa é simples e flui muito bem, principalmente no início. Os títulos dos capítulos, além de divertidos, combinam com o tom da história, que está carregada do humor característico do texto de Neil Gaiman.

Meu problema com o livro se deve ao desenvolvimento do enredo e à construção bastante falha de mundo e personagens. Durante toda a leitura fiquei com a sensação de que algo estava faltando ao livro até que me dei conta de que se eu tivesse que fechar o livro e nunca descobrir o final, não lamentaria. O fato é que não senti absolutamente nenhuma identificação com nenhum dos personagens e isto é um problema enorme, porque se não gostei dos personagens e/ou não consigo acreditar que eles existem - ainda que seja em uma obra de ficção -, fica difícil manter o interesse pela história.

História esta que, por sua vez, poderia ter sido interessante não fosse a maneira como foi executada. A impressão que tive foi a de que Neil Gaiman teve uma ideia muito boa e que fazia todo o sentido do mundo na cabeça dele, porém, na hora em que ele foi passar para o papel, alguma coisa se perdeu e o resultado foi um livro frustrante, cheio de buracos. Senti falta de uma apresentação mais detalhada do mundo paralelo/fantasioso que ele apresenta, assim como dos elementos da lenda na qual ele se inspirou para criar a história. Em alguns momentos, o autor chega a fazer uso de certa metalinguagem ao utilizar a sua história para falar sobre a criação de histórias, mas no meio de toda a confusão do enredo mirabolante, esta parte ficou meio esquecida.

Dificilmente recomendaria este livro para alguém que nunca teve contato com o autor. Para estes, ainda acho que Lugar nenhum seja uma melhor porta de entrada. Aos que já conhecem o estilo de Neil Gaiman e ficaram na dúvida em relação a Os filhos de Anansi, sugiro que não se deixem levar apenas pela minha opinião e pesquisem outras resenhas antes de se decidirem se irão ler, porque faço parte de uma minoria que não gostou da leitura.