10 de dezembro de 2016

As músicas que (talvez) mais ouvi em 2016 | RETROSPECTIVA 2016 (parte 1)


Já cheguei a comentar por aqui que gosto muito de escutar música e que levo isso muito a sério, né? Pois bem, ontem o Spotify lançou a playlist com as músicas que mais escutei em 2016 - ação que julgo equivocadíssima já que ainda é 10 de dezembro - e, obcecada por esse tipo de coisa que sou, obviamente, já tinha meus palpites e, por isso, não fiquei muito surpresa. Contudo, ao comparar a lista do Spotify com a do a Last.FM, fiquei confusa, porque os artistas são os mesmos, mas as músicas são outras. Sinceramente, acho que a lista do Spotify não tá na ordem e a do Last.FM é meio questionável, porque o scrobble tá sempre bugado.

Assim, resolvi improvisar uma lista com dez das músicas que mais escutei em 2016 até o momento. Não tenho critérios muito exatos e só garanto que não vou repetir os artistas, assim posso ser justa com quase todos que fizeram a minha vida musical mais feliz este ano. Então, sem mais delongas, comecemos.

MINHA MÚSICA, MELHOR MÚSICA.

Amo essa música e as ~good vibes~ que ela transmite, então não vou me alongar.

MINHA MÚSICA, MELHOR MÚSICA [2].

Tom Petty faz parte de um grupo de cantores sobre os quais pouco sei, mas que sinto uma alegria genuína toda vez que ouço alguma música. Acho que Refugee foi sugestão das Descobertas da Semana; escutei, gostei e, claramente, ouvi muito.

Cortesia do revival de Supernatural em minha vida. A música, que é realmente muito boa, toca no episódio do Ceifador da primeira temporada, em uma das melhores sequências musicais da série.

MELHOR MÚSICA DOS ROLLING STONES. Talvez. São questões.

QUE MÚSICA. 

As ~vibes~, a letra. QUE LETRA.

Possivelmente, uma das músicas mais bonitas que eu já escutei. Tá sempre voltando para a trilha sonora da minha vida.

Porque sim. (risos).

Fleetwood Mac, que será uma das minhas bandas preferidas, aconteceu na minha vida em 2016 e foi tudo por culpa dessa música, que tocou em um loop por dias.

***
Menção honrosa: 
Apenas porque o Breathe In. Breathe Out. tocou muito por aqui no começo do ano e eu não poderia deixar de citar - apesar do clipe (?) muito ruim.

2016, claramente um ano rocambolesco.

★

14 de outubro de 2016

Aquele sobre o meu amicão


Hoje é aniversário do meu amicão. 14 anos de pura gostosura e prepotência caninas. Um campeão! E como não poderia ser diferente, vou registrar algumas mirabolâncias do meu cérebro a respeito deste serzinho tão maravilhoso.

Scooby, meu amicão (e também filho adotivo), nasceu em 14 de outubro de 2002 e veio morar em minha residência quando tinha apenas 45 dias. O ocorrido foi um grande marco na vida desta que vos escreve pois até então, eu vivia em estado de verdadeiro pavor de cães. Meus pais já me explicaram milhares de vezes o porquê deste meu medo, mas até hoje nunca entendi muito bem. Algo a ver com um pastor alemão que morava na casa do vizinho e que latia muito alto quando eu era um bebê e me assustava pra caramba. De qualquer forma, até os meus 12 anos eu era uma pessoa que mudava de calçada para não ter que cruzar o caminho de um cachorro.

Certo dia, em um almoço na casa de amigos da família, fomos informados de que a cachorrinha deles havia tido filhotes e, como todos sabiam da minha relação com cães, me perguntaram se eu não queria tentar segurar um dos filhotinhos, só pra ver se eu não me sentia mais confortável. Foi assim que, em poucos minutos, estava eu sentada em um sofá enquanto segurava uma coisinha preta, de olhos fechados e extremamente quentinha. Fiquei assim por horas, completamente incapacitada de abandonar aquela bolinha dorminhoca que, vez ou outra, colocava uma linguinha rosa para fora e emitia uns barulhinhos agudos. Era o meu amicão. 

Naquele mesmo dia ficou decidido que assim que o pequeno estivesse um pouquinho mais velho, viria morar com a gente. Em um mês, preparamos tudo para a sua chegada: cobertorezinhos com estampa de bichinho, uma casinha com telhado vermelho, uma coleira colorida, pratos também coloridos, etc. Ah, claro, e um nome. Gostaria de dizer que há uma história super original por trás da escolha do nome, mas acho que não há nada de original em um cão chamado Scooby. Obviamente, Michelle, aquela que ama histórias de detetive since ever, não poderia escolher outro nome para seu amicão.

A primeira noite foi a mas difícil de todas. Ele sentia falta da mãe biológica, não queria dormir na casinha, não queria ficar sozinho e, durante a maior parte do tempo, ficava encolhido e/ou chorando. Coloquei a caminha ao lado da minha cama, ele latiu. Coloquei ele deitado do meu lado no meu travesseiro, ele resmungou. Cantei para acalmar seus nervos, ele nem deu bola. Chorei porque ele não dormia, ele chorou também. Por fim, decidimos que ele teria que aprender do jeito mais difícil. Scooby foi para a casinha e eu lhe emprestei Alfredo, meu falecido ursinho de pelúcia. Se Alfredo foi capaz de acalmar Michelle bebê, será capaz de acalmar Scooby filhote, pensei. Estava enganada. A noite foi escura e cheia de terrores. A pequena bolinha preta já demonstrava sua personalidade forte.

***

Eventualmente, o problema da hora de dormir foi resolvido. E aí, novos problemas surgiram. Móveis tiveram seus "pés" mordidos e arranhados. Sapatos, almofadas e toalhas foram destruídos. Ursinhos de pelúcia foram assassinados. Pobre Alfredo! Meu amicão se revelou o cão. A definição da expressão "baixinho invocado". O pesadelo dos porteiros e entregadores. Nas ruas, um ser ameaçador e traiçoeiro. Dentro de casa, um pequeno príncipe mimado. Para mim, sempre um anjo. 

***

Teve aquela vez em que resolvemos levá-lo para conhecer o mar. A descida para o litoral não foi gentil com o pequeno Belzebu, que depois de correr pelo banco traseiro enquanto latia para os reles mortais que cruzavam o caminho de sua carruagem, precisou lidar com os efeitos de tamanha agitação dentro de um carro em movimento. Passou mal. Se enrolou no tapete. A viagem foi concluída em silêncio.

Eu esperava que seu encontro com o mar se revelasse uma experiência impressionante, mas ele encarou tudo com naturalidade. Começou a andar em direção às ondas e, logo que suas patas deixaram de alcançar o chão, passou a nadar. Assim, sem mistério, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Já nasci sabendo nadar, plebeus, pensou ele, todo blasé. No mesmo dia, o anjo caído me arrastou junto com uma cadeira pelas areias da praia, enquanto agraciava todos ao redor com seu canto celestial. Decidimos não repetir a experiência. 

***

E foi desse jeito que vivemos por oito anos. Nós, fingindo que tínhamos alguma autoridade. Ele, um gênio indomável. O terror das visitas e da vizinhança. O cachorro mais bravo do condomínio, segundo alguns. Extremamente adorável quando pulava na minha cama para me acordar. Apenas para revelar toda a sua classe e elegância ao fazer xixi em mim. Esse é o meu amicão. Tão lindo, tão fofo, tão encantador.

***

Aí, veio a reforma e como meu bebê infernizava a vida dos vizinhos e dos pedreiros, precisou tirar férias na casa da minha avó, no interior. Durante meses, deixou de lado seu quintal apertado na cidade grande para ser rei de um gramado. Também se apegou bastante à vó, e ela se apegou à ele. Juntos, ele e o vô, saíam para passear e viviam aventuras. Foi então que precisamos tomar a difícil decisão. 

Eu amo meu amicão, sempre amei. Ele é um bichinho complicado, genioso, difícil de lidar. Mas amo cada traço de sua personalidade. Só de pensar nele, fico com um sorriso bobo na cara e sinto uma vontade imensa de libertar a minha Felícia interior. Quero apertar e abraçar e apertar e abraçar e esmagar. E brincar de jogar a bolinha. Fazer carinho naquela barriguinha. Morrer de amores pela manchinha branca que ele tem no peito, que parece uma gravatinha. EU AMO MUITO MEU AMICÃO. E foi por isso que, por mais difícil que tenha sido a decisão, precisei pensar no que era melhor para ele.

Eu estava no segundo ano da faculdade e só parava em casa à noite. Nos finais de semana, só estudava e fazia trabalhos. Minha irmã, prestes à encarar o vestibular, levava uma rotina semelhante e conciliava tudo com aulas de música. Meus pais trabalhavam fora o dia todo. Ainda que a casa não ficasse vazia o tempo inteiro, Scooby ficava solitário, confinado em um quintal. Ele não merecia isso.

Assim, meu filho adotivo de quatro patas saiu de casa. Como todas as despedidas (ainda que temporárias), esta foi bastante dolorosa. Mas toda vez que a dor e a saudade batem na porta, me lembro do bem que ele faz para a minha avó, de como meu avô brincava com ele e de como meu eterno bebê canino está feliz. A vida no campo lhe fez bem e hoje, Scooby é um cachorro bem mais calmo. Ainda que ele não abra mão de sua independência - acreditem, ele gosta de desaparecer por uns dias e mata todo mundo de desespero -, nunca perde a oportunidade de participar das reuniões familiares. Mesmo que para isso ele precise fazer um escândalo até que alguém o deixe entrar em casa. 

***

Meu amicão está ficando velho. Seus pelos de cor marrom estão ficando brancos e seus olhinhos já não têm o mesmo brilho. Ele também não tem mais a mesma energia. Na última vez em que nos encontramos, pude sentir o seu dilema entre tirar uma soneca ou aproveitar a companhia de todos. Ele tentou fazer os dois. Não deu muito certo e acabou caindo no sono, exausto. Ele anda meio rabugento, sem muita paciência para os cachorros mais novos. Basta que um deles se aproxime para que ele liberte seu lado trevoso e parta logo para a ignorância. 

Ainda assim, nada mudou entre nós. À princípio, ele sempre se mostra agitado, sem paciência para carinhos e mimos, como se tivesse um milhão de coisas para fazer (é bem possível que tenha mesmo, já que é o rei de tudo); mas, depois de um tempo, se derrete, emite aqueles barulhinhos dengosos, balança o rabinho, deita no chão ou no meu colo e espera pelos abraços, pelas cócegas, pelos carinhos. E ele retribui do jeito afobado dele, pulando e lambendo e latindo. Tudo meio que ao mesmo tempo. Tão bonitinho, tão meigo, tão adorável.

***
Nem consigo acreditar que já se passaram 14 anos desde que fui agraciada com a sua chegada em minha vida. No momento, só sei sentir um misto de amor e gratidão por esse pequeno ser e queria deixar isso registrado. 

Scooby, bebê, te amo imensamente. Feliz aniversário e muito obrigada por tudo. ❤

24 de agosto de 2016

Em 2016 virei directioner

(ou: Às vezes os sentimentos são os únicos fatos que importam)

Quem me conhece há algum tempo - seja na vida real ou nessa internet de ninguém - sabe que eu gosto muito de escutar música e que levo essa atividade muito a sério. De verdade, música é aquilo que chega mais perto de fazer por mim o que fé e religião fazem por muita gente. Então, sim, eu levo muito a sério o tipo de coisa que decido colocar na playlist da minha vida e, para isso, levo em consideração um critério bem razoável: a capacidade que uma música e/ou artista tem de me fazer sentir qualquer coisa. Pode ser tristeza, felicidade ou uma vontade incontrolável de balançar o esqueleto. Não interessa, o que importa é sentir. E 2016 tem sido muito feliz neste departamento, meus caros; e eu atribuo este fato a um acontecimento marcante que data do já longínquo dia 9 de fevereiro, quando eu resolvi apertar o play e me entregar de corpo-alma-e-coração à grande obra-prima musical contemporânea chamada Made In The A.M.

Senhoras e senhores, se preparem. Hoje eu vou falar sobre One Direction.

(ou melhor, vou tentar falar sobre One Direction)

Mas, calma, meu intuito neste post não é falar sobre a formação da banda e nem sobre quem é quem. Tenho certeza de que o Google pode fazer isso muito melhor do que eu. O que quero é divagar sobre os seis meses nos quais One Direction se fez uma presença obrigatória na trilha sonora da vigésima sexta temporada da minha vida e as consequências dessa ~revolução~. Porque sim, houve um impacto significativo por aqui.

Comecemos, obviamente, pelo início. Ou quase isso. Pois bem, quando One Direction se transformou em um fenômeno mundial durante a era paleozóica, também conhecida como o ano 2012, esta que vos escreve estava no último ano da faculdade de jornalismo e prestes a concluir um TCC. Como vocês devem imaginar, tinha muita coisa borbulhando no meu cérebro e, por isso, pouco me importei para o que raios poderia ser One Direction. E assim permaneci por mais alguns anos - menos a parte do TCC, claro. Vejam bem, não era preconceito, era indiferença. Até entendo que para algumas pessoas o conceito de boyband pode ser algo meio inadmissível, mas para esta ser humana que cresceu ao som de Hanson e Backstreet Boys, tudo é bem natural. No entanto, permaneci nas trevas por longos quatro anos.

Uma breve lista dos meus conhecimentos sobre 1D até fevereiro de 2016:
1 - A música do Nissim é, na verdade , What Makes You Beautiful;
2 - Um deles se chama Harry e ele tem um corte de cabelo ~estiloso~;
3 - Esse que se chama Harry é também um ex-lover da Taylor Swift;
4 - Um deles tem um filho;
5 - Um tal de Zayn já fez parte da banda, mas um dia se cansou e pediu para sair.

Porém, durante uma tarde do verão brasileiro, motivada pela curiosidade levantada por um review da Rolling Stone e do constante incentivo de Anna Vitória, resolvi dar uma chance para a banda e encontrei a luz. Meus caros, eu era muito triste e não sabia. E o One Direction foi o furacão que me tirou da vida em sépia para me jogar em Oz. Um admirável mundo novo se abriu para mim e todos os meus demônios foram exorcizados. Pode parecer exagero, mas juro juradinho que não é. Tenho certeza de que existem estudos que analisam os efeitos de One Direction em nosso organismo. Tem que existir. Basicamente, o que acontece é uma explosão de sentimentos positivos. Uma mistura muito louca de alegria alucinada e vontade de voar. É o tipo de coisa que você sente quando encontra o Peter Pan e ele te convida para ir para a Terra do Nunca com a ajuda de pó de pirlimpimpim. One Direction te faz acreditar em unicórnios.


De fevereiro pra cá, meu conhecimento sobre a banda aumentou consideravelmente e confesso que passei mais horas do que deveria assistindo entrevistas com os integrantes em programas de talk show (obviamente, os meus preferidos são os com James Corden). AND I REGRET NOTHING. E, melhor ainda, acredito que a principal característica da ~Revolução 1D~ foi abrir as portas para um mundo de possibilidades musicais. Porque desde então, já adicionei tanta coisa que jamais imaginei escutar ao meu ~repertório~ que em alguns momentos nem me reconheço. And I think that's beautiful.

***
Pensei em fazer uma lista dos motivos que me fazem amar a banda, porém, como tenho certeza de que boa parte deles teria alguma relação com a aparência dos integrantes, o comportamento deles em entrevistas e os gloriosos e brilhosos cabelos do Harry irei me ater a apenas dois. O primeiro deles é a já citada sensação de euforia insana proporcionada pela experiência que é escutar One Direction; sensação essa que não só parece ser sentida por nós que escutamos, mas também por aqueles que cantam. Basta uma rápida pesquisa por apresentações ao vivo para ter certeza de que os integrantes do 1D de fato sentem muita felicidade quando estão no palco (com exceção do Zayn nessa apresentação aqui, que só evidencia o fato de que o melhor mesmo foi sair da banda). One Direction é melhor que drogas.


O segundo motivo tem mais a ver comigo do que com o 1D. Desde que me entendo por gente, guardo no coração aquilo que amo e que amo fangirlizar a respeito. No entanto, normalmente, adoto uma postura mais ~contida~ quando pratico a fangirlização e isso tem mais a ver com a minha natureza do que com qualquer tipo de crítica à quem ama intensamente e demonstra esse amor por meio de histeria. Aliás, acho lindo que as pessoas vivam suas vidas de fandom histericamente. A vida é curta demais para a gente não se permitir ser histérico com aquilo que amamos. Acontece que eu sou uma pessoa introspectiva e, normalmente, sinto intensa e histericamente na minha cabeça enquanto por fora sustento um carão de metida-descolada-demais-para-gritar-por-motivos-irracionais. Porém, depois de seis meses nessa vida directioner, percebi que é humanamente impossível amar One Direction sem perder a linha, sem sair berrando para os quatro cantos do mundo, sem ESCREVER EM CAPS LOCK QUE ONE DIRECTION É A MELHOR BANDA ABSUVJHBUUHBSYKGNIUBEUYFBF

I know, Harry. I have absolutely no control.

One Direction é tipo aquela xícara de café que você bebe e fica ligadona por horas. Só que sem a gastrite e um tipo diferente de dor que só pode ser sentida quando há amor demais envolvido. Acreditem, everything hurts. Mas é que nem a dor de academia que a gente passa a gostar quando percebe os resultados. E, meus caros, amar One Direction só tem se provado algo 100% saudável e positivo para mim.

Há algo de muito maravilhoso e louvável na arte de fangirlizar intensamente sobre aquilo que a gente ama. Principalmente quando isso deixa a gente meio besta. E eu adoro ser besta. Mesmo sendo criança dos anos 90 e tendo vivido durante a Era de Ouro das Boybands, nunca pude mergulhar de cabeça nesse tipo de fandom. Eu era muito nova, não assistia MTV e preferia gastar meu dinheiro do cofrinho com chiclete. Mas como eu era, basicamente, a sombra da minha prima mais velha - que até hoje é muito fã do Justin Timberlake - e queria ser como ela, acabei sendo influenciada e acho que é por isso que tenho um pouquinho da essência de fangirl de boyband no meu DNA. E, de verdade, eu acredito sim que todas nós precisamos ter uma boyband do coração, sabe? É tipo um rito de passagem e agora, com o One Direction, posso me entregar à essa vida de vez. Ou não, já que a banda entrou em ~hiato~. Eu sempre sou aquela que chega atrasada para a festa.

#feelingsaretheonlyfacts

28 de junho de 2016

Norwegian Wood (Haruki Murakami) • BOOK REVIEW

Norwegian Wood, foi a minha primeira experiência com o escritor japonês Haruki Murakami; foi também um dos livros que mais me marcaram em 2016. A experiência de leitura foi intensa, cheia de anotações e reflexões, e desde o início ficou claro para mim que se tratava de uma obra que valia muito a pena. Estamos falando de uma leitura sobre memória, luto e amadurecimento.

Haruki Murakami é, provavelmente, o autor japonês mais conhecido da literatura contemporânea. Eu já tinha curiosidade em conhecê-lo desde que a trilogia 1Q84 começou a ser publicada no Brasil, quando seu nome passou a circular com ainda mais força entre as pessoas leitoras que faziam parte do meu círculo social. A dúvida era por onde começar e acabei escolhendo Norwegian Wood por um motivo curioso: o título, que faz referência direta à famosa música dos Beatles.

Somente depois da leitura descobri que o livro foi lançado no Japão em 1987, se tornando um enorme sucesso por lá e, posteriormente, conquistando leitores no mundo inteiro.

A história pertence a um tipo de narrativa que me agrada muito: aquela que acompanha a transição da adolescência para a vida adulta. O narrador é Toru, que, já próximo dos 40 anos, revive seu passado ao ouvir Norwegian Wood, faixa dos Beatles lançada em 1965 no álbum Rubber Soul, tocando em um aeroporto. A música funciona como um gatilho para memórias adormecidas, levando-o a revisitar o período entre seus 17 e 21 anos. A partir daí, a narrativa se constrói como um grande flashback ambientado no Japão do fim dos anos 1960.

Nesse retorno ao passado, conhecemos o Toru adolescente, seu melhor amigo de infância, Kizuki, e Naoko, a namorada desse amigo. Pouco depois de completar 17 anos, o amigo comete suicídio, um acontecimento que marca profundamente tanto Toru quanto Naoko. Os dois acabam se afastando, e Toru segue para outra cidade, onde inicia sua vida universitária.

O livro acompanha suas experiências nesse novo ambiente: o alojamento estudantil, o colega de quarto completamente diferente dele, as aulas, as leituras e os novos encontros. Paralelamente, acompanhamos o reencontro com Naoko e percebemos o contraste entre os dois. Enquanto Toru, ainda em luto, consegue seguir em frente, Naoko permanece profundamente afetada pela perda.

Esses momentos conferem à narrativa um tom melancólico muito forte — um dos aspectos que mais me marcaram. Norwegian Wood trata da morte de maneira recorrente, não apenas pelo suicídio, mas também por meio de doenças, envelhecimento e perdas inevitáveis. Ao mesmo tempo, aborda as descobertas e inseguranças típicas da juventude, o amadurecimento emocional e as complexidades psicológicas desse período da vida.

Grande parte do livro gira em torno da relação entre Toru e Naoko e da tentativa dele de compreendê-la. O mais interessante é perceber que essa tentativa não pertence apenas ao Toru jovem: o Toru adulto, que narra a história, também demonstra não entender completamente certos acontecimentos, revelando que algumas percepções só surgem com o passar do tempo. Esse jogo entre memória e compreensão tardia torna a narrativa especialmente rica.

No entanto, há um ponto que me incomodou bastante ao longo da leitura: a presença frequente de cenas de sexo. Em alguns momentos, elas fazem sentido dentro do processo de amadurecimento do personagem, mas em outros surgem de forma gratuita, sem contribuir para a narrativa. Essas passagens acabam quebrando o ritmo do livro e destoando do tom delicado e melancólico construído em outros trechos. Não tenho objeções ao tema em si, desde que haja um propósito narrativo claro — o que nem sempre acontece aqui.

Em relação aos personagens, gostei muito de como são apresentados. Em certos momentos, eles podem parecer superficiais, mas isso faz sentido dentro da proposta do livro: estamos acompanhando memórias narradas muitos anos depois. Com o tempo, lembranças se tornam fragmentadas, e apenas aquilo que foi mais marcante permanece nítido. Essa abordagem reforça o caráter memorialista da obra.

O grande destaque, para mim, é a escrita de Murakami. Sua narrativa é envolvente, com um ritmo muito agradável, e suas descrições — especialmente da natureza — são de uma beleza impressionante. Além disso, o livro está repleto de referências culturais, principalmente musicais. Além da canção que dá título à obra, várias músicas dos Beatles aparecem ao longo da narrativa, assim como referências literárias, entre elas Walden e O Grande Gatsby.

Apesar das ressalvas, Norwegian Wood foi uma leitura extremamente válida. Gostei quase tanto quanto esperava e considero um excelente ponto de entrada para quem deseja conhecer a obra de Haruki Murakami - mesmo que a obra seja considerada, em alguns aspectos, um ponto fora da curva na bibliografia do autor. É um livro sensível, melancólico e reflexivo, que permanece com o leitor muito depois do fim da leitura.


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Aparentemente, em 2012 o artista Grant Snider criou um bingo com os elementos mais marcantes e/ou repetidos na obra do Murakami e, apesar de Norwegian Wood destoar da obra posterior do autor, ainda assim é possível fazer "check" em algumas caixinhas:


Achei a ideia divertida e resolvi trazer para o blog; assim com cada leitura de um livro do autor, posso marcar o bingo.


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Essa leitura também é parte dos desafios:


14 de junho de 2016

Chaos And The Calm (James Bay, 2015)

29. Escolha um álbum e fale dele

Uma vez uma pessoa usou a palavra "cíclica" para me dizer que tinha fases no que diz respeito à forma como se relaciona com as diferentes formas de arte e fiquei com isso na cabeça. Desde que me entendo como alguém que deixou de ser criança, percebo que meus interesses quando busco entretenimento variam de intensidade; por exemplo: sempre gostei de filmes, televisão e livros, porém a intensidade com que me dedico à apreciação dessas formas de arte/entretenimento varia de acordo com o momento da minha vida. Esses ciclos duram anos e não há um padrão que explique o porquê de isso acontecer. E aí, tem a minha relação com a música.

Arrisco dizer que a música é uma constante na minha vida desde que meus pais escolheram o meu nome. Tenho lembranças muito antigas de momentos em que me esparramava em um tapete na sala de estar e manuseava os discos de vinil deles, pedindo para escutar. Assim, mais do que qualquer outra forma de arte, a música é aquela que mais mexe comigo, me faz sair da realidade e, claro, consegue ativar memórias que, às vezes, estavam adormecidas. Sabe aquela sensação de ligar o rádio, escutar uma música e imediatamente lembrar dos tempos de colégio, dos amigos, dos sonhos daquela época? Então, é disso que eu tô falando. E aí, lembrei de uma entrevista com a Taylor Swift em que ela fala que seus álbuns são como diários de fases de sua vida. Adorei tanto este conceito que resolvi trazer para a minha vida.

Como eu estou longe de ser talentosa como a Taylor Swift e não tenho meus próprios álbuns, resolvi adaptar isso para algo mais simples: escrever sobre os álbuns que escuto e sinto que, de alguma forma, estão marcando os momentos que vivo. Seria um registro para a Michelle do futuro, algo que ela lerá daqui cinco, dez, vinte (!!!) anos e se lembrará do que viveu hoje. O primeiro que escolhi é um que tenho escutado exaustivamente nos últimos meses: Chaos And The Calm, do britânico James Bay.

Nascido em Hitchim, Hertfordshire, em 4 de setembro de 1990, James Bay é aquele típico cara de cidade pequena que sonha em vencer na vida fazendo o que ama: música. Após anos de ~formação musical~ escutando os discos de seus pais, ele aprendeu a tocar guitarra, ingressou em uma academia de artes, adotou o chapéu como sua marca registrada e, em 2013, assinou com uma gravadora. Desde então, ele lançou cinco singles, recebeu alguns prêmios - incluindo dois Brit Awards -, e nos presenteou com Chaos And The Calm (2015), seu álbum de estreia.

E aqui peço à vocês que pausem a leitura por um instante para apreciar a beleza desse título. Chaos and the calm. Duas ideias tão contraditórias e complementares. E que têm tudo a ver com as músicas e com a atmosfera geral do álbum. Com uma sonoridade que abrange influências de indie rock, folk, blues e soul, as músicas de James Bay vão falar de suas angústias e anseios, refletindo sobre o passado e o futuro, romances que não deram certo e sobre ~a vida, o universo e tudo mais~. É um trabalho que mostra um artista seguro de si, que sabe o que quer musicalmente, mas que, de certa forma, ainda está tentando se encontrar no mundo. Olhem para essa capa, ele não parece meio perdido? Eu disse para vocês, meus caros, que os vinte e poucos são complicados. Para todos nós.

TRACK BY TRACK

Agora, se me permitem, vou fingir que faço parte da Crítica Especializada™ e tecerei alguns breves comentários no estilo faixa a faixa: 

💿 Craving
Essa é a música mais agitadinha e ~pop~ do álbum. Aqui, toda aquela coisa que eu disse sobre o James Bay ser o cara da cidade pequena com sonhos grandes faz sentido. Ele anseia por algo mais, algo que possa sentir.

💿 Hold Back The River
É possivelmente a música mais conhecida e a minha primeira favorita; mais pela sonoridade acústica-tranquila-meio-com-cara-de-John-Mayer do que pela letra, que não sei dizer sobre o que é. Rola certo arrependimento da parte do James, só não sei do que ele está falando. Meu palpite é que ele lamenta o fim de um relacionamento, como se a situação tivesse fugido de seu controle.

💿 Let It Go
Minha mais recente favorita, essa música não tem nada a ver com Frozen. Aqui, com uns trechos de guitarra bem bonitos, James vai falar sobre um relacionamento que já não estava funcionando e entrega um dos trechos mais marcantes: I used to recongnize myself,  is funny how reflections change / when we're becoming something else, I think is time to walk away. E quando eu achava que não podia ficar melhor, James convidou o Ed Sheeran (!!!) para cantar com ele. Clique aqui, assista e seja feliz!

As três próximas faixas são mais agitadinhas, mas não chegam a retomar a ~empolgação~ de Craving.

💿 If You Ever Want To Be In Love
Sinceramente, acho que James Bay poderia sentir um pouco de amor próprio. A moça, que ele conhece desde os tempos de escola, claramente não quer um relacionamento e ele sabe disso, mas afirma que estará esperando por ela se ela quiser algum dia, talvez, ficar com ele. Migo, deixa disso, vida que segue.

💿 Best Fake Smile
Gosto de pensar que essa música é o jeitinho do James Bay de dizer "não, não sou obrigado". Sabe aquele tipo de situação desconfortável com a qual a gente lida, ou pessoas desagradáveis que toleramos só para agradar os outros? Pois então, não somos obrigados.

💿 When We Were On Fire
James Bay está em um relacionamento sem sentido, que já deixou de ser o que um dia foi. Mas ele tem um anseio de que um dia os sentimentos antigos voltem. Rolam umas metáforas com sol, estrela e fogo. Sempre demoro para lembrar que música é essa, mas adoro como ela soa. 

💿 Move Together
Uma música lenta e melancólica. Mais uma vez, um relacionamento que se deteriora e tudo parece fugir do controle do James, que está tentando fazer as coisas darem certo. Todos nós já passamos ou passaremos por isso. É triste, mas a vida tem dessas. Gosto de como a letra trabalha a ideia de separação, mostrando tanto a distância física entre as duas pessoas, quanto uma distância mais emocional. 

💿 Scars
Não sei se a música é sobre um relacionamento que acabou ou sobre uma pausa em um relacionamento. Talvez seja um relacionamento à distância? Bom, o fato é que os dois estão separados e há muito sofrimento e, mesmo que eles nunca mais fiquem juntos, já estão marcados um pelo outro para sempre. #dramática Acho que o refrão é bem poderoso e deve soar bem durante um show, com todo mundo cantando junto.

💿 Collide
Acho que essa é continuação de Scars. Se for, aqui temos um relacionamento no estilo vai-e-volta-toda-hora, com os dois brigando muito e James Bay preferindo isso a ter que ver a moça partir de vez. Ele fala um pouco sobre objetos sendo estragados e afirma: we can go wild if it's what you want / fire at me. Sei lá, acho meio doentio. 

💿 Get Out While You Can
Tendo como base tudo que escutamos até agora, acho que James resolveu que estava na hora de dizer "chega". Pode ser que seja em relação ao relacionamento caótico das faixas anteriores, ou pode ser que seja em relação à cidade pequena em que vivia. O fato é que a música termina com ele fazendo as malas e se jogando na estrada, pronto para encarar o mundo.

💿 Need The Sun To Break
Essa foi a segunda que escolhi como favorita. Ela tem uma ~energia~ muito boa e imagino que uma versão ao vivo deve ser ótima. Ao contrário da sonoridade um tanto agressiva da faixa anterior, aqui as coisas são mais leves. James fala sobre as borboletas no estômago que o mantém acordado à noite e, acho, que está se apaixonando novamente. De novo temos umas metáforas com o sol.

💿 Incomplete
Novamente, muito sofrimento porque é isso que James Bay faz. Ele sofre. Aqui ele fala sobre reencontrar alguém - possivelmente a mesma moça do relacionamento vai-e-volta-toda-hora - e os dois percebem que ainda há um sentimento muito forte, mas eles precisam se separar mesmo assim, porque sabem que não vai dar certo. E aí, ele fala para serem incompletos. Eu só não sei se seriam incompletos se ficassem juntos ou separados. Acho que dá para interpretar das duas formas. Em termos de sonoridade, essa faixa mantém o ritmo da anterior e finaliza o álbum com tranquilidade. Chaos and the calm.

A versão deluxe inclui ainda mais três faixas: Running, Clocks Go Forward e Stealing Cars. São boas (e favoritas!), mas suas temáticas já foram trabalhadas em outras faixas, então, não vou comentar sobre elas. Mas, escutem sim que vale à pena.

                                                                                                                                

Este post é parte do desafio:



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