15 de dezembro de 2017

As músicas que (talvez) mais ouvi em 2017 | RETROSPECTIVA 2017


Pois bem, estamos em dezembro e é chegada a hora de dar início às retrospectivas. E como sei que nesse meu ritmo devagar-quase-parando meus posts não irão se escrever sozinhos, é melhor que comece agora, na segunda semana de dezembro. Com sorte, termino tudo antes do carnaval. Hoje trago um aquecimento, no qual repetirei algo que fiz no ano  passado.

Ao contrário do que aconteceu em 2016, dessa vez eu não tenho muita noção de como foi o meu ano musical. Consigo ter uma ideia dos artistas que mais escutei e álbuns favoritos, mas não fiquei ~controlando~ tudo, analisando as estatísticas do Last.FM e coisas do tipo. Ou seja, vou descobrir no calor do momento de distribuir os troféus e elaborar os posts, claro. E como foi só ontem que parei para escutar a playlist que o Spotify criou com os maiores sucessos da vigésima sétima temporada da minha vida - depois de praticamente todas as pessoas que habitam nosso planeta Internet -, irei compartilhar minhas descobertas com vocês que acompanham esta prestigiosa publicação listando as dez músicas mais escutadas por mim. Novamente, não posso afirmar que as informações do Spotify são 100% exatas e como adoro ~inventar moda~, irei montar a lista utilizando também as estatísticas do Last.FM e os meus excelentes critérios de seleção que se baseiam nas seguintes regrinhas: 1) não posso repetir artista e 2) não posso repetir as mesmas músicas de 2016. Agora, sem mais delongas, senhoras e senhores, vamos à minha fabulosa lista de músicas possivelmente mais escutadas em 2017!
ÓBVIO. Harry me lembrando desde abril que é para parar de chorar, porque o mundo tá acabando e a gente tem que fugir. Obrigada por existir, Harry. ❤

Não consigo pensar em outra coisa para dizer sobre essa música que não seja um sonoro e enfático QUE HINO! 'Cês já experimentaram escutar essa música com fones de ouvido, com um volume bem alto e de olhos fechados, de preferência em um dia bem estressante? Recomendo que façam isso pelo menos uma vez na vida porque a sensação é a da mais profunda #paz.

Crise existencial e no meio da madrugada precisa de uma trilha sonora apropriada e essa obra-prima do Fleetwood Mac (MELHOR BANDA) é perfeita. Escutei tanto a versão do disco de 1975, quanto a versão ao vivo em The Dance e acho as duas transcendentais, principalmente a última. Sinto que não enaltecemos Lindsey Buckingham o suficiente pelo que ele fez com essa música em The Dance.

Só sei que na virada do ano, um tanto alterada, fui dormir escutando música e quando acordei, era essa música que estava tocando. Não sei como cheguei à ela, só sei que fui impactada e, aparentemente, escutei uma quantidade razoável de vezes. Até agora não parei para prestar atenção na letra e na mensagem da música, mas gosto bastante.

ED SHEERAN VOLTOU, MINHA GENTE! De todas as músicas do álbum mais recente dele, essa foi a que eu mais gostei e me surpreendi muito com isso porque achei aquela prévia acústica bem sem graça. Adooooro a introdução e acho o refrão ótimo!

Novamente surpreendida por essa mulher, porque eu achei essa música nada além de HORROROSA da primeira vez que escutei e xinguei muito no Twitter. Porém, depois de alguns dias - e de um ótimo clipe -, a música ganhou um espaço no meu coração completamente Swftie. Obrigada por existir, Tay-Tay. ❤

Olha, não fazia ideia de que tinha escutado tanto assim porque não é como se eu fosse louca-obcecada por essa música. Porém, ela está na minha playlist roqueira, que me acompanhou bastante nos fatídicos dias de treinos na academia.

Tive uma fase power ballads de roqueiros farofentos dos anos 80, um gênero extremamente sentimental e que eu acho que deveria ser analisado, pois muitíssimo ótimo. Essa música é um chororô piegas and I think that's beautiful. E o clipe, meus caros, o clipe. Vejam o clipe.

MINHA MÚSICA, MELHOR MÚSICA! Eu ainda não acredito que justamente no ano que decidi ~aprofundar os meus conhecimentos~ sobre Tom Petty, ele nos deixou. Escutem Tom Petty, gente.

Praticamente uma música do Fleetwood Mac e não tinha como eu não gostar. A melodia, as harmonias e a atmosfera geral da música são uma delícia e fazem a gente querer se apaixonar só para escutar essa música em loop eterno enquanto contemplamos as nuvens.

***

Menção honrosa: 
Porque apesar de ser música de mãe e de sala de espera, só eu sei o quanto passei a amar o álbum que esse ser humano lançou em 1984. Bryan Adams merecia mais de todos nós.

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6 de setembro de 2017

Dark Side of The Moon (Pink Floyd, 1973)

6. Um álbum que mudou a forma que você pensa sobre música

Lembro de certa vez ter lido em algum lugar que, de todas as formas de arte, a música é aquela mais universal, mais acessível e mais identificável. E que também é a mais inexplicável, ou algo do tipo. Com certeza (?), está entre as mais antigas e deve ser por esse motivo que é considerada todas essas coisas que acabo de mencionar. Não sei até que ponto concordo com essa visão em termos mais gerais, mas quando falo exclusivamente de mim - e, convenhamos, este espaço aqui é todinho meu -, digo que é 100% verdadeira. Música é o tipo de coisa sem a qual não posso viver. Sério. Consigo me imaginar sem poder assistir filmes e espetáculos de teatro, sem poder visitar museus e exposições e até sem poder ler; mas jamais, sob hipótese alguma, consigo me imaginar vivendo em um mundo onde eu não tenha a possibilidade de escutar música.

Não sei se essa é uma noção que carrego comigo desde que nasci ou se foi algo que surgiu conforme fui me desenvolvendo como pessoinha. Talvez seja porque tive aulas de música na escola, ou talvez meu destino tenha sido traçado no momento em que meus pais resolveram me batizar com nome de canção. É possível que seja um pouco dos dois. Ou não. Tem coisas que são meio inexplicáveis mesmo. O que eu sei com certeza é que só me dei conta de que funciono desse jeito quando estava na adolescência, que também foi quando iniciei a minha formação como gente-que-escuta-música. Foi nessa fase que comecei a expandir meus horizontes, indo além daquilo que escutava apenas por influência de familiares e pessoas próximas e que nem sempre tinha muito a ver com meu interesse pessoal. Não que eu questionasse aquilo que estava escutando; para ser sincera, nem prestava muita atenção. Até que, de repente, comecei a prestar. Jamais saberei como aconteceu.

Era a primeira década dos anos 2000, a internet 2.0 engatinhava e a minha principal fonte de informação era a MTV. Só Deus sabe quantas horas da minha vida foram investidas na programação da emissora, mas eu estimo que tenham sido muitas. Até hoje, quando me lembro de alguma informação aleatória sobre algum vocalista obscuro de alguma banda igualmente obscura dos anos 80, sei que foi lá que aprendi. Os VJs, detentores de grande sabedoria, eram meus gurus e sob sua orientação, comecei minha jornada rumo à iluminação. Foram muitas degustações auditivas, que resultaram em experiências positivas, desagradáveis, passageiras, marcantes ou definitivas. Era tudo muito rocambolesco também, arquivos .mp3 completamente desconexos reunidos na mesma pastinha do player esperando o shuffle fazer a mágica acontecer.

Foi nessa época que escutei o nome Pink Floyd pela primeira vez e gostaria de dizer que tenho alguma história interessante a respeito, mas não. A real é que, assim como muitas das informações e estímulos bombardeados para o meu impressionável cérebro adolescente, o Pink Floyd caiu no limbo dedicado às informações inúteis que permanecem adormecidas até que um momento oportuno se apresente. No caso, ficou lá até 2007, quando graças ao finado e saudoso Orkut, descobri que uma das minhas músicas preferidas da trilha sonora de Os Infiltrados se chama Comfortably Numb (The Wall, 1979), que foi rapidamente baixada via eMule e exaustivamente escutada por aquela minha versão que não entendia muito bem o que raios era um álbum conceitual e nem se esforçou para pesquisar. A lerdeza era tanta que não me dei conta de que a versão que toca no filme não é a mesma que eu escutava e amava sem perceber, já que achava tudo muito estranho. Porque é assim que ocorre a conexão com o Pink Floyd: a gente não percebe que está vivendo um relacionamento, pelo menos não no começo. É tudo tão esquisito, sombrio e angustiante, que a única reação possível é o estranhamento. Inocente, mal sabia eu que ao encontrar um paradoxal conforto em uma música perturbadoramente chamada Comfortably Numb, estava tendo um vislumbre do que seria a vida adulta e, claro, o significado sagrado do Pink Floyd para mim. Não que eu possa me culpar pela ingenuidade de quem ainda nem tinha começado a viver. Não que eu possa condenar alguém por encontrar algum tipo de consolo na voz suave e no solo de guitarra transcendental do David Gilmour. Como poderia?

Foi em algum momento do ano de 2008 que decidi, sem muita explicação, começar uma pesquisa sobre o Pink Floyd, que até então, era apenas uma banda one hit wonder do meu MP4 Player retangular. E por meio daquela que eu considerava a fonte mais confiável da world wide web, Wikipedia, comecei a me informar e a tentar armazenar conhecimentos sobre a banda no meu cérebro. Não demorei para perceber que quando falamos de Pink Floyd, não dá muito para sair memorizando nomes de singles e vocalistas. Quer dizer, até dá, os nomes e números estão aí para serem consultados. É só que essa lógica de se deixar guiar por eles não é muito justa com o que, de fato, é o Pink Floyd. Estamos falando quase que de uma entidade. Lembro que, de tudo o que li sobre a banda durante aqueles primeiros contatos, o que mais me impressionou e fascinou foi tragédia de Syd Barrett, o gênio criativo por trás da fundação da banda, que definhou enquanto perdia a razão até que, de fato, sucumbiu à loucura. Já tinha lido sobre músicos que morriam inesperadamente em acidentes ou que tiravam suas próprias vidas, com ou sem intenção. Mas jamais havia passado pela minha cabeça a noção de se perder dentro de si à ponto de deixar de existir, ainda que, tecnicamente, ainda se exista. Syd Barret começou a declinar em 1968, mas só partiu em 2006. Sinto arrepios só de imaginar como devem ter sido os 38 anos no meio disso.

Com esse estranho fascínio, porém com um pouco de receio e - por que não? - medo de escutar as palavras desta mente atormentada, resolvi que só queria e precisava conhecer o Pink Floyd de Roger Waters, cujo primeiro e, talvez, principal expoente (são questões) é o icônico álbum com um prisma na capa: Dark Side of the Moon. Lançado em 1º de março de 1973, além de ser claramente pisciano, o álbum explodiu a minha cabeça e, não só mudou completamente a maneira como eu pensava sobre música, como transformou a minha vida, a maneira como eu enxergo a humanidade e o mundo. Sem que eu percebesse, estava sendo impactada por aquele que considero o melhor álbum já feito e, indiscutivelmente, o meu disco preferido de todos os tempos.

Já deixo claro que não irei me aprofundar a respeito dos aspectos técnicos do álbum e muito menos me propor a escrever algum tipo de crítica, análise, etc. Para tudo existe um limite e um dos meus começa quando o assunto é a discografia do Pink Floyd. Ou boa parte dela, pelo menos. Sem sombra de dúvidas, The Dark Side of the Moon entra na minha categoria de coisas intocáveis e sagradas. Para todos os efeitos, direi que ele foi revolucionário e figura na lista dos 1001 discos para ouvir antes de morrer. Altamente recomendável. Para mais informações, joga no Google.

O que quero, por meio deste textão é tentar explicar o porquê de eu considerar este álbum algo tão primoroso, que me toca profundamente e com o qual me identifico. Também quero atender à proposta original do post e explicar a forma como Dark Side of the Moon mudou a minha maneira de pensar sobre música. Vou conseguir? Não sei, vou tentar.

Creio não estar equivocada ao dizer que 99% das pessoas, ao escutar o Dark Side of the Moon pela primeira vez, ficam com cara de pastel e sem entender muito bem o porquê do hype todo. Eu, com certeza, fiz isso e jamais me esquecerei da reação de uma amiga que tinha na época que, depois de atender aos meus pedidos para que escutasse essa obra-prima, olhou bem na minha cara e mandou um sonoro EU ODIEI O DARK SIDE OF THE MOON! Oh, to be young and innocent! Não que eu a possa julgar muito. Mesmo não sendo o tipo de pessoa que sai por aí odiando as coisas, minhas primeiras reações após escutar o disco passam longe da adoração, do amor incondicional, da profunda identificação e da transcendência. A princípio, aquelas músicas não passavam de ruídos aleatórios e pirações com efeitos eletrônicos; o tipo de coisa que só poderia ser feita por gente sob o efeito de substâncias em uma época em que fazer esse tipo de coisa te dava a garantia de ser visto como descolado. Não vou mentir, é possível que eu tenha achado o Pink Floyd e seus fãs um tanto pedantes. Quer dizer, como assim vocês consideram o som de relógios disparando alarmes e caixas registradoras como música e chamam isso de arte? Sem mencionar a mulher histérica e a risada perturbadora que me causou calafrios quando escutei Brain Damage pela primeira vez em um quarto escuro, alguns instantes antes de dormir. Nada, absolutamente nada, no álbum fazia sentido.

Porém, ao contrário do que aquela voz no fundo da minha cabeça me dizia, não consegui sentir algo de negativo em relação ao Dark Side of the Moon. Ainda que incapaz de compreender o que raios se passava pela mente de Roger, David, Nick e Rick quando resolveram conceber um projeto tão peculiar, algo ali me atingiu, me intrigou e, louca que sou, não consegui parar de escutar. Criei um ritual quase diário de escutar o álbum, sempre à noite ou em algum momento em que sabia que estaria sozinha e não seria interrompida. Ninguém me disse que era assim que se deveria proceder ao escutar Pink Floyd, contudo, estava óbvio que era assim que as coisas deveriam ser feitas. É um daqueles casos em que a gente simplesmente sabe. Durante um ano, o estranhamento gerado pela banda se misturou com aquilo que soava mais amigável aos meus ouvidos e, de alguma forma, fui encontrando algum ponto de equilíbrio musical, mesmo que ainda me fosse impossível entender exatamente sobre o que eram aquelas músicas. Vejam bem, eu já sabia falar inglês e entendia as palavras cantadas; o problema era compreender a mensagem, o real significado. Se é que podemos atribuir um único significado à inigualável trabalho.

Falar sobre Dark Side of the Moon é um troço complicado para mim. É aquela velha história de encontrar dificuldade para colocar em palavras os sentimentos que surgem a partir de algo que nos é tão caro e próximo. É difícil de explicar, as frases não fazem sentido para além da minha cabeça e, sinceramente, nem sei se deveriam. Existem coisas que estão aí para que sejam sentidas e, muitas vezes, não precisam vir acompanhadas de alguma explicação verborrágica. E talvez seja por isso que gosto tanto do álbum, porque ao mesmo tempo em que ele pode soar bastante esquisito e confuso, também faz todo o sentido do mundo. É um álbum complexo e, por mais que eu não goste muito de utilizar esta expressão, é a única que me ocorre no momento. Contudo, quando digo que é complexo, não digo que é inacessível, muito pelo contrário. Penso que se existe um trabalho que fala tão diretamente com a essência da mente humana - principalmente nos tempos em que vivemos - , este trabalho é Dark Side of the Moon. Por isso que o defino como complexo, nós somos complexos também. E tentar entender o álbum é, ao mesmo tempo, tentar nos compreender. E, francamente, essa é uma tarefa difícil pra caramba.

Em seu ensaio Vivendo Pink (publicado na coletânea Pink Floyd e a filosofia, organizada por George A. Reisch), Steven Gimbel discorre à respeito do impacto do Pink Floyd na vida de quem o escuta e de como sua música é carregada de existencialismo. Ao cunhar a expressão estar pink para descrever um estado de espírito que atingimos no mundo pós-moderno, ele também consegue chegar perto de alguma definição ou explicação para os efeitos do Pink Floyd e do porquê de tantas pessoas se identificarem com a banda.
(...) Estar pink não é exatamente o mesmo que estar deprimido ou chateado. Essas emoções costumam ser relacionadas a acontecimentos ou circunstâncias particulares em sua vida. Pink é mais um sentido vago de mal-estar inconsolável, um sentimento de que alguma coisa na estrutura está rompida, não de algo localizado que pode ser consertado, mas de algo mais profundo e difuso em toda a sociedade. É um sentimento de impotência, de que nem mesmo existe uma razão para nos sentirmos ultrajados, já que qualquer coisa que você fizesse, como diz o velho ditado iídiche, seria como urinar no oceano, ou seja, de nada valeria. It can't be helped but there's a lot of it about. Não estamos falando de hanging on in quiet desperation, mas uma reflexão intelectual acerca desse desespero, desejando sem esperança que houvesse algo que pudesse ser feito, sabendo o tempo todo que o problema é endêmico à condição humana.
Optei por colocar este trecho do texto de Gimbel aqui porque acho que ele fez um trabalho louvável e conseguiu, na medida do possível, colocar em palavras o que é sentir o Pink Floyd, de uma forma geral. Todos os trabalhos da banda trazem esse quê de rompimento de estrutura, tanto no sentido mais prático - uso de diferentes técnicas e tecnologias para a gravação de álbuns inovadores -, quanto naquilo que é mais subjetivo, resultando na tal da identificação. Tenho para mim que todos nós, durante a transição para a vida adulta, passamos pelo momento do cair do véu, da abertura das cortinas, da quebra da quarta parede, da saída da caverna, da libertação da matrix. Chame como quiser. É aquele momento quando, pela primeira vez, encaramos a realidade nua e crua, com tudo o que há de mais podre e assustador. Não há exatamente uma idade certa para o processo iniciar e tudo varia de pessoa para pessoa. No meu caso, começou aos 18 anos e acho uma tremenda coincidência que tenha sido justamente naquela época que Dark Side of the Moon aconteceu na minha vida.

Correndo o risco de parecer forçar a barra, peço a licença para traçar um paralelo com algumas ideias que povoam este meu cérebro mirabolante. Uma das coisas que mais me incomodam, apesar de fazer sentido, é que, ao crescer, a gente começa a fingir. De repente, nos tornamos grandes atores, capazes de desbancar qualquer vencedor do Oscar ao entregar excelentes interpretações no Grande Espetáculo da Vida. Acho fascinante como jamais decepcionamos ao escondemos o  nosso verdadeiro eu em prol da felicidade plástica (nossa e alheia) e da estética de um feed harmonizado. Nossos mundos desmoronam, nossos sonhos morrem e a gente vira um bolinho assado em linha de produção belamente decorado com glacê para agradar aos olhares famintos que observam a vitrine. Pode até ser que a massa não esteja boa, mas a aparência é fabulosa, digna de Cake Boss. Não importa se você vai passar mal depois de comer, o importante é manter o simulacro e garantir aquela foto bonita para postar no Instagram. Para além das metáforas culinárias, o que este modus operandi realmente revela é aquilo que sempre pareceu imperar na existência humana: a necessidade de estar no topo da cadeia alimentar. Ou de pelo menos parecer estar no topo da cadeia alimentar. É absurdo o peso que damos à aparência.

Tenho certeza de que se eu me concentrar mais, consigo puxar alguma linha de pensamento que vai terminar com alguma relação entre robôs, vida moderna e capitalismo; contudo, irei poupar à todos nós porque ninguém aqui é obrigado. Seja lá o que eu estava tentando dizer, o ponto de chegada era o fato de que quando a gente cresce, nos adaptamos à um sistema de máscaras que, além de garantir para o universo que somos muito felizes, também oculta parte de quem somos, normalmente aquilo que pode ser visto como escuso e, muitas vezes, as características primordiais que fazem do ser humano o que ele é. A gente é muito podre e sabe disso. E se ilude dizendo que não, não somos. Mas a gente é sim. E é a essa conclusão que eu sempre chego quando termino de escutar Dark Side of the Moon. Ao mesmo tempo em que sinto um conforto perturbador por me sentir representada de alguma forma, também me sinto péssima pela identificação e pelo reconhecimento de que não só estou no mesmo barco que uns músicos muito loucos dos anos 1970, mas também da humanidade de uma forma geral. Dá até pra dizer que foi ali, aos 18 anos e durante o primeiro contato com o álbum, que foi plantada a sementinha da destruição da noção de que floquinho de neve único e especial nunca fui e nunca serei. Dark Side of the Moon é tão discão que até com os infames millennials ele dialoga.

É claro que sendo uma peça artística, o álbum abre margem para múltiplas interpretações, sejam elas acadêmicas e pedantes, ou super particulares em bloguinhos nesta internet sem lei em que insistimos em viver. Há quem diga que os versos finais do álbum - que discorrem sobre o sol ser eclipsado pela lua e sobre não existir um lado escuro da mesma, já que tudo está na escuridão e o que existe mesmo é um lado iluminado - transmitem uma mensagem de esperança. Particularmente, discordo. Se tem uma coisa que o Pink Floyd jamais me passou foi uma noção de otimismo, de que tudo vai ficar bem. Pra mim sempre foi algo na linha de olha, tá tudo uma porcaria mesmo, não tem muito o que fazer, o que resta é aguentar aí e segurar as pontas como puder e o conforto parte da percepção de que sim, tá tudo bem ruim, mas pelo menos não estamos sozinhos no sofrimento. E se não dá pra melhorar, a gente pode pelo menos trocar uma ideia sobre as mazelas da vida. É o tal do hanging on in quiet desperation, o tal do viver pink.

E o que é que nós, jovens fracassos criados à base de promessas, temos feito para lidar com as constantes e, aparentemente, inesgotáveis derrotas da vida que não seja justamente viver pink? Moldando a nossa própria forma de lidar com tudo, o nosso segurar as pontas no desespero calado, por meio de filmes de super-heróis, maratonas Netflix, memes na comunidade sofredora twitteira e outras formas de escapismo rápido e eficiente? Vou além: que não seja se conformar em viver confortavelmente entorpecido ou se entregar completamente à loucura? Fica aí uma questão para se pensar.

Enquanto isso, Dark Side of the Moon continua tão impactante e relevante quanto na época em que foi lançado, uma década também de transição e com uma juventude pós-Woodstock bastante desiludida. Claramente, um clássico. Se esse discão não foi capaz de modificar a minha maneira de pensar sobre música, meus caros, nada mais o fará.

                                                                                                                                

Este post é parte do desafio:


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4 de setembro de 2017

The Scorpio Races (Maggie Stiefvater) • BOOK REVIEW

Eu, que passei os últimos quatro anos falando sobre livros na internet, não sei mais fazer isso. É sério, perdi o jeito; não sei mais fazer resenha. Não confirmo e nem nego que, talvez, seja este o motivo para o quase completo desaparecimento de posts literários. A última resenha de verdade, se não me engano, saiu em abril. Só que, ainda que tenha me tornado uma leitora lerda e de ocasião, não é como se eu não tivesse lido livro algum nos últimos quatro meses. Li sim e quero comentar o que achei, só não estava sabendo muito bem como o fazer. Como pessoa que devaneia em textos que sou, percebi que para voltar a falar sobre livros, precisaria ir direto ao ponto, evitando me perder em rodeios e falando logo o que tiver que falar Por isso, decidi que agora vou usar uma estrutura fixa quando quiser fazer review por aqui, mais ou menos como fiz neste post. E para inaugurar este novo estilo, não poderia escolher outro livro que não fosse um dos meus favoritos recentes: The Scorpio Races, da Maggie Stiefvater. ♥ 


Sobre o que é?
Em termos mais gerais, diria que The Scorpio Races traz  uma história sobre se descobrir, se encontrar e se libertar; com um pouco de romance, dramas familiares e fantasia. Falando de forma mais específica, o livro traz a história de dois personagens, Puck e Sean. Ambos vivem em Thisby, uma ilha minúscula em que todo mundo se conhece e na qual é quase impossível ter uma perspectiva de vida que vá além daquilo que dizem que você deve ser. Ou seja, ou você vai embora, ou você fica por lá e se contente com o que puder. A principal fonte de renda da ilha vem por meio da Corrida de Escorpião, um evento anual que atrai turistas de todas as partes, assim como competidores e comerciantes de cavalos.

A Corrida de Escorpião nada mais é do que uma corrida de cavalos na orla da praia, só que os cavalos não são do tipo comum, mas sim de uma espécie fantástica: os altamente ferozes, indomáveis e perigosíssimos cavalos d'água. Famintas por carne e sedentas por sangue, tudo o que essas criaturas querem é voltar para o mar, seu habitat natural; e é justamente aí que mora um dos principais desafios da corrida, pois, além de precisar se manter na montaria, o jockey (?) também deve fazer o possível e o impossível para manter o cavalo longe da água. Obviamente, muita gente se machuca e muita gente morre. Mas por que raios alguém iria se jogar nessa cilada?, o caro leitor pode estar se perguntando. Pela glória, talvez, mas, principalmente, pelo prêmio. Muitas pessoas apostam nas corridas e há sempre uma alta quantia de dinheiro envolvida, o que é parte dos motivos que levam os protagonistas a decidirem participar da corrida.

Quem são os protagonistas?
Puck Connolly é a irmã do meio e desde que seus pais morreram em um trágico acidente de pesca envolvendo cavalos d'água, ela divide as despesas e as tarefas da casa com os irmãos - Gabe e Finn. Está tudo mais ou menos sob controle até que Gabe, o mais velho, anuncia que irá embora para continente sem dar muitas explicações. Com a situação financeira familiar bastante lamentável, Puck decide se inscrever para a Corrida de Escorpião, o que, normalmente, já seria visto como uma loucura, só que nesse caso é ainda pior já que 1) por não ter um cavalo d'água, ela decide correr com sua égua normal e 2) ela é uma garota, o que contraria o regulamento da corrida, que só permite homens e garotos. Além disso, ela não tem muita experiência com corridas.

Sean Kendrick é o principal campeão das Corridas de Escorpião e, por isso, um dos  maiores atrativos para turistas interessados em apostar no evento. Após perder seu pai quando ainda era criança, ele foi adotado por Benjamin Malvern, o homem mais rico da ilha, que lhe ofereceu abrigo e emprego como domador de cavalos em seu aras. Durante praticamente toda a sua vida, Sean viveu para os cavalos e, principalmente, para Corr, um garanhão vermelho d'água imprevisível, veloz e cobiçado. Contudo, com exceção de Sean, ninguém consegue domá-lo. Fica muito claro, logo no início, que Corr e Sean têm um vínculo muito forte e é justamente por isso que o rapaz tolera a condição em que vive - que não chega a ser de escravidão, mas beira isso -, apesar de já ter juntando dinheiro o suficiente para não precisar manter o trabalho no aras e, principalmente, continuar se arriscando nas corridas.

São eles que nos contarão a história, com capítulos que se intercalam entre as perspectivas de cada um.

O que eu mais gostei?
Os personagens são o meu aspecto preferido do livro, principalmente o Sean. Gosto da forma como Maggie Stiefvater nos apresenta a ele por meio de sua narrativa, mas também pela visão que os outros habitantes de Thisby têm dele. Mas, mais que isso, gosto da personalidade do Sean; da forma como ele é deslocado, indomável e um pouco misterioso, mas também bastante vulnerável, ainda que não o demonstre. O que mais me fascinou é o quanto ele me pareceu real, a ponto de eu acreditar que alguém como ele poderia existir fora dos livros. Não é sempre que consigo me sentir assim em relação a personagens literários e adoro quando acontece. A Puck também é ótima, apesar de me irritar um pouco com a sua impaciência e na forma como se relaciona com os irmãos. Ainda assim, acho muito louvável a postura determinada que ela adota ao lidar com os perrengues que a vida coloca em seu caminho, se recusando a aceitar o papel que esperam que desempenhe e desafiando os padrões ao participar da Corrida de Escorpião. Gosto também da maneira como ela e o Sean se conhecem e como o relacionamento entre os dois é construído de forma sutil e natural.

Outro aspecto que me agradou é a atmosfera da história, que tornou toda a experiência de leitura bastante imersiva. Conseguia "enxergar" a ilha e seus habitantes, sentir os cheiros descritos, assim como a brisa do mar; além de ter uma imagem muito nítida dos cavalos correndo ao pôr do sol. Da mesma forma que tudo me parecia bem idílico, também consegui captar o temor das corridas e a inércia aprisionadora de Thisby, que creio ter sido a intenção da autora.

Por fim, acho que é impossível falar do que gostei no livro sem mencionar a relação do Sean com Corr. Muito mais do que sua montaria, o cavalo d'água parece ser o único que entende o que acontece na mente de Sean, quais são os seus traumas e os seus anseios. É quase como se um fosse reflexo do outro. É muito linda a relação dos dois. ♥

O que pode ser motivo para não gostar?
Uma ressalva que preciso fazer é em relação ao ritmo do livro, que pode parecer demorar um pouco para engrenar. Para mim, não foi um empecilho e gostei de degustar a leitura no meu tempo - levei mais de um mês! -, o que me proporcionou a criação de vínculos com os personagens e me sentir dentro da história. O título também pode passar a ideia de ser uma história de ação e o leitor menos avisado pode se frustrar. Não que a ação não desempenhe um papel na história, mas é só mais para o fim, quando a corrida acontece. Antes disso, é mais uma construção de tudo que irá culminar no desfecho.

Recomendo para quem?
Recomendaria para todo mundo que busca uma história com personagens cativantes. Para quem gosta de histórias de fantasia, o elemento aparece aqui, mas de forma bastante sutil, quase imperceptível, então é interessante ter isso em mente. Digo o mesmo em relação a ação. Se você procura uma leitura cheia de reviravoltas e ganchos ao final de cada capítulo, talvez esta não seja a melhor opção. Agora, se você se interessou, mas tem um pé atrás quando o assunto é YA, acho que The Scorpio Races pode ser interessante porque, tirando a idade dos personagens (algo entre os 19 anos, acho), não senti que é um livro adolescente. Muito pelo contrário, achei os dilemas apresentados bastante palpáveis e, em alguns pontos, fáceis de se relacionar. Dadas as ressalvas, recomendo muitíssimo a leitura. Com certeza um dos meus favoritos do ano.

Trecho:

"I don't trust the ocean, either. It would kill me as soon as not. It doesn't mean I'm afraid of it".

31 de agosto de 2017

08/2017: a playlist de agosto

Ao todo, são 31 músicas que, de forma geral, demonstram que durante o mês de agosto, vivi predominantemente nos anos 80. A seleção foi feita por meio de critérios aleatórios que iam desde uma música que escutei naquele dia, favoritei naquele dia ou me foi apresentada pelo shuffle naquele dia. Nem todas as músicas são reflexos dos sentimentos dos dias que representam, tiveram sim ocasionais esquecimentos, mas acho que, como um todo, o resultado me soa bastante coeso, além de representar muito bem o meu gosto musical atual. Tem gente mais das antigas, mas também tem gente mais recente.

Gostaria de deixar registrados os meus agradecimentos ao Spotify por me lembrar de Man On The Moon - e do R.E.M., que adoro, mas faz tempo que não escuto - e por me apresentar The End Of The Innocence, do Don Henley, a quem deveria me dedicar mais a conhecer - assim como The Eagles. Por fim, achei interessante que comecei o mês de forma bem positiva, com Learning To Fly, de Tom Petty & The Heartbreakers, e terminei no desespero calado, buscando consolo no colo do Harry Styles, que canta Sign Of The Times. É bom demais ser fã dessas coisas simples, mas que deixam a vida mais leve. 


#01 Learning To Fly - Tom Petty & The Heartbreakers
#02 Por Enquanto - Plutão Já Foi Planeta
#03 Walking in the Wind - One Direction
#04 Waves - Dean Lewis 
#05 Life Is A Song - Patrick Park 
#06 Love Is Here to Stay - Lindsay Buckingham, Christine McVie
#07 Steal Your Heart Away - Fleetwood Mac
#08 I Won't Back Down - Tom Petty 
#09 Storms - Fleetwood Mac 
#10 Breathe - Taylor Swift, Colbie Caillat
#11 Touched by an Angel - Stevie Nicks 
#12 Sweet Creature - Harry Styles 
#13 Africa - Toto 
#14 Take it Easy - The Eagles  
#15 All To Well - Taylor Swift
#16 Here Comes The Sun - The Beatles
#17 Maneater - Daryl Hall & John Oats 
#18 Forever Young - Alphaville
#19 Don't Stop Believin' - Journey 
#20 Got My Mind Set On You - George Harrison
#21 Piano Man - Billy Joel 
#22 The End Of The Innocence - Don Henley
#23 Man On The Moon - R.E.M. 
#24 Prisoner - Ryan Adams 
#25 For What It's Worth - Liam Gallagher 
#26 Sultans Of Swing - Dire Straits 
#27 Mad World - Tears For Fears 
#28 Leaning to Fly - Pink Floyd
#29 Even the Score - America 
#30 Isn't It Midnight - Fleetwood Mac
#31 Sign of the Times - Harry Styles

28 de agosto de 2017

Cold & Frosty Morning: uma playlist para dias frios

Ao todo, são 31 faixas, somando 1h56, que me fazem sentir frio e, ao mesmo tempo, me ajudam a lidar com ele. Nem todas estão relacionadas ao clima, mas não ligo muito porque o que importa é que elas soam como inverno para mim. Algumas são bem geladas e chuvosas, outras são como um ventinho nas bochechas e nos cabelos, e tem também aquelas que evocam aquela preguicinha gostosa de manhãs de fim de semana, nas quais só consigo pensar em dormir. Aliás, foi com esse tipo de manhã em mente que criei a lista e, por isso, a chamei de Cold & Frosty Morning. Acho válido mencionar que, apesar da referência, nenhuma música do Oasis foi contemplada pela playlist. Não ia ficar muito ~harmônico~. Não se pode ter tudo. A conclusão veio com Here Comes the Sun, a princípio, pela sonoridade; e depois, porque achei poético o contraste com a faixa de abertura. A gente começa com hello, darkness my old friend e termina com here comes the sun, it's all right. Porque é preciso acreditar que o sol voltará a brilhar. Funciona como um abraço quentinho e familiar ao final de um dia puxado. ♥


#01 The Sound of Silence (Peter Hollens) 
#02 Mykonos (Fleet Foxes) 
#03 Follow Suit (Trent Dabbs) 
#04 Full Moon (The Black Ghosts) 
#05 Welcome Home, Son (Radical Face) 
#06 The Cave (Mumford & Sons) 
#07 The Age of Worry (John Mayer) 
#08 Fare Thee Well (Dink's Song) (Oscar Issac, Marcus Mumford) 
#09 Meet Me in the Hallway (Harry Styles) 
#10 Waves (Dean Lewis) 
#11 The Funeral (Band of Horses) 
#12 Need The Sun To Break (James Bay) 
#13 Let It Go (Tanner Townend, Gardiner Sisters) 
#14 Idaho (Nerina Pallot) 
#15 Stealing Cars (James Bay) 
#16 The Hanging Tree (Angus & Julia Stone) 
#17 Safe & Sound (Taylor Swift, The Civil Wars) 
#18 I See Fire (Peter Hollens) 
#19 Heartbeats (José González) 
#20 The Only Boy Awake (Meadows) 
#21 About The Rain (Ron Pope)
#22 Let Her Go (Passenger) 
#23 Simple Man (Jason Manns, Jensen Ackles) 
#24 See You Again - Acoustic (Tyler Ward) 
#25 Society (Eddie Vedder) 
#26 Cemeteries Of Lodon (Coldplay) 
#27 The Rains of Castamere (Peter Hollens) 
#28 Little Lion Man (Mumford & Sons) 
#29 Snow (Angus & Julia Stone) 
#30 Begin Again (Taylor Swift)
#31  Here Comes The Sun (The Beatles)