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19 de janeiro de 2021

Haroun e o Mar de Histórias (Salman Rushdie) • BOOK REVIEW



Haroun e o Mar de Histórias, de Salman Rushdie, estava no Kindle aguardando para ser lido desde 2017 e seu momento finalmente chegou quando o escolhi para marcar o início do meu 2021 literário. Se a primeira leitura do ano for um indicativo do que os livros me trarão nos próximos meses, já posso ficar feliz, pois a experiência de leitura foi ótima!

Publicado em 1990 e recheado de metáforas e elementos fantásticos,  o livro nos apresenta ao garoto Haroun, que embarca em uma jornada pelo Mar de Histórias para ajudar seu pai, Rashid, a recuperar o dom da palavra.  Apesar da sinopse breve, esse é um livro sobre muitas coisas e cheio de significados.

Logo no início, já fui fisgada pela escrita do autor, que aqui é muito divertida e cheia de bom humor, utilizando trocadilhos e um pouco de ironia também. Por conta dos elementos mágicos  - vi pela internet que muitos consideram a obra como Realismo Fantástico - e a maneira como os acontecimentos são contados, a sensação que tive o tempo todo era a de que estava lendo uma fábula e que o livro, apesar de direcionado ao público infanto juvenil, também traz lições valiosas para os adultos. Ah, sim, e eu com certeza deixei passar várias das mensagens escondidas nas entrelinhas, pois estava curiosa para saber como a aventura iria terminar.

Após concluir a leitura, fiquei interessada em saber mais sobre Salman Rushdie e pude compreender melhor o contexto em que o livro foi publicado e, com isso, passei a atribuir à obra um valor ainda maior. A publicação de seu livro anterior, Versos Satânicos, gerou controvérsias pois foi considerado uma blasfêmia contra o Islã pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que ordenou a sua execução. Assim, Salman Rushdie passou a viver no anonimato, sempre escoltado e fazendo raras aparições ao longo dos anos. Contudo, mesmo perseguido, o autor continuou escrevendo e Haroun e o Mar de Histórias foi a sua primeira obra publicada após a ordem de execução. Afastado da família, ele escreveu o livro com o intuito de ensinar o seu filho, na época ainda criança, a importância da liberdade de expressão.

Afinal de contas, o que são essas histórias todas? A vida não é nenhum livro de histórias, nem uma loja de piadas. Todo esse divertimento ainda vai acabar mal! E pra que servem essas histórias que nem sequer são verdade?

"E pra que servem essas histórias que nem sequer são verdade?"  é um questionamento com o qual o leitor depara algumas vezes ao acompanhar a jornada de Haroun. Fiquei pensando nessa pergunta e também nas reflexões levantadas e ensinamentos transmitidos pela obra de Rushdie e de tantos outros autores com quem cruzei nessa minha caminhada de leitora. Para que servem as histórias? Qual é o propósito da ficção?

Muito mais do que entreter e proporcionar escapismo em momentos difíceis, penso que as histórias nos ensinam sobre nós e nos ajudam a compreender melhor quem fomos, quem somos e quem podemos ser. Elas nos apresentam ao mundo, com todas as suas imperfeições e diferentes realidades, e nos ensinam sobre o passado e sobre o presente. As histórias nos permitem enxergar os problemas e nos apresentam soluções. Por meio das histórias podemos experienciar o poder da imaginação e também entender a sua importância. As histórias são muito poderosas, elas plantam sementinhas de novas ideias na mente do leitor.  E as mais fortes sempre carregam um enorme potencial para mudanças. Deve ser por isso que tanta gente tem medo delas. Imagino que sejam realmente assustadoras para aqueles que gostam de silenciar e têm aversão à transformação.

Enfim, o livro me fez pensar nessas coisas e imagino que uma releitura, além de me fazer enxergar mais aspectos na história, também me levará à novas reflexões. Creio que os melhores livros façam isso com a gente. Agora, depois dessa primeira experiência bem sucedida, definitivamente pretendo ler outras obras do autor; estou curiosa para saber como são seus livros para o público adulto. Espero que o ano literário de vocês tenha começado tão bem como o meu e, claro, fica aqui a recomendação para que vocês leiam Haroun e o Mar de Histórias.

10 de janeiro de 2022

As leituras de 2021 | RETROSPECTIVA 2021 (parte 3)


2021 foi um ano difícil, praticamente uma extensão do ano anterior. Mas quando o assunto é leituras, não tenho do que reclamar. De forma geral, gostei de tudo o que li e até nas decepções consegui encontrar algo de positivo para fazer a leitura valer. Foi um ano marcado por histórias de fantasia, mistério, terror, romance e drama. Todas histórias envolventes e com personagens que se tornaram queridos e dos quais irei me lembrar com carinho. ❤


AS LEITURAS DE 2021


Livros

Haroun e o Mar de Histórias (Salman Rushdie) | The Southerns Book Club's Guide to Slaying Vampires (Grady Hendrix) | Helter Skelter (Vincet Bugliosi & Curt Gentry) | Anexos (Rainbow Rowell) | The Brightest Star in The North: The Adventures of Carina Smyth (Meredith Rusu) | The Invisible Life of Addie Larue (V.E. Schwab) | Gótico Mexicano (Silvia Moreno-Garcia) | City of Glass (Cassandra Clare) | City of Fallen Angels (Cassandra Clare) | City of Lost Souls (Cassandra Clare) | Elevation (Stephen King) | Crema (Johnnie Christmas & Dante Luiz) | Diga sim ao marquês (Tessa Dare) | Noite sem fim (Agatha Christie) | Before the coffee gets cold (Toshikazu Kawaguchi) | City of Ghosts (Victoria Schwab) | The Absolutely True Diary of a Part-Time Indian (Sherman Alexie) | Caraval (Stephanie Garber) | City of Heavenly Fire (Cassandra Clare) | If The Fates Allow: A Short Story (Rainbow Rowell) | Can This Be Christmas? (Debbie Macomber) | A Aventura dos Sete Cartões de Natal: uma aventura de Natal de Sherlock Holmes (Anthony Horowitz) | Morte no Nilo (Agatha Christie)

Mangás & Graphic Novels

Vampire Knight, volumes 12 - 19 (Matsuri Hino) | Pretty Guardian Sailor Moon, volumes 1 - 3 (Naoko Takeushi) | BECK: Mongolian Chop Squad, volumes 1 - 16 (Harold Sakuishi) | Laura Dean vive terminando comigo (Mariko Tamaki) | The Infernal Devices: Manga (Cassandra Clare & Hyekyung Baek) | Sheets (Brenna Thummler) | Book Love (Debbie Tung) | Boa Noite, Punpun - volume 1 (Inio Asano) | Tarot Café (Sang-Sun Park) | Mooncakes (Suzanne Walker)

Webtoons

Mystical | Crumbs | True Beauty | Rooftops & Roomates | Third-Shift Society | Twistwood Tales


O maior livro: City of Heavely Fire, com 775 páginas
O menor livro: Elevation, com 146 páginas
Os abandonados, mas que pretendo ler no futuro: Kitchen (Banana Yoshimoto), O Mar Sem Estrelas (Erin Morgenstern), The Invisible Circus (Jeniffer Egan) e A última festa (Lucy Foley)
Os inacabados que viraram pendências para 2022: Aconteceu naquele verão (vários autores), Antologia Poética (Florbela Espanca), The Neverending Story (Michael Ende)*, Bliss (Lauren Myracle)* e O elefante desaparece (Haruki Murakami)
Lidos das listas de leitura: Helter Skelter, para o Rory Gilmore Book Challenge; Noite Sem Fim e Morte no Nilo, para o Lendo Agatha Christie; Elevation, para o Lendo Stephen King.
Personagens favoritos: Henry e Addie, de The Invisible Life of Addie Larue; Koyuki, de BECK: Mongolian Chop Squad; Magnus Bane e Simon Lewis, de Os Instrumentos Mortais; Wendell, de Sheets.
As decepções do ano: Gótico Mexicano (Sylvia Moreno-Garcia) e Caraval (Stephanie Garber)

AS MELHORES LEITURAS DO ANO


Foi difícil fechar a lista com apenas dez melhores leituras, mas fiquei feliz com o resultado. São todas leituras 3 estrelas ou mais e que recomendo:

• The Southern Book Club's Guide To Slaying Vampires (Grady Hendrix) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• BECK: Mongolian Chop Squad (Harold Sakuishi) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• Helter Skelter (Vincent Bugliosi & Curt Gentry) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• Before The Coffee Gets Cold (Toshikazu Kawaguchi) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• Morte no Nilo (Agatha Christie) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• Haroun e o Mar de Histórias (Salman Rushdie) 
⭐⭐⭐⭐

• A vida invisível de Addie Larue (V.E. Schwab) 
⭐⭐⭐⭐

• Sheets (Brenna Thummler) 
⭐⭐⭐⭐⭐

• The Absolutely True Diary of a Part-Time Indian (Sherman Alexie) 
⭐⭐⭐⭐

• Anexos (Rainbow Rowell) 
⭐⭐⭐


Menções honrosas para a série Os Instrumentos Mortais (Cassandra Clare), que terminei esse ano, e a minha releitura de A História Sem Fim (Michael Ende), que ainda não concluí, mas foi bem marcante em 2021.


--
* releitura

18 de março de 2021

O primeiro trimestre de 2021: mudanças, novas intenções e leituras recentes

Março já está chegando ao fim e eu ainda não senti a menor disposição para sentar e gravar um vídeo conversando sobre o que li desde que 2021 começou, assim como as (muitas!) leituras que ficaram pendentes do ano passado. Ciente de que não tenho nenhuma obrigação e que o meu diário de leitura virtual é apenas uma coisa que faço como diversão e para registrar as minhas leituras, decidi aceitar as coisas como elas são e tentar me adaptar a esse estranho e imprevisível ritmo com o qual tenho operado. O canal está lá e não pretendo desativar nada em um futuro próximo, mas também não faço mais promessas de retorno. O que tiver que ser, será. Acho que uma das principais lições que aprendi desde que o mundo virou do avesso é que a gente precisa sempre respeitar o nosso ritmo, assim como nossos momentos e nossos ciclos. A vida é cheia de fases, nossas prioridades mudam e a gente tenta encaixar nossas paixões em novas rotinas do jeito que dá e da maneira mais saudável.

Ainda não sei como irei registrar as minhas leituras em 2021, mas sei que quero fazer algo um pouco mais consistente do que fiz no ano passado. Gosto de poder voltar aos meus registros de tempos em tempos para ver se algo mudou em minhas opiniões ou apenas para refrescar a memória que, depois de trinta décadas, já começa a falhar. A escrita e os blogs sempre foram as ferramentas com as quais me sinto mais confortável, aquelas com as quais tenho mais familiaridade, e é justamente por essas razões que é à elas que recorro agora. O mundo não está seguro e o momento é de desconforto, não há razão para complicar ainda mais as coisas tirando a leveza daquilo que sempre foi uma fonte de prazer e inspiração. Não sei se vai dar certo, mas quero tentar. 

***

Por aqui, o primeiro trimestre de 2021 foi marcado pela sensação de que nada mudou e que ainda estamos em 2020, o que me deixou bastante inquieta, frustrada e derrotada. Por isso, busquei leituras envolventes e, de forma geral, escapistas. A maioria de fantasia ou com elementos mágicos e/ou sobrenaturais, assim como algum aspecto de romance. Encontrei um dos livros mais legais que já li e forte candidato para a lista dos melhores do ano, fiz uma leitura realmente assustadora e comecei algumas que pretendo continuar nos próximos meses. Ao todo, foram 5 livros e 9 mangás - nenhum avaliado com menos de 3 estrelas, o que considero um indicativo de que foi um bom período de leituras.


Haroun e o Mar de Histórias, de Salman Rushdie | ★★★★
O livro que escolhi sem muita cerimônia para iniciar o ano e não consigo pensar em uma obra melhor para isso. Aqui temos uma história de fantasia com um protagonista juvenil que sai em uma aventura e só isso já seria meio caminho andado para que eu gostasse do livro, mas Salman Rushdie foi além e entregou uma história cheia de metáforas e lições importantes, principalmente sobre a liberdade de expressão e o poder das histórias. Falei melhor sobre a leitura nesse post e nesse vídeo de leituras recentes.

O Jardim das Palavras, de Makoto Shinkai e Midori Motobashi (arte) | ★★★
Até agora não sei dizer exatamente o que achei desse mangá. Achei que faltou algo e que talvez por isso eu não tenha conseguido me conectar totalmente com a história, ou talvez o momento da leitura não tenha sido o mais favorável. Ou talvez essa seja uma daquelas histórias sobre as quais a gente não consegue ter uma opinião definitiva sobre tudo. Acho que irei reler em algum momento. O mangá é uma adaptação do filme de mesmo nome e acho que fui capaz de ter uma visão mais completa da história depois que assisti. Se tivesse que escolher, diria que prefiro o filme porque acho que as cores e a trilha sonora contribuem mais para a atmosfera melancólica e reflexiva da história. Porém, acho que para ter uma noção completa de tudo, seria interessante conhecer as duas obras, já que fiquei com a sensação de que elas se completam.

Vampire Knight, de Matsuri Hino (volumes 12 a 19) | ★★★★
Depois de mais de dez anos, finalmente terminei de ler essa série. Gostei de algumas coisas, detestei outras. Alguns aspectos continuaram muito legais e outros envelheceram muito mal. No geral, gostei da experiência e de acompanhar a história, por mais confusa que ela tenha ficado nos últimos volumes. Vou sempre me lembrar de tudo com muito carinho porque foi o primeiro mangá com que tive contato. Ainda estou me decidindo se irei escrever algo sobre essa série, mas em todo caso quero deixar registrado que meus personagens preferidos são o Zero, o Aidou e o diretor Kurosu.

The Southern Book Club's Guide to Slaying Vampires, de Grady Hendrix | ★★★★★
O livro foi lançado no primeiro semestre de 2020 e desde então, eu estava bem curiosa. Fiquei adiando a experiência e optei por conhecer o autor por meio de um livro anterior, My Best Friend's Exorcism, que acabou sendo um dos meus favoritos do ano passado e me fez colocar Grady Hendrix na lista de autores para ler mais em 2021. Depois de finalmente ler, preciso dizer que o hype é merecido. O livro é ótimo, não só por ser bastante envolvente, mas também por trazer camadas que vão além daquilo que estamos lendo. É um thriller de vampiro, mas é bem mais que isso. Um dos meus favoritos do ano, pretendo falar mais sobre ele no futuro.

Helter Skelter - The True Story of  the Manson Murders, de Vincent Bugliosi e Curt Gentry | ★★★★★
Gosto muito de ler e assistir coisas sobre os anos 1960 nos Estados Unidos, principalmente sobre o fim da década, os movimentos de contracultura, as músicas, a moda, etc. Assim, era apenas uma questão de tempo até que eu chegasse à Família Manson e ao livro que, até onde sei, é a obra mais completa sobre os assassinatos Tate-LaBianca e os julgamentos dos assassinos. Há anos queria ler o livro e todas as expectativas criadas foram atingidas, pois valeu cada instante da longa leitura. É um livro exaustivo em alguns momentos, mas é muito interessante e envolvente. Já escrevi sobre ele aqui e recomendo bastante para quem gosta de true crime ou se interessa pelo assunto.

Anexos, de Rainbow Rowell | ★★★
Depois de dois livros mais grotescos, precisei buscar algo mais leve na estante e finalmente reencontrei a Rainbow Rowell. Anexos foi uma leitura gostosinha, aquela comédia romântica que aquece o coração e a que faz a gente torcer pelos personagens. Adorei a forma como a autora estruturou a narrativa e também a ambientação no fim dos anos 1990. Esse foi o primeiro trabalho que li da autora que não é direcionado ao público jovem adulto e fiquei feliz ao perceber que sigo gostando do do estilo dela e de suas histórias. Fiz esse post com as coisas que mais gostei no livro e agora estou determinada a ler os outros trabalhos da Rainbow que ainda não li.

The Brightest Star in the North - The Adventures of Carina Smythe (Meredith Rusu) | ★★★
Comprei esse livro companion quando o filme mais recente da franquia Piratas do Caribe estava para estrear nos cinemas em 2017; por ser um prequel, a intenção era ler antes de assistir ao filme, mas só fui tirar o livro da estante no último fim de semana. Acho que foi melhor assim, já que a última parte é praticamente uma romantização do filme e, por isso, é cheia de spoilers. Em todo caso, gostei da leitura. Não por ser algo excelente, mas por ser exatamente aquilo que se propõe a ser: uma história de origem da personagem Carina Smythe. Aqui é possível compreender melhor as motivações dela e o que a leva ao ponto em que a conhecemos no início do filme, gostei de alguns diálogos e vou carregar várias citações para a vida. Foi uma leitura divertida, que me transportou para um universo que eu adoro e me deixou com vontade de pesquisar mais livros com piratas.